Presidente do Cuiabá critica Corinthians por atrasos: 'Se tiver que cair para a Série B, que caia'

Ao 'Estadão', Cristiano Dresch afirma que CNRD é complacente com inadimplência do clube paulista em plano de pagamentos; em resposta, Corinthians diz que 'está empenhado em buscar soluções que permitam o cumprimento de suas obrigações financeiras'

29 out 2026 - 07h27
(atualizado às 07h40)
Resumo
O presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, criticou a inadimplência do Corinthians e a complacência da CNRD quanto às dívidas do clube paulista, que deve mais de R$ 16 milhões pela compra de Raniele. O Cuiabá pediu o fim do plano de pagamentos da equipe na CBF, além de transfer ban e perda do certificado de formador. Dresch também condenou o acordo corintiano com a Caixa pelo estádio e defendeu punições esportivas rigorosas, enquanto o Corinthians afirma buscar soluções financeiras.

O presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, não poupou críticas ao Corinthians pelos seguidos atrasos nas parcelas do plano de pagamento coletivo na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD). Ao Estadão, o dirigente afirma que o órgão da CBF tem uma postura complacente com a inadimplência do clube paulista e criticou a negociação do clube com a Caixa pela quitação da Neo Química Arena em troca do naming rights.

Publicidade

Recentemente, o Cuiabá protocolou na CNRD um pedido formal para a extinção do plano coletivo de pagamento do clube paulista, alegando que a manutenção do acordo tornou-se extremamente danosa aos credores. No requerimento, foi solicitado a aplicação de um transfer ban de dois anos ao Corinthians e a suspensão ou cancelamento do Certificado de Clube Formador do Corinthians, medida que impacta diretamente a proteção e o registro de jovens jogadores na base. Ainda não há prazo para a análise do pedido.

Procurado, o Corinthians reforçou o comunicado divulgado em 20 de outubro, no qual informou que está ciente da situação envolvendo o acordo firmado junto à CNRD e segue trabalhando para regularizar a questão. "O Clube tem se empenhado na busca de soluções que permitam o cumprimento de suas obrigações financeiras, dentro do processo de reestruturação atualmente conduzido pela direção."

"O Corinthians reforça que o tema é tratado como prioridade e que continuará adotando todas as medidas necessárias para solucioná-lo", completa o comunicado.

Segundo o Dresch, ao permitir que o clube pague débitos acumulados ao longo de anos sem a incidência dos juros originalmente contratados, a câmara sobrecarrega as instituições que têm valores a receber. "O grande problema é que quando a CNRD fez esse plano, ele foi um auxílio ao Corinthians. O principal benefício é você alongar uma dívida sem juros. É como se a gente, os devedores, financiassem a dívida do credor sem cobrar nada. O plano de pagamento que a CNRD fez pro Corinthians é um plano fracassado", afirmou Dresch.

Publicidade

Procurada pela reportagem, a CBF informou que a CNRD não se manifesta sobre assuntos referentes a ações na câmara.

Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, criticou a situação financeira do Corinthians.
Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, criticou a situação financeira do Corinthians.
Foto: Divulgação/Cuiabá / Estadão

A transação envolvendo Raniele previa o pagamento de R$ 18 milhões pelo Corinthians, mas o Cuiabá recebeu até o momento pouco mais de R$ 2 milhões. Dresch destaca que a ausência de juros e correções adequadas no plano coletivo faz com que o valor real recebido ao longo de seis anos seja muito inferior ao montante original da dívida acumulada.

Atualmente, o débito direto do Corinthians com o Cuiabá está avaliado em R$ 16,3 milhões em aberto. O presidente do clube mato-grossense enfatiza que a falta desse repasse gerou um prejuízo e forçou a diretoria a recorrer a empréstimos e arcar com encargos para cumprir suas obrigações.

"Se eu fosse pegar só disso que tá em aberto hoje numa taxa de 1,5% ao mês, é uns R$ 250 mil por mês de juros que a gente tá pagando para banco. Além de existir um prejuízo claro, se eu fizer uma demonstração financeira aqui, eu consigo provar o tamanho do rombo que está sendo causado", explicou

Diante do impasse na CNRD, o presidente do Cuiabá aposta na atuação da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) para forçar o cumprimento das obrigações. "Eu acredito muito na agência do fair play financeiro a partir já de janeiro, fevereiro e março aplicando aí transfer ban. Se não pagar, em breve perderá pontos. Se tiver que cair pra Série B, cai. Tiver que cair pra Série C, caia. Mas o que é certo vai ter que ser certo", declarou.

Publicidade

Críticas à negociação do Corinthians com a Caixa

O dirigente também teceu duras críticas à renegociação entre o Corinthians e a Caixa Econômica Federal para a quitação da dívida de R$ 640 milhões da Neo Química Arena através da cessão de naming rights. Dresch classificou a negociação como um privilégio político inaceitável concedido com recursos públicos.

"O dinheiro não é deles, é um dinheiro público. Você comprar os naming rights da arena do Corinthians a troco de uma dívida é para mim uma coisa que foge muito do bom senso. Se o governo for fazer alguma coisa para um, tem que fazer para todos", protestou.

Procurado pela reportagem, o Corinthians informou que não irá se manifestar em relação aos comentários do dirigente sobre a negociação do clube com a Caixa.

Na avaliação de Cristiano Dresch, os grandes clubes do futebol brasileiro acumulam dívidas de curto prazo impagáveis. O presidente argumenta que as agremiações insolventes precisarão passar obrigatoriamente por processos de recuperação judicial e migração para SAF.

Publicidade

"Não é a criação do órgão que vai equilibrar as contas dos clubes. O que vai equilibrar a conta dos clubes é a redução dos custos.. Esses clubes se tornaram insolventes. Eu não vejo outra saída para esses clubes senão uma recuperação judicial e se tornarem SAF", apontou.

Formação de jogadores

De acordo com Cristiano Dresch, o Cuiabá ainda tem valores a receber de Santos, Grêmio, Sport, Paysandu, Avaí e Vitória. Ele afirma que a falta desses recursos fez a dívida do clube saltar de R$ 12 milhões para R$ 35 milhões nos últimos três anos, o que obrigou a diretoria a enxugar a folha salarial do elenco para R$ 1,2 milhão.

Apesar do cenário desafiador e dos custos de indenizações contratuais decorrentes do rebaixamento, em 2024, o Cuiabá mantém investimentos na formação de atletas. "Mesmo após o rebaixamento em 2024, não reduzimos nosso investimento na base, que gira em torno de R$ 9 milhões por ano. Começamos a colher os frutos em 2026, com até cinco titulares formados no clube em algumas partidas e a redução da folha salarial. O projeto do Cuiabá é andar com as próprias pernas, investindo forte na formação de atletas. Eu me espelho muito no Athletico Paranaense, que cresceu dessa forma, investindo em estrutura e na base, além de fazer grandes negócios."

Fique por dentro das principais notícias de Futebol
Ativar notificações