Depois da adaptação de tecnologias para produção no agronegócio para o clima e o solo brasileiros, as principais inovações devem vir de fora do setor. Essa é a visão de Marcos Jank, professor de agronegócios globais no Insper e um dos nomes mais respeitados da área.
"Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, isso vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e os novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro. Virá de todo esse universo de inteligência artificial, de big data e de nanotecnologia", afirma.
Segundo Jank, o Brasil tem uma longa história de inovação no agronegócio que o colocou como um dos maiores nomes do setor globalmente, exportando itens como soja, milho, algodão, carne e ovos. Agora, as evoluções devem ser para evitar problemas como o desmatamento ilegal, o menor uso de recursos e trazer maior eficiência de produção.
Jank fala também sobre a reconfiguração do comércio global provocada pela disputa entre Estados Unidos e China, que deslocou parte da produção brasileira para o mercado chinês. Por outro lado, ele vê a relação comercial do Brasil com a China como um risco diante da estratégia comercial que Donald Trump, presidente dos EUA, tem adotado no seu segundo mandato na Casa Branca.
O especialista afirma ainda que a dependência do agronegócio brasileiro de importar fertilizantes da Rússia é um fator de risco para o setor.
Jank e Ana Paula Malvestio, consultora e conselheira de empresas do agro, serão os curadores de agronegócios no São Paulo Innovation Week, que será realizado de 12 a 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos - os ingressos já estão à venda e os assinantes do jornal têm desconto.
Leia os principais trechos da entrevista com Jank a seguir.
A relação do agronegócio com a tecnologia é consolidada no imaginário dos brasileiros. Quais são as tecnologias que mais têm ajudado a fomentar o agronegócio?
O agronegócio é um setor muito antigo. A primeira atividade foi a cana de açúcar, em 1530. Durante 150 anos, nos destacamos com os produtos tropicais, como acontecia na época da colonização. Basicamente, com a cana de açúcar, o cacau, a borracha e depois o café. A partir dos anos 70, com o surgimento da Embrapa, dos institutos estaduais de pesquisa e dos esforços que foram feitos na área de tecnologia pelas universidades agrícolas, o Brasil deu um salto e conseguiu dominar os trópicos. Até então, a produção acontecia na faixa costeira do País. A partir de então, fomos para o Centro-Oeste. Essa entrada se deu a partir de correção de solos, de manejo, de adubação em larga escala, porque são solos muito ácidos naquela região. Tivemos de corrigir e adubar esses solos, que eram pobres. Com isso, vários produtos foram tropicalizados. O principal deles é a soja, que estava no Sul do País e hoje já está sendo plantada perto do Equador. Depois, tivemos todo o melhoramento de capins africanos e de gado que veio da Índia (que é o gado zebu). A partir dos anos 90, foi muito interessante porque surgiu o plantio direto, que é o plantio sem revolver a terra. Portanto, era muito mais conservacionista. Na sequência, surgiu a possibilidade de uma segunda safra. Plantamos, por exemplo, soja e milho ou soja e algodão. Vários locais fazem isso junto com a pecuária. Fazemos três atividades, que é o que se chama de integração lavoura-pecuária. Isso não se faz em clima temperado.
Essas inovações trouxeram ganhos palpáveis de produtividade ao setor?
A produtividade da agricultura brasileira saltou de 2,5% ao ano para 3,2% ao ano nos últimos 25 anos. A dos Estados Unidos, por exemplo, é 1% ao ano, e a média mundial é 1,5%. Estamos crescendo mais que o dobro dos Estados Unidos ou da Europa em produtividade, porque a gente consegue fazer sistemas integrados de produção. Não é mais como nos anos 70, que era basicamente soja ou boi. Começou a surgir então soja, milho, algodão, café, cana de açúcar, celulose, bovinos, suínos, aves, leite, tudo isso integrado ao sistema. Nosso sistema é o mais eficiente do mundo porque ele utiliza muito bem a fotossíntese. O Brasil hoje é o quarto maior produtor mundial e o terceiro maior exportador. Agora, se olharmos só na categoria das commodities, que são esses produtos cotados em bolsa, nós já somos o número um, passamos os Estados Unidos. Então, somos um player realmente global nessa área. Exportamos para 200 países e temos um papel muito importante na segurança alimentar global.
