Quem é Jann Mardenborough, o protagonista do filme Gran Turismo

Do Gran Turismo às pistas reais, Jann Mardenborough provou que um piloto de simulador pode sim correr no mundo real

12 jan 2026 - 07h58
Jann Mardenborough em 2025
Jann Mardenborough em 2025
Foto: Divulgação / Jann Mardenborough

Sair dos simuladores para a vida real é o sonho de muitos jogadores e tem se tornado uma atividade cada vez mais comum. Porém, a transição entre esses dois mundos nunca foi fácil. Jann Mardenborough é um dos grandes exemplos de quem conseguiu transformar essa paixão em profissão, disputando corridas relevantes como as 24 Horas de Le Mans. Sua trajetória é tão inspiradora que acabou virando filme.

Nascido em Darlington, Inglaterra, em 1991, mas criado em Cardiff, no País de Gales, Jann é filho de Steve Mardenborough, jogador profissional de futebol que atuou na primeira divisão inglesa antes da criação da Premier League pelo Wolverhampton. Desde pequeno, Jann sempre demonstrou paixão por carros. Aos oito anos, ao visitar a casa de um amigo, teve o primeiro contato com simuladores ao jogar Gran Turismo (1997), título inicial da franquia lançado para PlayStation 1.

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Apesar da carreira esportiva do pai, a família não tinha condições financeiras para que ele competisse no kart ou em categorias de base. Coube ao jovem continuar nos simuladores, que ainda estavam em fase embrionária, mas se tornavam cada vez mais realistas. Durante os anos 2000, a franquia Gran Turismo evoluiu constantemente até chegar ao Gran Turismo 5, o primeiro para PlayStation 3 e também o primeiro a permitir partidas online.

Em 2006, antes do lançamento do Gran Turismo 5, Darren Cox, diretor de Marketing de Esportes Motorizados da Nissan Europa, percebeu que pilotos virtuais poderiam competir no mundo real. Intrigado com essa possibilidade, entrou em contato com a Sony para realizar um evento experimental em Silverstone. Os jogadores competiam primeiro nos simuladores e depois corriam com o Nissan 350Z. Os resultados foram bastante positivos.

Dois anos depois, aproveitando o lançamento do novo jogo, surgiu a ideia de um grande evento que selecionaria jogadores a partir da base online do Gran Turismo. Assim nasceu a GT Academy, que oferecia um contrato profissional com a Nissan ao vencedor. A competição envolveu 10 países da Europa e atraiu 25 mil participantes para o time trial qualificatório em Suzuka. Os 20 melhores de cada país avançavam para a final nacional, e 22 jogadores se classificavam para a decisão em Silverstone. Na primeira edição, o espanhol Lucas Ordoñes saiu vencedor. Em 2010, em formato semelhante, foi a vez do francês Jordan Tresson conquistar a vaga.

GT Academy 2011 

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Lucas Ordóñez e pilotos da GT Acadamy
Foto: Divulgação / Gran Turismo

Voltando à vida de Jann, sua paixão pelo automobilismo o levou a ingressar no curso de engenharia na Universidade de Cardiff em 2010. No entanto, não permaneceu por muito tempo: segundo ele próprio, havia “matemática demais para sua cabeça”.

Em 2011, pela primeira vez, reunia todos os requisitos para disputar a qualificatória da GT Academy, ser maior de idade e possuir carteira de motorista. O primeiro desafio era o time trial, no qual precisava ficar entre os 20 melhores do Reino Unido. A prova foi realizada com o Nissan 370Z no traçado misto de Indianápolis, o mesmo utilizado pela Fórmula 1.

Embora não tenha sido o mais rápido, conseguiu avançar para a fase seguinte: a final nacional, junto com outros 19 competidores. Essa etapa envolveu provas em simuladores, testes físicos e entrevistas. O jovem mostrou consistência e garantiu vaga na decisão. Naquele ano, 12 pilotos foram selecionados para a fase final, divididos em seis grupos por países, com exceção da Ibéria, que representava Espanha e Portugal. Cada equipe contava com seu próprio mentor.

