Plano de R$ 99 mil, bar all inclusive: por dentro da academia com a mensalidade mais cara do Brasil

Nova unidade da Six em São Paulo oferece concierge, saunas, banheiras de crioterapia, serviços de salão de beleza, brinquedoteca e espaços para networking

6 mar 2026 - 12h38
(atualizado às 16h36)

Poucos passos após a entrada, obras assinadas por artistas brasileiros são expostas em uma parede revestida de rochas naturais. A paleta em tons claros se espalha por todo o espaço, acompanhada de mármore e piso em taco de madeira de carvalho. No banheiro feminino, há sauna, banheira de crioterapia e serviços de beleza à disposição. Ainda no térreo, um bar all inclusive oferta um cardápio com bebidas de baixo teor calórico.

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No andar superior, no espaço de musculação — com equipamentos importados da Itália — um DJ toca de 6h às 10h sob o fundo de um espelho d'água. O rooftop com sofás e quadra de beach tennis com vista panorâmica para o parque Ibirapuera completa a experiência.

A descrição poderia ser confundida com espaços de convivência de hotéis de luxo no Brasil, mas é a nova unidade da Six, academia que entrou no mercado de alto padrão no setor de wellness no País. Recém-inaugurada na Vila Nova Conceição com limite para 400 membros, é a segunda da rede na capital paulista. Há outra no Itaim Bibi, que está com lista de espera de tempo médio de seis meses.

A nova unidade da Six adquiriu equipamentos de musculação de uma linha exclusiva da Technogym e se tornou a única academia da América Latina a contar com esses modelos
A nova unidade da Six adquiriu equipamentos de musculação de uma linha exclusiva da Technogym e se tornou a única academia da América Latina a contar com esses modelos
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

Para fazer parte do grupo seleto da nova unidade é preciso desembolsar R$ 4,5 mil por mês. Se for treino de apenas um dia, o custo é de R$ 800. O valor é superior ao de outras academias de luxo que operam em formato semelhante.

Na Les Cinq, por exemplo, que se posiciona como "boutique", as mensalidades podem chegar a R$ 4 mil, o day use é R$ 1 mil. A Bio Ritmo, marca de alto padrão de academias do Grupo Smart Fit, lançou há duas semanas nova unidade na Mercado Livre Arena Pacaembu. A mensalidade varia entre R$ 580 e R$ 2 mil, o plano mais caro tem capacidade para 100 alunos.

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Desde o início das operações, Eilson Studart, um dos sócios fundadores da Six, havia sacado que o cliente de alto padrão não se identificava com a estética das academias convencionais. Ele encontrou as referências que buscava nos resorts de luxo do Nordeste para atrair o público disposto a pagar caro em troca de exclusividade, conforto e excentricidade.

Quando a Six surgiu há dois anos, em Brasília, decidiram apostar em hospitalidade e personalização no atendimento para se diferenciar no mercado, ainda que Studart argumente não ter concorrência direta. Quando inaugurou a primeira unidade na capital paulista no ano passado a mensalidade custava menos da metade do valor atual. "Ficamos com receio de precificar tão alto em São Paulo", diz. Na época, a mensalidade do Itaim Bibi era R$ 1,8 mil.

Mas não demorou para subir a barra do negócio. "Os clientes falavam para aumentar o preço porque não queriam 'qualquer um' aqui", relembra. Com a expansão da rede, o sócio-fundador explica que cada unidade passou a atrair um perfil de cliente na capital. O Itaim Bibi concentra alunos do mercado financeiro e são majoritariamente mais jovens. Já a Vila Nova Conceição, que estava com metade da ocupação após uma semana de funcionamento, reúne médicos, advogados e moradores do bairro.

Quem se torna membro do clube tem acesso à sauna, atividades coletivas, café da manhã, banheira de crioterapia, equipamentos exclusivos importados da Itália, serviços de beleza de unha e cabelo, bar all inclusive, valet coberto, concierge, brinquedoteca com recreadora, salas de coworking e quadra de beach tennis.

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Todos os andares dispõem de balanças de bioimpedâncias, geladeiras com toalhas geladas, água, isotônicos, barra de cereais, bebidas proteicas e energéticos. Na entrada há uma prateleira abastecida de vinhos disponíveis para venda, com rótulos que ultrapassam R$ 1 mil.

Também há distribuição de produtos de marcas parceiras, como a Porsche. Além de patrocinar eventos da academia, a montadora oferece um serviço de apoio aos membros, em casos de pneu furado, por exemplo, a equipe presta socorro ao aluno, que pode ter a oportunidade de experimentar os produtos da marca.

