Aos 40 anos, o goleiro cabo-verdiano Vozinha viu sua vida mudar após brilhar na Copa de 2026 e ser indicado ao prêmio Yashin. O sucesso histórico rendeu-lhe transferência para o Colo-Colo e milhões de seguidores, mas custou sua privacidade. O atleta admitiu que a fama repentina tirou sua paz e que preferia a antiga rotina anônima. Em meio ao assédio e à adaptação no Chile, ele segue como titular da sua seleção, buscando manter o alto nível após falhar na estreia das eliminatórias da CAN.
A Copa do Mundo de 2026 mudou a trajetória de Vozinha. Aos 40 anos, o goleiro cabo-verdiano ganhou destaque após brilhar no empate com a Espanha e ajudar Cabo Verde a chegar às oitavas, onde voltou a se destacar contra a vice-campeã Argentina.
Mas o reconhecimento trouxe um preço que o próprio não esperava pagar. Em entrevista ao The Observer, Vozinha abriu o jogo sobre o impacto da fama e admitiu que sente falta da tranquilidade que tinha antes da Copa.
"Perdi a minha paz"
A dimensão da exposição foi inesperada. Antes da Copa do Mundo, Vozinha tinha cerca de 50 mil seguidores no Instagram. Depois da campanha histórica de Cabo Verde, esse número ultrapassou os 20 milhões.
Vozinha também sente o peso da fama. "Já não tenho privacidade, ou pelo menos tenho muito menos do que tinha", afirmou, relatando pedidos de fotos, autógrafos e filmagens até durante idas a restaurantes.
"Perdi a minha paz e tranquilidade. Foi isso que mais mudou na minha vida. Muitas pessoas querem ser famosas e ter um perfil público, mas só veem o lado positivo dessa realidade. Para ser sincero, se me oferecessem a vida que tenho hoje ou a vida que tinha antes, escolheria a que tinha antes", disse.
A declaração ganha ainda mais peso quando se olha para o percurso do cabo-verdiano. Durante anos, Vozinha construiu uma carreira longe dos grandes holofotes, com passagem pelo Gil Vicente, AEL Limassol, AS Trencin e, mais recentemente, pelo Chaves, onde atuava na Liga 2 portuguesa.
Do Mundial para o Colo-Colo
A atuação diante da Espanha abriu, no entanto, uma porta que dificilmente se fecharia. Vozinha terminou o Mundial como um dos grandes destaques da posição, com 18 defesas e uma taxa de eficácia de 78%, além de ter levado a Argentina de Lionel Messi até ao prolongamento nas oitavas de final.
Pouco depois, surgiu o convite do Colo-Colo. O goleiro assinou contrato até ao final de 2026, com uma cláusula que pode prolongar automaticamente o vínculo por mais uma temporada caso cumpra determinado número de minutos.
No Chile, a adaptação também está a acontecer aos poucos. Vozinha estreou-se pelo Colo-Colo na Copa Chile, diante do Unión Española, e depois ganhou a titularidade na Liga de Primera. Foi titular contra o Huachipato, num empate sem gols, e voltou a jogar diante do Deportes Concepción, partida que terminou empatada a um gol. No total, soma três jogos pelo clube.
O treinador Fernando Ortiz chegou a destacar a nomeação de Vozinha para o prémio Yashin, reservado aos melhores arqueiros do mundo, e voltou a apostar nele como titular depois da estreia no campeonato chileno.
Um novo desafio com Cabo Verde
Na Seleção, contudo, o momento recente é mais complicado. Vozinha decidiu continuar a representar Cabo Verde depois de inicialmente ter colocado um ponto final na carreira internacional. A histórica participação na Copa reforçou a ligação com os Tubarões Azuis, agora comandados por Humberto Bettencourt, que assumiu o cargo após a saída de Bubista.
No arranque da qualificação para a CAN 2027, porém, Vozinha cometeu um erro frente ao Mali e acabou por oferecer o terceiro gol aos adversários, numa derrota por 3 a 1. A resposta poderá chegar já no próximo compromisso, diante do Ruanda, num duelo marcado para amanhã (dia 29). Cabo Verde começa assim uma nova fase depois do histórico Mundial, e o goleiro continua no centro da história.
Aos 40 anos, o camisa 1 da seleção que fala português vive uma contradição curiosa: nunca foi tão famoso, mas nunca desejou tanto recuperar parte da vida anónima que tinha antes. Dentro de campo, entretanto, continua a procurar provar que a extraordinária campanha na Copa não foi um capítulo isolado.
*André Freixo, enviado especial da Agência RTI Esporte, direto de Portugal