O Brasil encerrou o Mundial de Hipismo em Aachen sem medalhas e sem a vaga olímpica no salto, tendo como melhor resultado o 17º lugar de Stephan Barcha no individual. Além do fraco desempenho esportivo — liderado por Alemanha nas equipes e Steve Guerdat no individual —, a Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) enfrenta forte crise interna, marcada por protestos de atletas como Yuri Mansur e Felipe Juares contra falhas de comunicação, critérios de convocação e liderança técnica na entidade.
O Brasil encerrou sua participação no FEI World Championship de Aachen 2026 longe das medalhas e com um desempenho abaixo das expectativas no salto. Após uma campanha sem o resultado esperado na disputa por equipes, as esperanças brasileiras passaram a se concentrar na competição individual, principalmente em Stephan Barcha, que vinha realizando um bom campeonato.
Barcha foi o único representante brasileiro a avançar para a final da disputa individual, mantendo em aberto a possibilidade de um resultado de destaque. No entanto, o cavaleiro não conseguiu classificação para a última volta da grande final e encerrou sua participação na 17ª colocação.
Com isso, o Brasil deixou o Mundial de Aachen sem medalhas, tanto na disputa por equipes quanto no individual.
Alemanha conquista o ouro por equipes
Na competição por equipes, a Alemanha confirmou sua força e conquistou a medalha de ouro diante de sua torcida. A Bélgica ficou com a prata, enquanto a Grã-Bretanha completou o pódio com o bronze.
Além das medalhas, o Mundial teve peso decisivo na corrida pela classificação olímpica. Alemanha, Bélgica, Grã-Bretanha, Itália, Suíça, Irlanda e França garantiram suas vagas por meio da competição. Os Estados Unidos já estão classificados por serem o país-sede dos próximos Jogos Olímpicos.
O Brasil terminou longe da zona de classificação em Aachen e agora terá de buscar uma das oportunidades restantes para garantir presença por equipes nos Jogos. Nesse cenário, as competições continentais passam a ganhar importância ainda maior para o futuro da equipe brasileira.
Suíço Steve Guerdat é campeão mundial
No individual, o título ficou com um dos principais nomes do hipismo internacional. Steve Guerdat, representando a Suíça, conquistou a medalha de ouro e sagrou-se campeão mundial.
O jovem belga Thibeau Spits terminou com a prata, enquanto Harry Charles, da Grã-Bretanha, conquistou o bronze e completou o pódio individual em Aachen.
Crise fora das pistas aumenta pressão sobre a CBH
Se os resultados dentro da pista já seriam suficientes para gerar questionamentos, o momento do hipismo brasileiro também é marcado por uma crise nos bastidores.
A situação ganhou grande repercussão nos dias que antecederam o Mundial, quando Yuri Mansur, um dos principais cavaleiros brasileiros no cenário internacional, anunciou publicamente que deixaria de representar o Brasil em campeonatos e Copas das Nações.
Em uma extensa manifestação publicada nas redes sociais, Mansur fez duras críticas à condução do esporte brasileiro. Entre outros pontos, citou problemas de organização e comunicação, ausência de processos claros, disputas internas, protecionismo e diferenças no tratamento dispensado aos atletas.
O cavaleiro também deixou claro que sua decisão não teria sido motivada por um episódio isolado. Mansur afirmou que os problemas vinham se acumulando havia anos e demonstrou frustração com o que considera falta de mudanças efetivas em direção a uma gestão mais profissional.
Ao anunciar sua decisão, afirmou ainda que os acontecimentos de 16 de agosto de 2026 teriam ultrapassado, em sua avaliação, "todos os limites de ética, respeito e esportividade". Mansur também declarou ter sido "chantageado, desprezado e maltratado" durante a atual gestão e encerrou sua manifestação desejando sorte aos atletas convocados para Aachen.
As acusações representam a versão apresentada publicamente por Yuri Mansur e são de responsabilidade do próprio atleta.
Por outro lado, a Confederação Brasileira de Hipismo apresentou sua versão para o episódio. Segundo declaração do presidente da CBH, Constantino Scampini, à Revista Horse, os cinco cavaleiros inicialmente relacionados eram considerados possíveis titulares. Após as avaliações técnicas, quatro foram escolhidos para a equipe, enquanto Yuri permaneceu como reserva. Segundo a Revista Horse, a entidade também reconheceu que pode ter ocorrido uma falha de comunicação durante o processo.
