Com as diretrizes para o primeiro leilão de armazenamento de energia em baterias do Brasil sobre a mesa, Fabio Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), avalia que, em cinco anos, o consumidor residencial também poderá se beneficiar de tarifas mais baratas na conta de luz. Há alguns passos importantes a serem dados até lá.
O certame, que vai contratar novos sistemas de armazenamento para fornecer potência ao Sistema Interligado Nacional (SIN), com o objetivo de armazenar energia e disponibilizá-la nos momentos de maior demanda, está previsto para ser realizado em duas etapas, nos dias 2 e 4 de dezembro.
Mas a maturação de todo o sistema de armazenamento de energia, explica o executivo, vai muito além do leilão e passa também pela criação de sinais econômicos positivos para o mercado. Segundo Lima, que também minimiza os impactos ambientais das baterias, o armazenamento de energia, ao contrário das hidrelétricas, é o caminho mais seguro para que não haja desperdício nas gerações de energia renováveis, seja solar ou eólica.
Fabio Lima é um dos painelistas confirmados no Energy Summit Global, evento de inovação e empreendedorismo nos setores de energia e sustentabilidade. Com parceria do Estadão, o festival deve reunir mais de 12 mil participantes, 3,3 mil empresas e 300 palestrantes entre os dias 23 e 25 de junho no Rio de Janeiro. A seguir, leia trechos da entrevista:
A energia elétrica no Brasil é cara?
Sim. O Brasil é abundante em geração de energia e o custo de produzir essa energia cresceu menos que a inflação na última década. O problema é que a tarifa paga pelo consumidor aumentou acima da inflação por causa de ineficiências na transmissão, na distribuição, nos encargos e dos diversos subsídios existentes. Se conseguirmos tornar o sistema mais eficiente, aproveitando melhor a energia renovável que já produzimos, será possível reduzir o custo final da eletricidade para todos os consumidores.
Nos últimos anos, o Brasil expandiu fortemente sua capacidade de geração de energia, principalmente com fontes renováveis. Por que o armazenamento passa a ser agora o grande desafio?
Gosto de explicar isso fazendo um resgate histórico. Em 2001, o Brasil enfrentou um racionamento de energia por falta de investimentos em geração. De lá para cá, tivemos cerca de 20 anos de políticas públicas para atrair investimentos e resolver o problema. Também fizemos um volume enorme de investimentos em transmissão, porque passamos a gerar muita energia, principalmente no Nordeste, e precisávamos levá-la aos grandes centros consumidores do Sudeste. Com isso, a energia solar e a eólica cresceram muito, tornando a energia abundante e barata. Agora, o desafio mudou. Precisamos compatibilizar o momento em que a energia é gerada com o momento em que ela é consumida. Nos últimos 20 anos resolvemos o problema da quantidade de energia e da sua distribuição geográfica. O próximo passo é adequar essa energia ao tempo, hora a hora. Como a geração solar depende do sol e a eólica depende do vento, precisamos armazenar essa energia para utilizá-la quando for necessária. É exatamente esse o papel das baterias.
Na prática, é uma estratégia para regular o fluxo da energia transmitida?
A lógica é muito simples. Quem consome água sabe que existe uma caixa-d'água para que não seja necessário puxar água da rede exatamente na hora do consumo. O carro tem um tanque de combustível para não precisar abastecer continuamente. Com a energia, será a mesma coisa. Você gera em um momento e utiliza em outro. Historicamente, nossa grande bateria eram os reservatórios das hidrelétricas, que armazenavam energia para os momentos de maior demanda. Esse modelo encontrou limites ambientais, de investimento e de expansão. Ao mesmo tempo, a energia solar e a eólica passaram a crescer em uma velocidade muito grande. Por isso, precisamos de uma solução, como as baterias, que possa ser implantada com a mesma rapidez e modularidade dessas fontes renováveis.
Em outros países, o armazenamento já é algo real?
A China expandiu enormemente a geração solar e eólica. Os Estados Unidos fizeram o mesmo. O Chile também. Todos chegaram ao mesmo ponto: depois de aumentar a geração renovável, perceberam que o próximo investimento precisava ser no armazenamento da energia para transferi-la de um horário para outro. O Brasil agora entra exatamente nessa etapa.
Qual é o estágio de maturação dessa tecnologia no Brasil?
A boa notícia é que o mundo já fez boa parte do trabalho por nós. A tecnologia está desenvolvida, consolidada e implementada em larga escala. Só no ano passado foram instalados cerca de 300 GWh de baterias no mundo, o equivalente a aproximadamente cinco Itaipus em potência adicionada. Estamos falando de uma tecnologia estudada desde os anos 1990, baseada em baterias de lítio-ferrofosfato, com padrões de segurança já bastante conhecidos.
O grande avanço do Brasil neste ano foi regulatório. Até então não existiam regras claras para a entrada desse novo agente no setor elétrico. Agora já temos as regras básicas definidas pela Aneel e também um modelo de remuneração por meio do leilão de reserva de capacidade promovido pelo Ministério de Minas e Energia. Os próximos ajustes envolvem regras de rede, questões ambientais e tributárias.
