Após exatos 39 dias e repleta de cenas emocionantes, a Copa do Mundo de 2026 chegou ao fim. Na edição mais longa da história da competição, torcedores --mesmo não sendo fanáticos por futebol-- passaram semanas acompanhando os jogos, criando expectativas, fazendo bolões e organizando a rotina para viver esse momento tão aguardado depois de quatro anos ao lado de amigos e família. Com o final do torneio, no entanto, é comum muitas pessoas relatarem uma sensação de "vazio". Mas por que isso acontece? Quando é preciso se preocupar? E como retomar a rotina de forma equilibrada? O Terra conversou com uma especialista para explicar esse sentimento.
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Segundo a professora Lidyane Santos, do curso de Psicologia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), sentir esse "vazio", um desânimo ou uma nostalgia durante os primeiros dias após a final da Copa do Mundo ou de outros grandes eventos é normal e corresponde a uma reação natural do corpo a uma mudança de rotina e de emoções.
Há vários nomes técnicos que podem ser usados para definir essa sensação, como luto simbólico ou depressão pós-evento. "É quando eu criei toda uma expectativa para aquele evento e ele tem um fim, e eu preciso lidar com esse espaço mais vazio", afirma Lidyane.
Ela explica que as competições esportivas trazem um grande envolvimento emocional e pode estimular vários hormônios do corpo. Por exemplo:
- o cortisol: um hormônio que atua de diferentes formas, como na resposta ao estresse, no controle do sono, na regulação do metabolismo;
- a dopamina: um neurotransmissor produzido pelo cérebro que traz a sensação de recompensa, motivação, regulação do humor;
- a amígdala cerebral: estrutura dentro do sistema límbico que funciona como o "alarme" do corpo. A função é identificar perigos, processar as emoções e acionar a resposta;
- a adrenalina: liberada para preparar o corpo para uma reação de perigo ou de grande esforço físico, aumentando os batimentos cardíacos e a pressão arterial.
Quando a Copa do Mundo acaba, o cérebro começa a passar por um período de ajustes desses estímulos. "Durante o Mundial, a pessoa teve um dia que saía do trabalho mais cedo, tinha um evento com os amigos, que traz um convívio social e uma participação emocional. Quando acaba, às vezes de forma abrupta, a pessoa perde, ela começa a sentir a sensação temporária de vazio. O cérebro precisa se reorganizar. Ele vai entender que naquela semana não vai ter mais o encontro com os amigos, que vai ser diferente, o cérebro precisa se readaptar a essa ausência", detalha a psicóloga.
Como a competição também traz um sentimento de união nacional, o término pode gerar uma perda do senso de pertencimento e alterar o bem-estar. "A Copa desperta esse sentimento de união, porque ela cria uma identidade coletiva. Naquele dia, todo mundo está com o mesmo objetivo final, que é o Brasil ganhar, por exemplo, e elas compartilham e vivenciam emoções semelhantes, elas participam de um rito social. Quando tem essa quebra de vínculo e encerra esse momento de união é justamente a perda temporária dessa experiência coletiva que contribui com a sensação de vazio", destaca a professora.
Qual o limite para essa sensação de "vazio"?
Lidyane explica que, na maioria dos casos, essa sensação não representa um transtorno mental. "Faz parte de uma adaptação, de um encerramento de ciclo. Porém, há vazios mais intensos, quando persiste, quando começa a vir uma tristeza mais profunda, até de um isolamento. Nesse caso, falamos de um transtorno, de uma patologia."
Portanto, sentir uma tristeza ou um tédio nos primeiros dias pós-Copa é normal, mas há alguns sinais que acende o alerta para algo mais sério e é preciso ficar atento. "Isso varia de pessoa para pessoa. Pessoas muito melancólicas podem levar mais tempo. Mas a gente não olha só para o tempo, mas para o prejuízo", diz a psicóloga.
"Sentir falta de um jogo, de estar com as pessoas, é comum, nós estávamos sempre juntos e agora não estamos mais. O que nos preocupa é a pessoa começar a cair em outras qualidades de vida, ter um desânimo mais constante, não querer sair em outros eventos, ter pensamentos mais angustiantes, irritabilidade intensa, sensação de desesperança em outros eventos da vida, falta de motivação de continuar a rotina, aí nós olhamos para uma relação mais patológica", completa. Nessa situação, é importante procurar um especialista para ajudar.
Como retomar a rotina pós-Copa?
Para preencher esse espaço que ficou vago depois da Copa do Mundo e fazer uma transição suave da empolgação para a rotina comum do dia a dia, a psicóloga orienta buscar mais atividades físicas e tentar continuar encontrando amigos e família.
"Mesmo que não seja toda semana, mas uma vez por mês encontrar um amigo e tomar um café, se tornando também um hábito de resgatar as amizades que nós não vemos há anos, que nós não procuramos", ressalta.
Apesar disso, a especialista pontua para tomar cuidado com os excessos: "Por exemplo: toda quarta eu estava indo lá no bar fazer isso, então vou continuar indo toda quarta. Às vezes não é todos os outros que conseguem acompanhar e aí tem esse sentimento de, 'ah, as pessoas não se importam comigo', e não é bem assim. A pessoa está querendo colocar ali numa rotina, o que acontece a cada quatro anos".