Com uma média de três gols por partida, os empates sem tentos têm sido raridade na Copa do Mundo de 2026. Enquanto isso, atacantes estrelados estão assumindo o protagonismo, e alguns goleiros de seleções menores se consagraram como heróis.
O Mundial ampliado, que reúne países tão distintos quanto Alemanha e Curaçao, Noruega e Iraque, aproxima-se da metade de sua trajetória. E, enquanto a definição do campeão ainda está distante, um veredito preliminar já pode ser dado: os gols estão saindo em um ritmo raro, e a lista de artilheiros é dominada pelos principais nomes do torneio. Os astros Lionel Messi, Kylian Mbappé e Erling Haaland acumulam tentos, beneficiados também por defesas adversárias que têm mostrado fragilidades.
Pode não agradar aos puristas, mas esta é uma Copa do Mundo definida por gols e defesas. Nem sempre os gols são espetaculares nem as intervenções dos goleiros são milagrosas, mas a fórmula funciona para os melhores momentos e para as redes sociais, ou seja, para a forma como o futebol é consumido em 2026. Os torcedores mais tradicionais podem torcer o nariz, mas não é segredo que manter os jovens atentos a uma única partida durante 90 minutos está cada vez mais difícil. Assim, a narrativa dos jogos acaba sendo construída pelos momentos decisivos.
Pouco importa se o roteiro traz Messi aproveitando uma atuação desastrosa de Luca Zidane, da Argélia, ou Mbappé desmontando a defesa do Iraque. O torneio disputado nos Estados Unidos contará com 104 partidas, e o apito final no confronto entre Jordânia e Argélia marcou o encerramento do 44º jogo. Até aqui, foram marcados 134 gols, média de três por partida. Trata-se de um recorde desde que a Copa do Mundo passou a contar com 32 seleções, em 1998.
A marca de 136 gols anotados na fase de grupos da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, está prestes a ser superada. As Américas têm se mostrado uma terra de oportunidades para todos, com 95 jogadores diferentes balançando as redes. Além disso, graças à regra que permite a classificação dos melhores terceiros colocados, muitas seleções ainda alimentam o sonho de avançar ao mata-mata. A Turquia desponta como a única grande decepção entre as quatro equipes já eliminadas, grupo que também inclui Jordânia, Haiti e Tunísia.
Houve apenas três empates em 0 a 0, algo que dificilmente surpreende. Afinal, a única partida sem gols em toda a fase de grupos da Copa do Mundo de 2018 foi Dinamarca x França. Desta vez, porém, os duelos Espanha x Cabo Verde, Equador x Curaçao e Bélgica x Irã ganharam manchetes pelo mundo. Foram resultados históricos construídos por azarões liderados por goleiros que jamais haviam brilhado em grandes palcos, mas que cresceram justamente quando mais precisavam.
Quem não se empolgou com as defesas de Vozinha diante de Lamine Yamal e companhia? Ou com a muralha erguida por Eloy Room contra os equatorianos? E o que dizer da trajetória de Alireza Beiranvand, menos elegante que Thibaut Courtois, mas igualmente eficiente? Esse é o outro lado de uma Copa do Mundo repleta de gols: também há espaço para a glória dos goleiros. Todos seguem, de certa forma, os passos de Guillermo Ochoa, hoje no banco de reservas, mas que durante várias edições foi o rosto e o herói do futebol mexicano em Mundiais.
Daqui a uma semana, a competição entrará em uma fase mais decisiva. A pressão aumentará, e talvez fique mais difícil para Messi e seus rivais atuarem com a liberdade típica da fase de grupos. Por enquanto, porém, o torneio segue leve e alimentado por histórias capazes de conquistar manchetes ao redor do mundo. E, embora haja mais seleções, mais jogadores e mais gols, os ingredientes continuam sendo os mesmos de sempre.
As críticas às goleadas também não são novidade. Elas já existiam em 2002, quando Miroslav Klose liderou a vitória da Alemanha por 8 a 0 sobre a Arábia Saudita, e em 2010, quando Cristiano Ronaldo e seus companheiros marcaram sete vezes contra a Coreia do Norte. E quem sabe o que se dizia em 1954, quando a lendária seleção húngara goleou a Coreia do Sul por 9 a 0 e a Alemanha Ocidental por 8 a 3? Poucos poderiam imaginar, naquela época, que os alemães acabariam levantando a taça ao final daquela Copa do Mundo.