Apenas dois técnicos pretos comandam clubes na Série A do Brasileirão

Com apenas 10% dos cargos na elite e índice nulo na segunda divisão, futebol brasileiro repete abismo histórico entre atletas no campo e líderes

24 ago 2026 - 23h47
(atualizado às 23h47)
Resumo
O futebol brasileiro evidencia uma forte disparidade racial na liderança técnica: apenas dois treinadores pretos atuam na Série A (Marcão, do Fluminense, e Jair Ventura, do Vitória) e nenhum na Série B. Esse cenário representa apenas 5% dos 40 clubes das duas principais divisões nacionais, contrastando com a maioria de atletas pretos em campo e escancarando barreiras institucionais e a baixa representatividade na transição de ex-jogadores para cargos de comando.

O futebol brasileiro segue reproduzindo um contraste evidente entre quem atua dentro das quatro linhas e quem ocupa os cargos de liderança fora delas. No cenário atual do Campeonato Brasileiro, a presença de Marcão, do Fluminense, e Jair Ventura, do Vitória, é um forte legado. Eles são apenas os dois únicos técnicos pretos entre os 20 clubes da Série A. Ao expandir a análise para a Série B, o afunilamento se torna absoluto: não há nenhum profissional dessa etnia empregado na segunda divisão nacional.

A saber, o levantamento revela que, em um universo de 40 clubes profissionais que disputam as duas principais divisões do país, 38 equipes mantêm comandantes brancos ou estrangeiros. Sem dúvida, a disparidade escancara o teto de vidro na transição de ex-atletas para cargos estratégicos de comissão técnica e gestão desportiva.

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Recorte nacional de técnicos pretos

A inexistência de treinadores pretos na Série B fecha uma das principais portas de desenvolvimento para novos nomes à beira do campo:

  • Série A: Apenas 10% dos postos ocupados (Marcão e Jair Ventura em um universo de 20 equipes)

  • Série B: 0% de representatividade racial nas comissões técnicas principais entre os 20 clubes

  • Total consolidado: Apenas dois profissionais pretos entre 40 cargos nas Séries A e B (5% do ecossistema)

Dados históricos mapeados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol indicam que essa proporção raramente superou os 10% na elite ao longo das últimas décadas. Além da escassez de contratações, levantamentos do setor apontam que técnicos pretos historicamente enfrentam menor tolerância da opinião pública e de diretorias diante de sequências negativas de resultados.

Marcão foi finalmente, efetivado no comando técnico do Fluminense –
Marcão foi finalmente, efetivado no comando técnico do Fluminense –
Foto: Marcelo Gonçalves / FFC / Jogada10

Autodeclaração e barreiras institucionais

O debate sobre representatividade no futebol ganha peso através dos censos esportivos e do posicionamento institucional dos profissionais. Filho do histórico atacante Jairzinho, Jair Ventura figura constantemente nos levantamentos demográficos da modalidade como um dos raros treinadores que afirmam sua identidade preta no primeiro escalão.

Ao mesmo tempo, Marcão representa a trajetória de resistência comum a ex-atletas pretos, tendo percorrido anos como auxiliar técnico fixo e interino antes de obter oportunidades efetivas à frente de projetos de elite.

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Por fim, a disparidade numérica entre a base de atletas — majoritariamente composta por pretos retintos e não-retintos — e a cúpula dos bancos de reservas comprova que a barreira institucional no futebol brasileiro persiste. E que, de fato, exige ações concretas dos clubes para abrir espaços legítimos e contínuos de comando técnico.

Jair Ventura vem fazendo boas temporadas comandando o Vitória –
Foto: Victor Ferreira/Vitória / Jogada10
Foto: Lucas Merçon/Fluminense e Victor Ferreira/EC Vitória - Legenda: Marcão e Jair Ventura são os únicos comandantes pretos do futebol brasileiro nas Séries A e B / Jogada10

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