Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
Cristian Ribera escreveu seu nome na história dos esportes paralímpicos de inverno ao levar o segundo lugar na prova de sprint do esqui cross-country, na categoria para atletas que competem sentados. A modalidade exige um grande esforço físico. Trata-se de uma espécie de maratona na neve, com esquis adaptados e o uso da força nos bastões para ganhar impulso.
"Só nesse ano eu treinei quase 1.500 km a mais do que no ano passado. Então a gente se esforçou muito para chegar aqui e estar nesse patamar. Fiquei muito feliz, muito contente de dizer que eu sou medalhista paralímpico. Realizei meu sonho!", disse o atleta à RFI após a medalha inédita.
A conquista se soma a outras importantes marcas em sua carreira. No ano passado, Cristian levou o Globo de Cristal ao terminar a temporada como campeão da Copa do Mundo de esqui cross-country paralímpico. "É a junção de várias provas da Copa do Mundo. Eu fui muito consistente, a gente conseguiu fazer um ótimo trabalho durante a temporada toda e isso me deu muita confiança. Os Jogos Paralímpicos são diferentes de tudo, é o maior evento esportivo do mundo. A gente não pode contar com a vitória, mas a gente sonha. Sonha e trabalha muito", disse.
Atingir um nível como esse era uma aspiração que ele cultivava desde pequeno. Cristian nasceu com uma condição rara chamada artrogripose, que afeta um a cada 3 mil bebês, segundo o Ministério da Saúde do Brasil. No caso dele, a doença afetou as articulações e mobilidade das pernas. "Eu fiz 21 cirurgias até os 11 anos de idade. Passei por vários procedimentos para tentar esticar a perna, para eu voltar a andar. E até então, até os 9 anos, o meu sonho era voltar a andar", afirmou o atleta.
Desde muito jovem, a família dele o incentivou a se tornar independente com o uso da cadeira de rodas. E o esporte sempre foi a sua válvula de escape. Além das sessões diárias de fisioterapia, Cristian começou a praticar diversas modalidades a partir dos quatro anos, por recomendação médica, e nunca mais parou. Entre elas, natação, basquete, bocha e skate.
"Isso mudou a minha cabeça quando eu entrei no esporte paralímpico e vi mais pessoas iguais a mim fazendo atividades, aproveitando a vida, sendo feliz. O esporte salva vidas e me deixou muito mais independente.", disse. Foi essa experiência que transformou as perspectivas sobre o que ele queria para o próprio futuro.
"Acho que isso foi mudando minha cabeça até eu decidir realmente desistir do sonho de andar, porque eu preferia a cadeira e sabia que eu era muito mais independente e rápido nela, e que poderia ajudar mais gente na cadeira estando feliz e contente, fazendo esporte. Depois que esse sonho passou, eu decidi que o meu próximo seria virar atleta", disse.
Do interior de São Paulo para as montanhas
Cristian é natural de Rondônia, no Norte do Brasil. Ainda bebê, mudou-se com a família para Jundiaí (SP), em busca de tratamento para sua condição. No interior de São Paulo, aos 12 anos, ele teve o primeiro contato com o esqui durante uma apresentação na cidade sobre esportes de neve.
"Foi bem rápido que eu descobri que era bom no esqui e que [isso] mudou minha vida", disse Cristian Ribera.
Três anos depois, ele já competiria em uma Paralimpíada. Nos Jogos de Inverno de PyeongChang 2018, com apenas 15 anos, Cristian terminou em sexto lugar. Até conquistar a prata em Milão-Cortina, este era o melhor resultado do Brasil em Paralimpíadas de Inverno.
O atleta começou a treinar com o chamado rollerski, um esqui adaptado com rodinhas para pistas de asfalto. Até hoje, ele utiliza o equipamento no Brasil para se preparar para as competições.
"Quando a gente chega na neve, a gente só troca o roller pelo esqui. A gente consegue simular bastante, a técnica é muito parecida. O que muda mais é o impacto do asfalto nos ombros. E a curva, que é o principal, porque quando chega na neve é muito mais sutil do que no roller", explicou. Outra modalidade também o ajudou nesta prática. "O skate me ensinou a esquiar", afirma.
Além de Cristian, o esporte faz parte da rotina de toda a família. O irmão, Fábio, é o técnico dele. A irmã mais nova, Eduarda, também competiu no esqui cross-country nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026. "Minha família é muito competitiva. Minha mãe também treina junto com a gente. É praticamente uma paralimpíada e olimpíada todos os dias. Sempre que a gente sai para treinar é para querer ganhar, evoluir", disse o atleta.
O sonho das Paralimpíadas de Verão
Além do esqui cross-country, Cristian também treina para o atletismo e já tem em mente um novo objetivo: os Jogos Paralímpicos de Verão de Los Angeles 2028.
"Em 2024 eu estava tentando a vaga para Paris. Fiquei por 3 a 4 vagas para ser convocado. E é meu sonho também [competir] pelo atletismo. É um dos esportes pelos quais mais me apaixonei quando criança e faço até hoje com muito amor. E em 2028, com fé em Deus, a gente vai estar lá", afirmou.
É com essa expectativa de continuar realizando novos sonhos que o atleta mantém diariamente a dedicação. "Quem diria que veríamos um brasileiro medalhando no esporte de inverno. Então nada é impossível, com dedicação, com força e muito suor", conclui Cristian.