O Nubank iniciou operações nos EUA em parceria com o Lead Bank, lançando uma conta local e a Nu Global, serviço multimoeda com cartão virtual e transferências para mais de 35 países. Com depósitos convertidos em stablecoins de dólar e euro que rendem juros, a fintech mira o mercado de massa, não bancarizados e a população hispânica. A instituição aguarda aval final do Fed para obter licença bancária plena e aposta no baixo custo de atendimento para concorrer com grandes bancos e rivais globais.
MIAMI - O Nubank iniciou formalmente nesta quinta-feira, 10, as operações nos Estados Unidos, em um novo passo da estratégia de expansão internacional que tem sido implementada ao longo dos últimos anos. A fintech passa a oferecer no país uma conta com depósitos mantidos no Lead Bank, instituição financeira coberta pelo Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), espécie de Fundo Garantidor de Créditos (FGC) americano.
Ao mesmo tempo, o Nubank anunciou o lançamento da Nu Global, uma conta digital multimoeda que permitirá a transferência de dinheiro para mais de 35 países. O produto é parte da estratégia de expansão internacional da instituição financeira.
Os anúncios foram feitos durante evento no Nu Stadium, a sede do time de futebol Inter Miami, que firmou acordo de naming rights com a fintech no começo do ano. "Hoje, estamos lançando o Nu nos EUA", afirmou a cofundadora e CEO do Nubank no país, Cristina Junqueira, em discurso.
A conta global será acompanhada de um cartão virtual com bandeira Mastercard. Os depósitos serão convertidos em dólares digitais (USDC) ou euro digitais (EURC), stabecloins pareadas às respectivas divisas. O rendimento diário é de 3,5% ao ano e 2,20%, respectivamente. Haverá ainda a possibilidade de negociar uma cesta de ativos digitais, incluindo bitcoin e ethereum.
"Você poderá transferir dinheiro de mais de 35 países com rapidez, sem taxas de transferência e sem spread cambial. Você não encontra isso em nenhum outro lugar", afirmou o CEO global e fundador do Nubank, David Vélez, em discurso durante o evento.
O lançamento posiciona o Nubank em um mercado que vem crescendo rapidamente nos últimos anos, diante da ascensão de nomes como Nomad e Wise. Uma das principais rivais da fintech globalmente, a britânica Revolut vêm baseando sua estratégia de expansão internacional nesse modelo.
No começo do ano, o Office of the Comptroller of the Currency (OCC) havia concedido uma aprovação condicional para o Nubank estabelecer um banco nacional nos EUA. A autorização final, porém, ainda depende do aval do Federal Reserve (Fed) e outras agências regulatórias. A expectativa é de que essa etapa seja concluída até o ano que vem.
"Queremos ir além na próxima década. Queremos continuar construindo e levando o nosso modelo bancário para os EUA e para além deles", afirmou o CEO global e fundador do Nubank, David Vélez.
A expansão do Nubank nos Estados Unidos deve focar nos cerca de 100 milhões a 150 milhões de americanos não bancarizados ou com relacionamento limitado com instituições financeiras, disse Vélez.
A entrada do Nubank nos Estados Unidos está sendo viabilizada por uma parceria com o Lead Bank, que fornecerá a infraestrutura operacional necessária para o processo. No entanto, quando obtiver a licença regulatória definitiva no país, o banco digital planeja fazer uma transição para atuar de forma independente, disse Cristina Junqueira.
"A ideia é fazer uma transição ordenada para os clientes, que seja transparente, mas que a gente logo opere a nossa própria licença", explicou.
'Metade de todo o mercado bancário do mundo'
"Os EUA são um mercado gigantesco, com metade de todo o mercado bancário do mundo", disse o executivo a jornalistas brasileiros, em evento para anunciar o início das operações no país, no Nu Stadium, em Miami. "Tem segmentos que são muito competitivos."
Vélez acrescentou que os cerca de 80 milhões de hispânicos nos EUA representam um público compatível com as perspectivas do banco digital, que tem uma marca bem conhecida na América Latina. "Mas não temos um marca só para hispânicos. Temos uma proposta de serviços e produtos incrivelmente competitiva para o mercado massificado nos EUA", ressaltou. "Vai muito além de segmentos de nicho", ressaltou.
Cristina Junqueira explicou que um cliente no Brasil equivale a 10 nos EUA do ponto de vista da rentabilização potencial, em média. "Quando você ajusta a renda per capita aqui, nos EUA, isso significa que eles (os americanos) têm um poder de compra muito mais alto, então o gasto no cartão é mais alto, e o consumo de crédito aqui também proporcionalmente é maior", disse.
Segundo Junqueira, o Nubank hoje desembolsa cerca de US$ 1 para atender cada cliente americano, o chamado "custo de servir". Nos maiores bancos dos EUA, essa cifra chega a superar US$ 20, de acordo com ela. "É uma vantagem competitiva de custo significativa", ressaltou.
Vélez enfatizou ainda que fintech observa oportunidades em avançar no crédito nos EUA, sobretudo no grupo de não bancarizados.
'Regulação sob Trump abriu os EUA a novos concorrentes'
Vélez afirmou que o ambiente regulatório nos Estados Unidos se tornou "mais favorável" para a entrada de novos concorrentes no setor financeiro durante o governo atual do presidente Donald Trump.
Segundo Vélez, antes do segundo mandato do republicano, era praticamente "impossível" para qualquer fintech estrangeira ingressar no País. "Os reguladores agora já estão muito mais abertos e querem mais concorrência", disse.
Veléz reiterou ainda a disposição em sacrificar até 100 pontos-base (1 ponto porcentual) do índice de eficiência para investir na estratégia americana - no segundo trimestre, esse indicador estava em 19,5%. "Esse investimento, em 1 a 2 anos, é o que precisamos para ter uma adequação ao mercado", ressaltou.
Em discurso, o executivo ressaltou que, há alguns anos, o Nubank decidiu testar o funcionamento do modelo de negócios fora do Brasil. No México, a instituição atingiu 16 milhões de clientes. Na Colômbia, são mais de 5 milhões de usuários.
"Desde então, conseguimos gerar mais de US$ 10 bilhões em valor para nossos clientes", disse, estimando uma economia de mais de US$ 28 bilhões em tarifas bancárias, que, "se não tivéssemos chegado ao mercado, ainda estaria sendo retiradas do bolso de nossos clientes na forma de tarifas cobradas pelos grandes bancos", acrescentou.
O repórter viajou a convite do Nubank