A Vale adquiriu 30% da mineradora Ligga, controlada pelo grupo Santa Elina no Pará, e garantiu a compra exclusiva de toda a sua produção atual e futura a longo prazo. Localizada a 10 km da Estrada de Ferro Carajás, a Ligga ganha fôlego para expandir suas operações e superar custos logísticos ao integrar a infraestrutura de transporte e escoamento da Vale. O valor do investimento estratégico não foi divulgado.
Dona de um gigantesco complexo de produção de minério de ferro em Carajás, no sul do Pará, a Vale vislumbrou valor futuro em uma operação de pequeno porte situada na mesma região, tocada pela mineradora Ligga S.A., que foi fundada e é controlada pelo grupo Santa Elina. A companhia assinou, na sexta-feira, 18, um acordo considerado estratégico, pelo qual adquire uma participação acionária minoritária de 30% da Ligga. Ao mesmo tempo, firmou um contrato exclusivo (offtake) que garante a compra de toda a produção atual e futura da mineradora por longo prazo.
A Ligga tem instalações de produção de minério de ferro da mina Ferro Sul, localizadas entre os municípios de Curionópolis e Parauapebas. As reservas, a mina e a área de produção da Ligga ficam aproximadamente a 10 quilômetros da Estrada de Ferro Carajás (EFC), ferrovia operada pela Vale que transporta minério produzido em Carajás para seu terminal portuário Ponta da Madeira, em São Luís, de onde é embarcado em grandes navios rumo a mercados do exterior.
O valor do negócio não foi revelado pelas duas companhias. Procurada, a Ligga informou que não comenta a operação. Já a Vale emitiu nota confirmando o acordo e fornecendo mais detalhes.
A Vale é a maior mineradora de ferro do mundo, com produção de 336 milhões de toneladas em 2025 nos dois sistemas operacionais: o Sul, em Minas Gerais, e o Norte, em Carajás. Somente o volume extraído no complexo Carajás atingiu 177,5 milhões de toneladas — a quase totalidade de minério sinter-feed.
A companhia brasileira compete globalmente com as também gigantes da mineração Rio Tinto, BHP, FMG (Fortescue Metals Group) — as três na Austrália — e Anglo American (África do Sul e Brasil).
Origens e expansão passo a passo
A entrada do grupo Santa Elina no negócio de minério de ferro se deu com a criação da Rio Minas Mineração, em 2011. A empresa, sediada em Cuiabá, incorporou todos os direitos minerais para exploração de minério de ferro do grupo no Pará, na região de Carajás.
Dez anos depois, a Rio Minas foi renomeada Ligga S.A., decorrente da formação de uma joint venture entre Santa Elina e o grupo Cosan, que visava uma integração do seu projeto de terminal portuário em São Luís com as reservas de minério de ferro da Ligga.
O empreendimento não evoluiu, principalmente em razão da entrada da Cosan no capital da Vale em 2022, adquirindo 4,9% das ações. Neste ano (2026), os acionistas da Santa Elina e da Cosan decidiram desfazer a joint venture. A joint venture, na época, previa criar uma companhia mineradora de ferro apta a produzir cerca de 10 milhões de toneladas por ano, a partir de 2025, e tinha plano de triplicar o volume.
A mina da Ligga começou a operar em 2022, crescendo aos poucos, de 600 mil toneladas para 1 milhão e depois 2 milhões de toneladas. Ao alcançar o novo patamar de produção, em 2028/2029, que será alavancado com a entrada da Vale no capital, a mineradora se tornaria uma empresa com receita na faixa de US$ 800 milhões pelos preços atuais de referência do minério na China, maior consumidor da commodity no mundo. No entanto, a fórmula do preço de venda é outra, pois o minério é entregue à Vale na ferrovia.
Mesmo com a mina quadruplicada, a Ligga, sem a estrutura da nova sócia, teria dificuldades para competir no mercado internacional. O frete marítimo, com a guerra EUA-Irã, subiu muito, afetando produtoras de pequeno e médio porte. Algumas já anunciaram paralisação de parte de suas minas. Estar na estrutura logística e comercial da Vale é um benefício para a Ligga. E juntas poderão fazer planos para crescimento da produção, disse um especialista ao Estadão.
O grupo Santa Elina pertence à família Brito e foi fundado na década de 70 por Paulo Brito, inicialmente focado na exploração de ouro. Hoje, a família é a maior acionista da mineradora de ouro Aura Minerals, que é listada na Nasdaq (Nova York) e na B3 (BDR). A Santa Elina, além do minério de ferro no Pará, tem produção de zinco e chumbo em Rondônia.