País Finalistas Mentor
França
  • Bastien Bartsch
  • Thibault Lacombe
Franck Mailleux
Itália
  • Federico Pinna
  • Danilo Bordino
Vitantonio Liuzzi
Reino Unido
  • Jann Mardenborough
  • James Hudson
Johnny Herbert
Alemanha
  • Sascha Meyenborg
  • Alexandre Welcke
Sabine Schmitz
Holanda
  • Edwin Bos
  • Thomas Arends
Jeroen Bleekemolen
Ibéria
  • Carlos Murillo (ESP)
  • Bruno Sousa Ferreira (POR)
Lucas Ordoñez

A edição daquele ano começou em Le Mans, no mesmo fim de semana das 24 Horas. Os 12 finalistas foram levados para conhecer a sede da Signatech Nissan, equipe da LMP2 onde Lucas Ordóñez, vencedor da primeira GT Academy, disputaria a grande prova, terminando em segundo lugar na categoria.

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O primeiro desafio foi uma prova de resistência de kart, vencida pela dupla francesa. No domingo, os competidores seguiram para Silverstone, onde a disputa continuou com testes físicos rigorosos. Logo nessa fase, três pilotos foram eliminados. Além disso, houve aulas teóricas de técnicas de pilotagem e a realização do teste ARDS, licença básica de corrida.

Na sequência, vieram provas ainda mais exigentes com o Nissan 370Z. Os participantes precisavam literalmente puxar o carro por uma distância determinada, depois pilotá-lo e, em seguida, completar um percurso de bicicleta. Foi nesse estágio que Federico Pinna desistiu, reduzindo o grupo a oito competidores. Ao final, Eddie Irvine (comissário geral) e Rob Barff (chefe de pilotagem) selecionaram seis para a semifinal: Danilo Bordino (ITA), Thomas Arends (HOL), Thibault Lacombe (FRA), Sascha Meyenborg (ALE), Jann Mardenborough (GBR) e Carlos Murillo (ESP).

A etapa seguinte trouxe um desafio real: o Nissan 370Z GT4, carro de corrida de verdade. Meyenborg e Arends foram eliminados, restando apenas quatro pilotos para a grande final. Jann, Danilo, Carlos e Thibault disputaram uma corrida de 20 minutos em Silverstone. O britânico largou na pole, perdeu a liderança para Thibault após errar uma marcha, mas se recuperou rapidamente e abriu oito segundos de vantagem sobre os adversários. Ao cruzar a linha de chegada, não restaram dúvidas: Jann Mardenborough havia vencido a edição e conquistado o contrato profissional com a Nissan.

O começo no mundo real

Jann Mardenborough após conquistar a GT Academy
Foto: Divulgação / Gran Turismo

A partir daí, Jann iniciou um programa de testes para ganhar quilometragem e conquistar a superlicença da FIA. Também participou do Britcar, campeonato de GT4. Sua estreia aconteceu em 24 de julho, ao lado de Bryan Heitkotter, vencedor da GT Academy dos EUA em 2011, pilotando o Nissan 370Z GT4. A dupla disputou cinco corridas naquela temporada e obteve o melhor resultado na última, em Brands Hatch, com um quinto lugar.

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Em janeiro de 2012, surgiu um novo desafio: a Nissan inscreveu os quatro campeões da GT Academy para correr juntos nas 24 Horas de Dubai, Ordóñez, Tresson, Heitkotter e Mardenborough, novamente com o 370Z GT4. Na classe SP2, o quarteto conquistou a segunda posição, provando que pilotos vindos dos simuladores podiam competir em alto nível na vida real.

Após essa experiência, a Nissan integrou Alex Buncombe, britânico especialista em GT, como parceiro de Jann no poderoso GT-R GT3. A dupla venceu logo em Brands Hatch, garantindo a primeira vitória da carreira do jovem piloto, além de conquistar mais dois pódios. Chegaram a disputar o título do campeonato em determinado momento, mas terminaram na sexta posição. A evolução de Mardenborough era notável: em 2013 recebeu a graduação Prata da FIA, tornando-se oficialmente piloto profissional.

