A pequena cidade de Foxborough, com 18 mil habitantes, em Massachusetts, vai receber sete jogos da Copa do Mundo de 2026. O local faz parte da sede de Boston, a 46 km dali.
Mas, a menos de 100 dias para o Mundial, a cidade pode ficar fora do Mundial. O município reluta em conceder a licença para a realização do evento, enquanto não houver a garantia de pagamento de US$ 7,8 milhões (R$ 40,6 milhões) para a segurança no entorno do Gillette Stadium.
A Fifa não intervém na situação e espera que o comitê local resolva a questão junto à Câmara Municipal. O prazo para um veredito é 17 de março, quando ocorre nova reunião dos conselheiros municipais. Enquanto isso, o estádio com capacidade de 65 mil lugares não tem confirmação sobre receber os sete jogos previstos, dos quais dois são do Grupo C, do Brasil.
Quais jogos estão previstos para o Gillette Stadium?
Fase de grupos
- Haiti x Escócia (Grupo C) - 13 de junho
- Bolívia/Iraque/Suriname x Noruega (Grupo I) - 16 de junho
- Escócia x Marrocos (Grupo C) - 19 de junho
- Inglaterra x Gana (Grupo L) - 23 de junho
- Noruega x França (Grupo I) - 26 de junho
Segunda fase
- 1º do Grupo E x 3º do Grupo A/B/C/D/F - 29 de junho
Quartas de final
- Vencedor do jogo 89 x Vencedor do jogo 90 - 9 de julho
O Gillette Stadium pertence ao Kraft Group, liderado pelo multibilionário Robert Kraft. O local é casa do New England Patriots da NFL e do New England Revolution da MLS.
O Kraft Group, como proprietário, sublicenciou o espaço para a Fifa, que precisa da licença municipal. A entidade é representada pelo Boston Soccer 2026. O grupo chegou a apontar ao Conselho Municipal que o Kraft Group garantiria o financiamento de segurança. Isso não convenceu, por ter sido apresentado o prazo de 1º de junho para a compra de equipamentos e materiais de segurança, o que é considerado muito em cima, já que a abertura da Copa será em 11 de junho.
O município também reluta em pagar, já que o valor de US$ 7,8 milhões equivale a cerca de 10% do orçamento municipal. A pressão por um financiamento externo foi endossada pelo chefe de polícia de Foxborough, Michael Grace, em reunião do conselho. "Estamos a 99 ou 100 dias de sediar o maior evento esportivo do mundo e não conseguimos encontrar o financiamento necessário para os equipamentos essenciais identificados em mais de um ano e meio de planejamento", disse Grace.
O Boston Soccer 2026 descarta que a Copa perca Foxborough. "Entendemos o que eles precisam. Concordamos plenamente com os requisitos e estamos trabalhando nos detalhes. Continuo convencido de que conseguiremos superar essa etapa", disse o presidente do comitê, Mike Loynd, ao The Athletic.
Entre o conselho municipal de Foxborough, porém, há críticas sobre o Boston Soccer 2026, no sentido de não ter havido proposta concreta, mas se espera um acordo possível.
"Temos plena autoridade e capacidade para tomar qualquer decisão que seja melhor para a segurança pública e para a cidade", avalia o presidente do conselho municipal, Bill Yukna. "Eu me solidarizo com os cidadãos e contribuintes da cidade de Foxboro. É para isso que fomos eleitos. É isso que devemos fazer."
Financiamento público está travado em reflexo da crise migratória
Essa crise poderia ser contida com verba federal do governo dos Estados Unidos. O Estado de Massachusetts solicitou US$ 46 milhões (R$ 239,5 milhões) para despesas da Copa do Mundo. Há, contudo, outro problema.
A verba liberada está paralisada. O órgão responsável pela administração do dinheiro é a Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema, na sigla em inglês), vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS). Parlamentares democratas exigiram restrições às operações do DHS após as mortes de Renee Good e Alex Pretti em ações do ICE, a polícia migratória dos Estados Unidos. Isso trancou o repasse.
O não pagamento virou tema político. A deputada Nellie Pou, de Nova Jersey, disse que a situação é "inaceitável". O distrito da parlamentar conta com o MetLife Stadium, palco da final da Copa do Mundo.
"O Congresso destinou US$ 625 milhões (R$ 3,25 bilhões) para as 11 cidades-sede de jogos da Copa do Mundo, incluindo meu distrito. Faltando apenas cerca de quatro meses para o início do torneio, essas cidades ainda relatam não ter recebido essa verba. Isso é completamente inaceitável tão perto do começo", disparou em uma audiência junto ao Comitê de Segurança Interna da Câmara dos Representantes, em 24 de fevereiro.
"Se o Departamento de Segurança Interna (DHS) pretende desempenhar um papel neste torneio, precisa ser transparente, coordenado e ágil. A Copa do Mundo é um palco global. Precisamos agir como se estivéssemos preparados. O tempo está se esgotando", completou.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, respondeu em uma publicação no X (antigo Twitter). Segundo ela, a Fema estava nos estágios finais de revisão de solicitações para garantir a supervisão adequada quando os democratas pediram pela paralisação, colocando uma parte da equipe da agência em licença administrativa.
"Nenhum recurso foi concedido ainda no âmbito do programa de subsídios para a Copa do Mundo da Fifa. Quanto mais tempo o Departamento de Segurança Interna ficar sem financiamento, menos preparado nosso país estará para ameaças na Copa", escreveu.
Mas o discurso de cobrança tem tido mais força. Na mesma reunião da manifestação de Nellie Pou, Ray Martinez, diretor de operações do comitê organizador da Copa do Mundo de Miami, também colocou em xeque a participação da cidade.
"Estamos a cerca de 70 dias do início da organização do evento para os fãs. Essas decisões precisam ser tomadas. Sem receber esse dinheiro, as consequências para o nosso planejamento e coordenação podem ser catastróficas", disse.
Os repasses que não envolvem o Departamento de Segurança Interna continuam. Nesta semana, o governo federal liberou US$ 100 milhões (R$ 520,8 milhões) para a preparação dos sistemas de transporte público das cidades-sedes.