Depois de um 2025 marcado por juros elevados, incerteza fiscal e seletividade nos ativos de risco, o investidor entra em 2026 diante de um cenário que mistura expectativa de alívio monetário, dúvidas políticas e oportunidades que exigem estratégia sobre onde investir. A leitura de especialistas é que o próximo ano tende a premiar carteiras bem diversificadas e construídas com foco em equilíbrio entre risco e retorno.
O desempenho do Ibovespa em 2025 foi influenciado por fatores distintos, mas complementares. De um lado, a Selic em patamar elevado encareceu o crédito, pressionou margens e limitou o crescimento das empresas. De outro, a percepção de risco fiscal manteve o mercado mais sensível a ruídos políticos e econômicos.
Segundo Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP, o cenário começou a mudar conforme o mercado passou a antecipar o início de um ciclo de cortes de juros.
"Passamos o ano com a Selic em um patamar alto para segurar a inflação, o que freou a Bolsa. Para 2026, o mercado já começou a precificar que o Banco Central vai começar a cortar os juros de forma mais consistente", afirma.
Para ele, a inflação de serviços será um dos principais termômetros do próximo ano: se ceder, abre espaço para juros menores e valorização dos ativos de risco.
Já Bruno Perri, economista-chefe e sócio da Forum Investimentos, destaca que a Bolsa brasileira também foi beneficiada por um movimento global de apetite por risco.
"A bolsa foi favorecida, fundamentalmente, por um movimento global de fluxo para mercados emergentes, num momento em que o Brasil estava entre as bolsas mais descontadas do mundo", explica.
A rotação das bolsas americanas e as perspectivas de cortes de juros nos Estados Unidos reforçaram esse movimento, assim como a expectativa de mudanças políticas no Brasil.
Renda fixa segue relevante, mas exige mais estratégia
Mesmo com a perspectiva de queda da Selic, a renda fixa continua ocupando papel central nas carteiras. A diferença, segundo os especialistas, está na escolha dos instrumentos e dos prazos.
Para Patzlaff, quem conseguiu travar taxas prefixadas mais altas tende a colher ganhos relevantes ao longo de 2026.
"Quem comprou prefixado com taxas altas vai se beneficiar bastante, principalmente no final do ano que vem, quando a taxa de juros deve estar em patamares menores", diz.
Ele também vê valor nos títulos atrelados à inflação no longo prazo, ainda que reconheça que, no início do ciclo de cortes, esses papéis podem render menos do que o CDI.
Perri compartilha a visão de que o investidor não deve abandonar os pós-fixados.
"Mesmo com a queda da Selic, esperamos que ela continue em patamares atrativos ao longo de todo o ano que vem", afirma.
Além disso, ele aponta oportunidades em prefixados de médio prazo e em títulos indexados ao IPCA, com destaque para vencimentos em torno de cinco anos, tanto no Tesouro Direto quanto no crédito privado, desde que observada a qualidade dos emissores.
Setores que podem se beneficiar do novo ciclo
Na renda variável, o ambiente de juros em queda tende a favorecer setores mais sensíveis ao crédito e ao consumo. Para Patzlaff, varejo e construção civil aparecem entre os principais beneficiados, enquanto setores defensivos seguem relevantes para compor a carteira. "Saneamento e eletricidade são as vacas leiteiras da carteira, pagando bons dividendos", afirma.
Os bancos também entram no radar. Segundo o planejador financeiro, a concessão de crédito a taxas mais elevadas ao longo do ciclo restritivo pode se traduzir em maior rentabilidade à medida que os juros caírem.
Perri reforça essa leitura e amplia o leque. Ele destaca que empresas com maior alavancagem financeira podem observar melhora significativa nos resultados em um ambiente de afrouxamento monetário, além das tradicionais pagadoras de dividendos, como utilities, que costumam performar bem nesse contexto.
Diversificação internacional ganha ainda mais peso
Em um ano eleitoral no Brasil e com incertezas no cenário global, a diversificação internacional segue como pilar das estratégias de alocação. Para Patzlaff, manter parte do patrimônio no exterior é uma forma de proteção.
"Os Estados Unidos continuam sendo o motor do mundo, então ter parte do patrimônio em dólar te blinda de riscos ligados ao câmbio, à política local e à economia doméstica", afirma.
Ele também vê oportunidades em outros emergentes, como a Índia. Na Europa, o destaque fica por conta de temas ligados à transição energética.
Perri concorda e destaca que ETFs americanos continuam sendo instrumentos eficientes para investidores com visão de longo prazo e perfil adequado ao risco. Além disso, ele aponta a renda fixa internacional, especialmente via fundos, como uma alternativa acessível para ampliar a diversificação geográfica.
Afinal, como investir em 2026?
Para atravessar 2026 com equilíbrio, os especialistas concordam que mais importante do que tentar antecipar movimentos pontuais é manter uma estratégia consistente.
Patzlaff defende uma base sólida em renda fixa, com aumento gradual da exposição à renda variável conforme o perfil do investidor permitir.
"Mais importante do que buscar o melhor investimento é ter uma estratégia que permita dormir tranquilo", resume.
Perri reforça que não existe uma alocação única para todos, mas que a combinação entre pós-fixados, títulos indexados à inflação e renda variável local e global tende a cobrir bem os principais cenários. Manter uma reserva de liquidez para oportunidades também segue como regra básica.
Diante das transições esperadas, 2026 deve exigir menos apostas extremas e mais disciplina na construção de portfólio. Para saber onde investir no novo ano, o investidor deve conseguir equilibrar proteção, diversificação e visão de longo prazo, a fim de atravessar o período com mais consistência.