As vendas de eletroeletrônicos voltaram a crescer na casa de dois dígitos este ano, mesmo com crédito caro e orçamento apertado dos brasileiros por causa do elevado endividamento e do aumento da inflação de alimentos.
A reação, no entanto, não foi uniforme entre os vários segmentos do setor eletroeletrônico. Os eletrodomésticos de grande porte, como fogões e geladeiras, a chamada linha branca, e os eletroportáteis impulsionaram as vendas entre janeiro e maio, enquanto a comercialização de aparelhos de ar-condicionado e de itens de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), como monitores, despencou. Até mesmo as TVs, cujas vendas costumam disparar em anos de Copa do Mundo, tiveram desempenho pífio.
De janeiro a maio, foram vendidos 53,6 milhões de aparelhos eletroeletrônicos da indústria para o varejo, um volume 11% maior em relação a igual período de 2025, segundo a Eletros, associação que reúne os fabricantes.
A reação ocorre após o desempenho decepcionante que houve em 2025. No ano passado inteiro, tinham sido comercializadas 124,2 milhões de unidades, com um ligeiro recuo em relação ao ano anterior.
"O resultado de 2026 mostra que, mesmo com crédito mais caro e orçamento apertado, o brasileiro continua destinando uma parcela relevante da renda para conforto, eficiência e tecnologia dentro de casa", disse o presidente da Eletros, Jorge do Nascimento, durante a abertura da Eletrolar Show, em São Paulo.
Puxada pela renovação dos eletrodomésticos, como fogões, geladeiras e lavadoras, a linha branca sustentou o crescimento do setor e avançou 16% no período, com vendas de 7,1 milhões de unidades.
Os eletroportáteis são outro vetor de crescimento. Foram comercializados no período 37,6 milhões de aparelhos, com alta de 15% em relação aos cinco primeiros meses de 2025.
Os eletroportáteis têm valor unitário menor em relação a outros eletroeletrônicos e a compra, na maioria das vezes, independe do crédito.
Para Nascimento, os portáteis funcionam, em muitos casos, como porta de entrada para novos hábitos de consumo e para maior conveniência no dia a dia. "Mesmo quando o orçamento está apertado, o consumidor procura soluções que facilitem a rotina, e isso mantém o segmento em trajetória de crescimento."
Já as TVs, que normalmente explodem em anos de Copa do Mundo, tiveram um desempenho inexpressivo em número de unidades vendidas. Entre janeiro e maio, foram comercializados 5,6 milhões de aparelhos, com crescimento de 3% em relação ao mesmo período de 2025.
Para a Eletros, o mercado de TVs já tem uma base elevada, com aparelhos dotados de mais recursos, conectividade e telas maiores, o que explica o baixo crescimento de vendas neste ano.
Recuo das vendas de aparelhos de ar-condicionado e TIC
A grande surpresa nas vendas de eletroeletrônicos ocorreu com os aparelhos de ar-condicionado. Depois de três anos seguidos de alta, com momentos em que chegou-se a registrar escassez de aparelhos no varejo, as vendas despencaram neste ano.
De janeiro a maio, foram comercializadas 2,4 milhões de unidades da indústria para o comércio, com queda de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Além das temperaturas mais amenas, o elevado endividamento do consumidor, o crédito caro e a forte base de comparação levaram a esse desempenho negativo, segundo a Eletros.
Apesar da racionalidade dos argumentos, Nascimento admite que o resultado é preocupante. "A retração do mercado de ar-condicionado nos preocupa pela intensidade da queda e pelos reflexos sobre toda a cadeia produtiva", disse o presidente da Eletros.
Outro segmento que registrou queda de vendas foi o de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC). Entre janeiro e maio, foram comercializadas 792 mil unidades, com recuo de 13% em relação ao ano anterior.
A explicação para a queda é a base de comparação alta, pois tanto empresas como cidadãos comuns tinham renovado os equipamentos, bem como as condições mais restritivas do crédito.
"Isso não altera a importância do segmento, mas indica que empresas e consumidores passaram a permanecer mais tempo com os equipamentos adquiridos nos últimos anos", explicou Nascimento.