Petróleo pode normalizar em março, mas há risco de impacto nos preços, diz diretor da Eurasia

Segundo Christopher Garman, impacto da guerra no Oriente Médio sobre o Brasil poderia ocorrer se conflito 'levar mais de quatro a cinco semanas'

10 mar 2026 - 10h36

Diretor-executivo da Eurasia Group para as Américas, Christopher Garman mantém a avaliação de que o efeito do conflito no Oriente Médio sobre o petróleo tende a ser transitório. Ele afirma que o cenário-base aponta para certa normalização dos mercados energéticos ainda em março, mas admite risco significativo de impacto duradouro nos preços da commodity.

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Garman diz que o presidente americano, Donald Trump, está disposto a assumir riscos, mas subestimou a reação do regime iraniano, que afetou diversos países ao adotar a estratégia de maximizar o dano à economia global. Segundo ele, o manejo do conflito "ficou mais difícil" do que o imaginado. No curto prazo, a Casa Branca deve dobrar a aposta e correr contra o relógio para contornar a crise, pois "quanto maior a duração, maior o preço que Trump pagará domesticamente".

"Nos Estados Unidos, popularidade é preço de gasolina. E, nesta segunda-feira, vimos declarações querendo criar as bases para declarar a vitória. Está batendo medo. Há eleições em novembro", afirma. "Trump sabe que tem que declarar vitória até o final deste mês", reforça. Em resposta às declarações de segunda-feira, o preço do petróleo virou para baixo e caía nesta manhã.

Quanto mais tempo demorar a normalização do tráfego de navios no Estreito de Ormuz, maior o risco de redução prolongada da oferta de petróleo. "Ataques pontuais do Irã sem resolução permanente podem elevar o preço da commodity e sustentar um choque inflacionário", alerta Garman. No cenário alternativo, adverso, com probabilidade de 40%, os efeitos sobre as cotações tendem a ser "mais duradouros".

Na segunda-feira, Trump ameaçou atacar o Irã com "20 vezes mais força" se o país "fizer algo que interrompa o fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz". Em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã disse que não permitirá "a exportação de nem mesmo um litro de petróleo da região para partes hostis e seus parceiros" enquanto prosseguirem os ataques de Estados Unidos e Israel contra o país.

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Para o Brasil, no cenário-base, o efeito imediato deve ser limitado, com repercussão modesta. No alternativo, porém, um choque pressionaria combustíveis e alimentos, gerando desgaste para o governo Lula em ano eleitoral. Se a crise durar de um a três meses, exigirá atenção do Banco Central ao reflexo sobre a inflação no processo de redução da taxa Selic.

"O dano político dos preços mais altos da gasolina é menor que nos Estados Unidos; o que pesa são os preços dos alimentos, ligados ao diesel e a fertilizantes", compara. Se a guerra "levar mais de quatro a cinco semanas, então poderíamos ter um impacto no Brasil", pondera Garman. Ele lembra que a crise da Ucrânia gerou efeito modesto e vê o Brasil bem posicionado ante os pares por ser potência energética, agropecuária e mineral em um mundo com conflitos maiores.

O diretor da Eurasia falou a empresários de diversos setores em evento da Esfera na noite desta segunda-feira.

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