Queda sustentável da inadimplência depende da melhora do quadro fiscal, diz economista da Serasa

Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, programas como o Desenrola são importantes, mas 'não substituem necessidade de avanços estruturais'

30 ago 2026 - 05h42
Resumo
A economista-chefe da Serasa Experian afirma que a redução sustentável da inadimplência no Brasil depende da melhora fiscal e da queda dos juros, e não apenas de programas de renegociação. O cenário atual de crédito caro e inflação pressiona o orçamento de famílias e empresas. Embora fatores como apostas online e a expansão de MEIs e do Pix agravem ou alterem a dinâmica do endividamento, o problema central reside nas incertezas fiscais e no elevado prêmio de risco da dívida pública.

BRASÍLIA - A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, defende a adoção de programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, mas alerta que a queda consistente dos indicadores de endividamento e inadimplência só vai ocorrer com a melhora do ambiente macroeconômico.

Segundo ela, o pano de fundo do mercado de crédito hoje é de altas taxas de juros e dificuldade de acesso a linhas mais baratas. Dessa forma, apenas avanços estruturais, especialmente na questão fiscal, vão possibilitar uma queda consistente da Selic, pelo Banco Central.

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"Hoje, o Brasil tem juros muito elevados, com custo de crédito e prêmio de risco altos. Esse prêmio de risco está associado, entre outros fatores, às incertezas em torno da trajetória fiscal e ao crescimento da dívida pública. Enquanto esse cenário persistir, o espaço para uma redução mais significativa do custo de crédito permanece limitado", afirmou.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Como avalia a situação de endividamento e inadimplência das famílias e das empresas?

Temos um pano de fundo bastante preocupante: o elevado nível da taxa de juros, que vem se mantendo num nível restritivo por um período bastante prologando. Os dois quadros preocupam, mas por razões diferentes, embora o fator gerador dessas preocupações seja o mesmo, que é o custo financeiro elevado. No caso das famílias, a gente observa um orçamento bastante pressionado. Uma parcela relevante da renda já é comprometida com despesas essenciais e dívidas, o que reduz a capacidade de absorver choques e reduz o consumo. Nós fizemos um estudo recentemente dentro da Serasa e observamos que o brasileiro tem 74,6% da sua renda comprometida com despesas financeiras relacionadas às dívidas e com contas básicas como água, luz e gás. E quando a gente olha para famílias de renda menor, chega a 80% a 90% entre 1 e 2 salários mínimos.

E as empresas?

Já entre as empresas, principalmente as micro e pequenas, o desafio está relacionado ao custo do capital e à dificuldade de acesso à crédito. Muitas atravessam um período prolongado de juros elevados e agora enfrentam também uma desaceleração da atividade econômica. Então, existe uma conexão entre pessoa física e pessoa jurídica, quando as famílias perdem capacidade de consumo, a receita das empresas desacelera. E quando elas enfrentam problemas financeiros, isso afeta emprego e renda e o próprio consumo.

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Há algum dado que preocupe mais?

Talvez o dado mais preocupante seja a inadimplência em nível recorde, porque ela reflete uma fragilidade que pode ter impacto ainda mais amplo sobre a atividade econômica. Então, se nós estamos falando em um quadro de mercado de trabalho bastante aquecido, e já estamos alertando para inadimplência recorde, se houver uma deterioração do mercado de trabalho isso pode trazer agravantes a esses dados, e também às condições financeiras das famílias.

O crescimento das micro e pequenas empresas, MEIs e nanoempreendedores pode ter impulsionado esses números de endividamento e inadimplência?

O Brasil ampliou bastante a base de empresas nos últimos anos, especialmente entre os MEIs e microempreendedores. O meu ponto é que os dados mostram que não é correto atribuir o aumento da inadimplência a esse fenômeno isoladamente. Hoje, das 25,4 milhões de empresas ativas, 93% são micro e pequenas empresas, e 56,7% desse universo é formado por MEIs. Quando a gente olha para os dados, entre os 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes, 8,7 milhões são micro e pequenas, e dentro delas, cerca de 16,2% dos inadimplentes são MEIs. A simples expansão dos MEIs não explica o aumento da inadimplência. Também tem um aspecto importante de que o microempreendedor tem acesso ainda mais restrito ao crédito formal do que uma empresa de pequeno porte. Ele tem exposição a crédito bem menor do que uma empresa pequena, que também sofre com condições restritas. Os pequenos negócios enfrentam desafios para comprovar históricos financeiros, capacidade de pagamento, isso tudo acaba dificultando bastante o acesso ao crédito.