Quais são os próximos passos, de fato, para que esse mercado se desenvolva?
Há dois caminhos. O primeiro é executar o leilão. Já há capital, tecnologia, regras e empresas interessadas em investir. Agora é fazer acontecer. O segundo é criar sinais econômicos para que o armazenamento cresça também fora dos leilões. Isso passa por tarifas horárias, mudanças na contratação do acesso à rede, valorização econômica das baterias para consumidores e geração distribuída e também pela criação de novas fontes de receita para os geradores. Hoje, por exemplo, uma usina solar sofre cortes quando há excesso de geração. Com uma bateria, ela consegue armazenar essa energia e ainda prestar serviços adicionais ao sistema elétrico, sendo remunerada por isso.
Quem será mais beneficiado pelo armazenamento de energia?
O primeiro beneficiado será o consumidor. Hoje ele paga encargos elevados para manter usinas termelétricas disponíveis nos momentos de pico. As baterias conseguem fazer esse mesmo trabalho com custo muito menor. Além disso, permitem aproveitar a energia abundante e barata produzida em determinados horários para utilizá-la quando ela é mais cara. Isso reduz o custo total do sistema. Também beneficia os geradores solares e eólicos, que deixam de desperdiçar energia em momentos de excesso de oferta. Do lado dos investidores, há espaço para empresas de transmissão, geração, distribuição e também para os próprios consumidores, que poderão instalar baterias em suas casas, comércios ou indústrias e prestar serviços ao sistema elétrico.
Em termos geográficos, onde as baterias deverão ser instaladas?
Nos grandes projetos do leilão, a tendência é que fiquem principalmente no Nordeste e em Minas Gerais, onde existem incentivos para instalação próximos às áreas que mais precisam desse reforço. Já as baterias instaladas pelos consumidores acompanharão a distribuição da demanda, ficando principalmente na região Sudeste. Em ambos os casos, os benefícios serão para todo o sistema elétrico.
Com o leilão, a regulação estará 100% pronta?
Acabamos de concluir o primeiro ciclo regulatório com o leilão e as regras da Aneel. Nos próximos dois anos ainda haverá avanços regulatórios envolvendo o ONS e a EPE. Esse também deverá ser o período de início da fabricação desses equipamentos no Brasil. Entre 2028 e 2030, devemos ter uma indústria bastante madura e entrar em uma fase de crescimento contínuo, acompanhando a expansão do setor elétrico.
Existem riscos ambientais ou de segurança associados às baterias?
As baterias utilizadas em sistemas de armazenamento usam a mesma química das baterias dos carros elétricos, mas são ainda mais seguras porque permanecem estacionárias e não estão sujeitas, por exemplo, a acidentes de trânsito. O impacto ambiental é muito pequeno. São equipamentos fechados, herméticos, com emissão praticamente zero, baixo nível de ruído, sistema de resfriamento em circuito fechado e pequena ocupação de espaço. Normalmente ficam instaladas em áreas já urbanizadas, sem necessidade de grandes intervenções ambientais. A reciclagem já é uma atividade conhecida e o Brasil já tem empresas que fazem desmontagem, reciclagem e descomissionamento dessas baterias. O principal cuidado é garantir regras adequadas para o descarte, mas, seguindo os procedimentos corretos, o impacto ambiental tende a ser muito baixo.
Qual é a vida útil dos equipamentos?
Ela é medida em ciclos de carga e descarga. Hoje o padrão do mercado se aproxima de 10 mil ciclos. Uma bateria utilizada diariamente pode chegar perto de 20 anos de operação, dependendo da forma de uso e da evolução tecnológica.
Como o mercado livre de energia se relaciona com o armazenamento?
A relação é extremamente positiva. Hoje a tarifa de energia incorpora diversos encargos e não mostra claramente ao consumidor quanto realmente custa a energia em cada momento do dia. Com a expansão do mercado livre e de tarifas mais dinâmicas, o consumidor passa a enxergar melhor esses preços e ganha incentivos econômicos para investir em armazenamento. Isso aumenta a eficiência do sistema.
Quando tudo tiver bem azeitado, o consumidor residencial também deverá sentir, no bolso, esses efeitos?
A Aneel já discute a implementação de tarifas horárias para consumidores de baixa tensão, começando pelos que têm maior consumo. A ideia é sinalizar horários em que a energia é abundante e barata e outros em que ela é mais cara, especialmente no início da noite. O armazenamento permite que o consumidor carregue sua bateria nos horários de menor custo — durante a madrugada ou no pico da geração solar, por exemplo — e utilize essa energia no horário de maior consumo. No futuro, uma residência com geração solar e bateria poderá utilizar a rede elétrica muito mais como um sistema de apoio do que como sua principal fonte de energia.
Quando esse cenário começa a fazer parte da realidade desses consumidores residenciais?
Ele já começou. As baterias para aplicações comerciais e industriais já estão em operação. A tecnologia está pronta e a regulamentação será concluída entre agora e 2028. Historicamente, o consumidor responde muito rapidamente a esse tipo de inovação. Por isso, é plausível que, nos próximos cinco anos, esse mercado estará bastante maduro.