Com isso, a Nissan decidiu lançá-lo em dois novos desafios. O primeiro foi disputar campeonatos de Fórmula 3, incluindo o Europeu, principal categoria da época, e o Britânico. No Europeu, terminou em 21º lugar; no Britânico, foi sexto, com destaque para um segundo lugar em Spa. Além disso, competiu no Toyota Racing Series, campeonato de F3 realizado na Oceania.

A conquista em Le Mans

Carro #42 Zytek Z11SN durante as 24 Horas de Le Mans de 2013
Foto: Divulgação / Wikimidia Commons

Além disso, Jann realizou o sonho de muitos pilotos ao disputar as 24 Horas de Le Mans, a bordo do Zytek-Nissan Z11SN da Greaves Motorsport, protótipo da classe LMP2 com o número #43. Ao seu lado estavam Lucas Ordóñez e o alemão Michael Krumm, experiente piloto que já havia participado de cinco edições da prova francesa. O trio parecia destinado a uma batalha direta contra o carro #38 da Jota, guiado por Simon Dolan, Oliver Turvey e Lucas Luhr. Na qualificação, o #38 ficou em terceiro e o #43 em quarto.

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Na corrida, o duelo se confirmou: os dois carros brigaram intensamente pelo quarto lugar até a manhã seguinte, quando o #38 enfrentou problemas mecânicos. Com isso, o #43 conseguiu terminar a prova na quarta posição, que virou um terceiro lugar após a desclassificação do terceiro colocado: #26 G-Drive Racing. Logo em sua estreia em Le Mans, Jann conquistava um pódio, feito que seria retratado no final do filme sobre sua trajetória, ainda que com certa licença poética.

O britânico também participou das 24 Horas de Spa, competindo com um Nissan GT-R GT3 na classe Pro-Am. O carro da Nissan Academy tinha, além dele, Ordóñez e os campeões da GT Academy de 2012, Wolfgang Reip e Peter Pyzera. O quarteto terminou em sétimo lugar no geral e em terceiro na classe, confirmando o sucesso do projeto. Com esses resultados, Jann alcançou a graduação Ouro da FIA.

Em 2014, os desafios se intensificaram. No Toyota Racing Series, conquistou quatro vitórias e terminou como vice-campeão. Seguiu nos monopostos, disputando a GP3, equivalente à Fórmula 3 nos dias atuais, pela equipe Arden. Encerrando a temporada em nono lugar, obteve uma vitória marcante na segunda corrida da etapa de Hockenheim, sendo o melhor piloto de sua equipe.

Nas provas de longa duração, também acumulou experiência. Nas 12 Horas de Sebring, correu com um Oreca 03 da classe principal, ao lado de Luhn e Graf. O trio se classificou em quinto, mas enfrentou problemas durante a corrida e terminou apenas em 48º. Já em Le Mans, pilotando o Ligier JS P2 junto de Alex Brundle e Mark Shulzhitskiy, alcançou a quinta posição na classe LMP2.

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LMP1 e Acidente em Nurburgring 

Jann Mardenborough com Nissan GTR LM Nismo durante as 24 Horas de Le Mans
Foto: Divulgação / Nissan Motorsport

Em 2015, sua participação nos monopostos se resumiu à GP3 e à GP2 (atual Fórmula 2). Mesmo ausente em duas etapas da GP3, Jann terminou o campeonato em nono lugar, conquistando dois pódios. Curiosamente, o décimo colocado foi o espanhol Alex Palou, que anos depois se tornaria uma lenda da Indy. Na GP2, substituiu Sean Gelael na etapa de Monza, mas não obteve resultados expressivos.

No endurance, porém, o cenário parecia mais promissor. Mardenborough havia alcançado a graduação máxima da FIA, a Platina. A Nissan preparava sua entrada na classe principal do FIA WEC (LMP1) e em Le Mans, e Jann faria parte de um dos carros da temporada, ao lado de Olivier Pla e Max Chilton. No entanto, o projeto não saiu como esperado. O Nissan GT-R LM Nismo, protótipo desenvolvido para aquele ano, tinha um conceito ousado e problemático, com motor dianteiro. Sua estreia, inicialmente prevista para as 6 Horas de Silverstone, acabou adiada para as 24 Horas de Le Mans.