Em entrevista à Revista Horse, Rodrigo Pessoa também comentou o episódio, o cavaleiro não se esquivou de comentar os recentes problemas de gestão e apontou uma clara falta de liderança na comissão técnica da CBH. Para Rodrigo, é urgente que as responsabilidades pelas decisões sejam assumidas, permitindo que a equipe possa focar na reestruturação visando o Pan-Americano do ano que vem, que será a chance decisiva de classificação do país.
A decisão de um atleta da relevância de Yuri Mansur de se afastar da Seleção Brasileira às vésperas da principal competição da temporada ampliou a exposição de divergências que já vinham sendo discutidas nos bastidores.
A situação também repercutiu entre os atletas e público europeu em Aachen. Segundo relatos ouvidos no ambiente da competição, a ausência de Mansur provocou estranheza, especialmente por seu histórico recente de resultados e sua presença constante no mais alto nível do salto internacional. Houve quem classificasse a situação como "uma loucura".
Também causou surpresa ao público brasileiro o tamanho da importância dada pelos europeus a Mansur, vários relatos de que Mansur teria mais prestígio na Europa do que no próprio Brasil. Dias antes do início do Mundial, Constantino Scampini havia afirmado, também em entrevista à Revista Horse, que o Brasil estava entre os favoritos a lutar por medalha e que a equipe entraria na competição buscando o ouro.
O desfecho esportivo, entretanto, foi diferente. Além de terminar fora do pódio, o Brasil não conseguiu em Aachen a classificação olímpica por equipes.
Assim, a delegação deixa o Mundial não apenas com um resultado distante das expectativas de uma nação com tradição no salto, mas também cercada por questionamentos sobre planejamento, critérios de seleção, gestão e a relação da entidade com alguns de seus principais atletas.
Convocação para os Jogos Odesur também gera questionamentos
A controvérsia envolvendo os critérios de convocação não ficou restrita ao Mundial de Aachen.A formação da equipe brasileira para os Jogos Odesur, competição importante dentro do ciclo continental, também passou a ser alvo de questionamentos. Entre os casos discutidos estão as ausências de Felipe Juares de Lima e Ricardo Coelho Júnior da equipe.
Os dois conjuntos obtiveram classificações ao longo do ano durante o processo de observação. A decisão ganhou ainda mais repercussão porque, segundo os resultados considerados durante esse período, um dos conjuntos convocados teria ficado de fora de algumas etapas e, nas participações realizadas, não teria obtido classificação em nenhum "Grande Prêmio Sênior Top", circuito utilizado no processo de avaliação da comissão técnica.
A comparação entre os resultados apresentados pelos conjuntos e os critérios utilizados para a escolha da equipe tornou-se, assim, mais um ponto de questionamento em torno das decisões técnicas da Seleção Brasileira.
Insatisfação chega às redes sociais e críticas à comunicação aumentam
A discussão também ganhou força nas redes sociais. Diversos perfis passaram a questionar publicamente a condução da CBH e os critérios adotados nas decisões envolvendo a Seleção Brasileira.
Em uma publicação relacionada ao posicionamento de Yuri Mansur, o perfil da Quality Horse Stables, empresa ligada ao cavaleiro, marcou Felipe Juares e defendeu que seria o momento de tornar públicas situações ocorridas nos bastidores.
O perfil escreveu:
"Não adianta fazermos sempre a mesma coisa, esperando resultados diferentes. Está na hora de mudar. Agora é o momento de abrir o que aconteceu, e sempre aconteceu com todo cavaleiro."
Felipe Juares respondeu publicamente ao comentário:
"Concordo. Por aqui a coisa também foi descarada, ao ponto das pessoas — e não apenas eu — se revoltarem."
Em outra publicação nas redes sociais, Felipe voltou a se manifestar e relatou uma situação que, segundo ele, teria ocorrido durante o processo de definição da equipe para os Jogos Odesur. Desta vez, o cavaleiro apontou diretamente para a falta de comunicação após ter ficado na condição de stand by.