A sala de coworking e as áreas de convivência não foram criadas para forçar o networking, ressalta Erich Shibata, sócio da Six. Ele, que primeiro era aluno e depois virou sócio assim como outros investidores da academia, pontua que a rede quer se afastar da ideia de que quem frequenta a Six será interrompido para fechar negócios ou ser acionado para vendas. "O nosso foco é saúde, o networking é orgânico", diz.

Para a professora Patricia Diniz, esses são atributos que transportam a linguagem dos hotéis de luxo para dentro de um serviço de academia. Assim como a Six, a limitação de vagas adotada pela maioria das academias de luxo reforça a ideia de gestão da escassez. "Isso tudo gera desejo e vontade de pertencimento", afirma.

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O exclusivo ainda mais exclusivo por R$ 99 mil

Na esteira do hype de saúde de luxo e bem-estar exclusivo, a Six deseja se posicionar como um ecossistema no setor de wellness. Para isso, lançou um programa de saúde que abrange consultas com médicos especialistas, concierge, pedidos de exames de sangue e checkup, suplementação e canetas emagrecedoras.

O investimento do plano anual com o medicamento é de R$ 99 mil, e R$ 75 mil sem o produto, já a opção de três meses custa R$ 26 mil com Monjauro. O outro sócio-fundador, Leandro Vaz, afirma que a iniciativa foi criada para ampliar o conceito do negócio. "Somos um clube de saúde e bem-estar", diz.

Com estimativa de faturar R$ 100 milhões neste ano, o plano de expansão prevê a inauguração de uma unidade em Campinas no próximo mês, que deve abrir as portas com todas as vagas esgotadas. A unidade de Alphaville deve ser lançada em setembro. Os sócios revelaram que há conversas preliminares para levar a Six a Belo Horizonte e de internacionalizar a marca, com Portugal e México no radar.

A professora da ESPM, Patricia Diniz, especialista em negócios de luxo, afirma que o setor wellness de alto padrão vive um momento aquecido no Brasil. "Esse mercado vai muito bem, obrigada", resume. Somente em 2024, o consumo de bens e serviços de luxo alcançou R$ 98 bilhões, de acordo com o relatório divulgado pela Bain & Company.

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A expectativa é de que os empreendimentos que ofertam exclusividade, rituais de conforto e economia de tempo continuem atraindo consumidores de alta renda no País. "Os modelos de negócio que aliam exercício, segurança, discrição e conforto operacional se transformam no que chamamos de 'terceiro lugar' na vida das pessoas", afirma Diniz.

Cilada do 'lucro fácil'

De olho nessa tendênica, a Bio Ritmo também rojeta ampliar a presença no Sudeste. A empresa lançou em fevereiro nova unidade no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, e estima inaugurar pelo menos 13 novas academias em 2026. A mensalidade custa a partir de R$ 680 e pode chegar a R$ 2 mil com um plano mais premium. Atualmente, soma 36 unidades no Brasil, Chile, Peru e Panamá.

"Quem procura a marca quer performance e uma visão mais integrada de saúde e bem-estar. Por isso, ampliamos nossa abordagem de wellness, unindo inovação, tecnologia e experiências que vão além do treino tradicional", diz Diogo Corona, CEO do Grupo Smart Fit.

A Les Cinq, por outro lado, não tem planos de expansão. Segundo o fundador Rodrigo Sangion, a empresa está priorizando a melhoria da qualidade das entregas. "Estamos direcionando energia para fortalecer nossos serviços, investir em inovação e ampliar a experiência dos alunos com um olhar cada vez mais integrado para o wellness", afirma ele. Hoje a unidade do Jardim América tem capacidade para 680 membros.

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Os negócios de luxo do setor de saúde e bem-estar devem seguir performando, até mesmo em cenários econômicos instáveis. "Existe o que chamamos de dinheiro resiliente. Quando algo se populariza, o luxo cria um andar acima", observa Patricia Diniz, da ESPM. Por isso, o valor da mensalidade costumam funcionar como filtro de entrada, acrescenta. No entanto, o desafio é manter a exclusividade e a qualidade impecável para evitar a tentação do "lucro fácil".

"Se o serviço cai de nível, surge outro mais caro e captura esse público", alerta. A formação de mão de obra qualificada para dar conta do padrão de atendimento exigido também é um desafio. "O espaço de wellness tem que ser um oásis e vai precisar surpreender cada vez mais", pondera.

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