Paralelamente, Jann seguiu competindo em categorias de GT3. Foi nesse contexto que, em março, enfrentou o pior acidente da carreira. Durante as 4 Horas de Nürburgring, ao passar pela seção Flugplatz, conhecida por fazer os carros perderem contato com o solo, seu veículo decolou, ultrapassou a barreira de pneus e atingiu o público. Uma pessoa morreu. O britânico, por sua vez, sofreu apenas ferimentos leves e foi liberado no dia seguinte. O acidente não foi atribuído a erro do piloto, mas a uma combinação de fatores técnicos. Após o episódio, mudanças foram implementadas nos regulamentos dos carros GT3 para evitar que situações semelhantes se repetissem.

Em junho, chegaram finalmente as 24 Horas de Le Mans, mas os problemas do carro da Nissan persistiam. Ainda assim, a equipe colocou os três protótipos na pista, sem o sistema híbrido ativo. Na qualificação, todos terminaram nas últimas posições da classe principal. Durante a corrida, o desempenho foi fraco e diversos contratempos surgiram. O carro de Jann chegou a ser o melhor entre os Nissan, mas acabou quebrando. O único veículo que cruzou a linha de chegada foi desclassificado por não cumprir a distância mínima em relação ao líder. O resultado foi considerado um vexame para o projeto, embora não fosse culpa dos pilotos.

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Após Le Mans, a Nissan decidiu não participar das etapas seguintes, tentando corrigir os problemas do protótipo. Foram realizados vários testes, mas o carro nunca mais voltou às pistas. No fim da temporada, o programa foi oficialmente descontinuado.

Carreira no Japão

Nissan GTR GT500 de Jann Mardenborough
Foto: Divulgação / Jann Mardenborough

Em 2016, a Nissan decidiu direcionar a carreira de Jann para o Japão. O piloto disputou a Fórmula 3 Japonesa, terminando em segundo lugar. No Super GT, competindo com o GT-R GT3 ao lado de Kazuki Hoshino, conquistou a quarta posição no campeonato e venceu uma corrida em Fuji. No ano seguinte, subiu para a categoria GT500, guiando o GT-R Nismo GT500 junto de Hironobu Yasuda. Também participou das 24 Horas de Dubai, acompanhado por outros pilotos formados na GT Academy.

Em 2018, deixou o Super Fórmula e passou a focar exclusivamente no Super GT, além de assumir o papel de piloto de testes da Nissan na Fórmula E. Nos anos seguintes, sua carreira se manteve nessas bases. Em 2021, encerrou sua participação no Super GT e passou a atuar apenas como piloto de simulador da Nissan na Fórmula E. Em 2022, participou das filmagens do filme Gran Turismo, atuando como consultor e dublê de si mesmo. Já em 2023, concentrou-se no campeonato de endurance japonês, alcançando a terceira posição.

Fim do vínculo com a Nissan

Ao final de 2023, Jann deixou de ter vínculo com a Nissan, que reduziu seu quadro de pilotos devido ao encerramento de alguns programas de motorsport. No ano seguinte, retornou à Europa para competir pela equipe RJN no GT Challenge Europe e no GT3 Britânico.

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Em 2025, assinou contrato com a Ford para correr com o Mustang GT3 no GT Challenge Europe. Também participou de uma etapa do NLS, campeonato em Nürburgring, coincidindo com a vitória de Max Verstappen. Jann terminou em segundo lugar e registrou o momento com uma foto ao lado do tetracampeão de Fórmula 1. Para 2026, deve permanecer na Ford, embora ainda não haja definição sobre quais campeonatos disputará.

Pilotos como Jann Mardenborough comprovam que o talento revelado nos simuladores pode se traduzir em desempenho real nas pistas. A GT Academy encerrou suas atividades em 2016, mas abriu caminho para uma tendência que só cresce: cada vez mais jogadores transformam a paixão virtual em carreira no automobilismo, encontrando novos meios para migrar do mundo digital para o asfalto.

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