Há outros fatores?

Também existe um outro aspecto quando a gente fala sobre a inadimplência que é o fato de que a saúde financeira da pessoa jurídica e da pessoa física, especialmente do microempreendedor, costuma caminhar junto. Então, muitas vezes esse MEI pode não estar inadimplente na PJ, mas o fato de estar inadimplente na PF pode ser muitas vezes uma observação para que ele tenha dificuldade de conseguir esse crédito por meio do seu CNPJ. O aumento da inadimplência não pode ser explicado pelos MEIs, o principal fator continua sendo o ambiente de crédito restritivo, juros elevados por período prolongado e agora agravado pela desaceleração da atividade econômica.

Existe relação entre o surgimento do Pix, que levou milhões de pessoas ao setor financeiro, com esse aumento das dívidas?

O Pix ampliou a inclusão financeira, mas não criou a inadimplência. Teria cautela para fazer uma associação direta, porque foi uma transformação positiva no Brasil. Ele ampliou o acesso da população ao sistema financeiro, reduziu o custo de transação, trouxe milhões de pessoas para uma relação mais ativa com instituição financeiras. É verdade que a bancarização também aumentou a exposição de muitos consumidores a produtos financeiros e modalidade de créditos as quais não tinham acesso. Tem avanço da tecnologia, da concorrência, trouxe novos participantes para o mercado financeiro com modelos de negócios e avaliação de risco diferentes das instituições tradicionais. Isso ampliou a oferta de crédito para públicos pouco atendidos. Essa mudança foi relevante para famílias de menor renda, que passaram a ter acesso a produtos financeiros e meios de pagamento. Mas, isso por si só, não significa inadimplência. O que determina isso continua sendo a renda, condições do mercado de trabalho, custo do crédito e das condições econômicas de forma mais ampla. O Pix ajudou no acesso, mas a inadimplência está mais ligada às condições macroeconômicas e ao custo do financiamento, juros muito elevados por bastante tempo. Famílias perderam parte do poder de compra por conta dessa alavancagem da renda.

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Como as bets agravam esse quadro?

As apostas online podem representar um fator adicional de pressão sobre o orçamento de algumas famílias, principalmente entre aquelas famílias que já possuem menor folga financeira. Elas podem reduzir uma parcela da renda disponível que poderia ser destinada à poupança, consumo e pagamento de compromissos financeiros. Por isso, elas funcionam como um elemento agravante em grupos específicos, mas não é a causa principal do problema. A inadimplência é um fator multifatorial: renda, emprego, inflação, juros, educação financeira, acesso a crédito.

Qual a saída para melhorar o quadro: ajuste fiscal que permita uma queda maior dos juros ou programas como Desenrola?

Não vejo essas agendas como excludentes. Os programas de renegociação têm papel relevante porque permitem que as famílias ou as empresas regularizem pendências financeiras, recuperem o acesso ao crédito, reorganizem sua situação financeira; são instrumentos importantes, com resultados que podem ser relevantes no curto prazo. Mas a inadimplência depende da capacidade de pagamento, que passa pelo ambiente macroeconômico. Hoje, o Brasil tem juros muito elevados, com custo de crédito e prêmio de risco altos. Esse prêmio de risco está associado, entre outros fatores, às incertezas em torno da trajetória fiscal e ao crescimento da dívida pública. Enquanto esse cenário persistir, o espaço para uma redução mais significativa do custo de crédito permanece limitado. Programas de renegociação são parte da solução, mas não substituem a necessidade de avanços estruturais. A melhora sustentável dos indicadores de inadimplência dependem de um ambiente de maior confiança, menor percepção de risco e condições financeira que permitam às famílias reconstruírem sua capacidade de pagamento.

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