Ao comentar uma publicação de Yuri Mansur, Felipe escreveu:
"Yuri por aqui exatamente igual para Odesur. Nenhuma ligação de chefe de equipe ou presidente ou alguém responsável para explicar por qual motivo fiquei de 'stand by' assim como você. Eu aceito mas não concordo e esperava uma justificativa que nunca veio. Inacreditável."
A manifestação de Felipe chama atenção justamente por apresentar uma queixa semelhante a um dos pontos levantados no caso de Yuri: a comunicação entre os responsáveis pela Seleção Brasileira e os atletas envolvidos nos processos de convocação.
Embora sejam situações distintas e relacionadas a competições diferentes, os relatos públicos dos dois cavaleiros colocam a comunicação da entidade no centro de parte das críticas. No caso de Felipe, sua manifestação deixa claro que o questionamento não se restringe ao fato de não ter sido escolhido, mas também à ausência, segundo seu próprio relato, de uma explicação sobre os motivos da decisão.
Além de Felipe Juares, a insatisfação com o processo envolvendo a convocação para os Jogos Odesur também apareceu nas redes sociais de pessoas diretamente ligadas a outro conjunto que ficou fora da equipe.
A esposa de Ricardo Coelho Júnior, Maria Daniela Ferreira, proprietária de Deviana 3K, montaria do cavaleiro, manifestou-se por meio de seus stories do Instagram na época da convocação para o Odesur. Na publicação, demonstrou frustração e desânimo com a situação e não poupou críticas à forma como o processo foi conduzido.
As manifestações acrescentam mais um capítulo ao momento de tensão vivido pelo hipismo brasileiro. As manifestações, isoladamente, não permitem estabelecer responsabilidades sobre todos os episódios mencionados, mas evidenciam que a insatisfação com os processos de seleção e com a comunicação não está restrita a um único atleta ou a uma única convocação.
Depois de um Mundial sem medalhas, da perda de uma oportunidade de classificação olímpica por equipes e de manifestações públicas de nomes ligados ao alto rendimento, cresce a pressão por esclarecimentos sobre os critérios adotados e os rumos da Seleção Brasileira.
Cavaleiros envolvidos tem resultados importantes durante período
Enquanto a CBH tenta administrar a crise aberta nos bastidores da Seleção Brasileira, Yuri Mansur segue sua trajetória agora afastado das competições por equipes do Brasil.Fora do Mundial de Aachen, o cavaleiro voltou às pistas neste fim de semana e sagrou-se campeão do Grande Prêmio de Lier, na Bélgica, montando Incanto VDL, um dos cavalos que integram sua relação de reservas.
A vitória acontece justamente no momento em que o salto brasileiro deixa Aachen sem medalhas e sem a classificação olímpica por equipes, ampliando inevitavelmente o contraste entre o desempenho individual de Mansur no circuito europeu e a crise que culminou em seu afastamento da Seleção.
Outro fato que ganhou relevância após a divulgação da convocação para os Jogos Odesur foi o desempenho de Felipe Juares de Lima. Já encerrado o período considerado no processo de observação para a formação da equipe, o cavaleiro voltou a obter um resultado expressivo logo no Grande Prêmio seguinte do Circuito Sênior Top.
Em Curitiba, Felipe foi vice-campeão do Grande Prêmio de Aniversário da Sociedade Hípica Paranaense, reforçando a boa sequência de resultados que vinha apresentando ao longo da temporada.
Embora o resultado tenha ocorrido quando a convocação para o Odesur já estava definida e, portanto, não fizesse mais parte do processo de observação, o desempenho acabou ganhando repercussão diante dos questionamentos que já cercavam sua ausência da equipe.
Assim como aconteceu com Yuri Mansur após ficar fora do Mundial de Aachen, Felipe respondeu esportivamente nas pistas pouco depois da decisão, acrescentando mais um elemento ao debate sobre o momento vivido pela Seleção Brasileira e os critérios adotados em suas convocações.
Mais do que os resultados de Aachen, o episódio deixa para o hipismo brasileiro uma discussão que deverá continuar depois do Mundial: quais serão os próximos passos da Seleção, quais critérios serão adotados nas futuras convocações e, principalmente, como a CBH pretende reconstruir a relação e a confiança com atletas que hoje manifestam publicamente sua insatisfação.