Na sua visão, quais são os principais desafios ambientais que o Brasil ainda não conseguiu vencer para conseguir vender mais produtos no agronegócio para o exterior?
A Europa tem uma legislação que exige que os produtos que entram lá não tenham nenhum traço de desmatamento. O nosso único problema que precisa ser resolvido na área da sustentabilidade é o desmatamento ilegal, que infelizmente acontece. Ele caiu nos últimos anos. Estava na faixa de 1 milhão de hectares por ano, agora está em 700 mil por ano, o que ainda é muito alto. O grande problema é que a maioria desse desmatamento é fora da lei. É grilagem, invasão de terra, posseiros, posse precária da terra e criminalidade. Isso é muito mais intenso principalmente na Região Norte. Temos de combater essa ilegalidade, até porque ela fere a lei brasileira e isso talvez seja o nosso problema em relação, por exemplo, à União Europeia, que vai nos exigir essa rastreabilidade. Agora, as nossas exportações só cresceram. O que fez a exportação do agro brasileiro saltar de US$ 20 bilhões em 2000 para US$ 170 bilhões ao ano hoje foi essencialmente a nossa eficiência.
O acesso à internet ainda é um entrave para a adoção de novas tecnologias no campo?
Esses pacotes tecnológicos, que foram criados em condições tropicais, exigem que haja uma conectividade mais ampla. Esse é um problema para o uso dessas máquinas, que funcionam de forma automatizada, dia e noite, por meio de GPS. Temos de melhorar a conectividade, mas temos bastante avanço nisso com várias tecnologias que estão sendo utilizadas.
O fato de ser um País tropical forçou o agronegócio a ser inovador?
O Brasil avançou com tecnologias próprias. No caso dos trópicos, tivemos de adaptar essas tecnologias. Por isso, foi tão importante a ida de pesquisadores brasileiros aos Estados Unidos e à Europa nos anos 70 para aprender um modelo de produção intensiva. Eles trouxeram para cá o que estava sendo feito nos países temperados e adaptaram aos trópicos de forma muito melhor, porque nós temos mais fotossíntese. Nós temos a obrigação de produzir mais, porque nós temos muito mais sol e temos condições climáticas para plantar o ano inteiro. Tivemos uma integração muito interessante com bioenergia. Nos anos 70, numa crise semelhante ao que estamos vendo no Oriente Médio, decidimos utilizar o etanol na mobilidade no Brasil, e assim surgiu o carro a álcool, que depois virou o carro flex, e surgiu também a mistura de etanol na gasolina.
Na área de mobilidade, existem duas tendências no mercado global: os biocombustíveis e os veículos elétricos. Como elas se relacionam? A ascensão da eletrificação é uma ameaça ao agronegócio brasileiro?
A eletrificação foi cantada como uma solução global de mobilidade. O que vemos hoje é que ela é uma solução parcial. É a mesma coisa que acontece hoje quando se fala de fertilizantes químicos e fertilizantes biológicos ou de pesticidas químicos ou biológicos. Precisamos combinar essas coisas. Não existe uma bala de prata na questão energética global. Vamos continuar a depender do petróleo. Os combustíveis fósseis respondem por 85% do consumo de energia do mundo. Mas 15% é renovável, se a gente somar eólica, solar, hídrica, nuclear e bioenergia.
Os biocombustíveis podem ser uma solução melhor do que a eletrificação dos veículos?
No Brasil, nós temos uma matriz que é 50% renovável. Nós temos petróleo, mas conseguimos diversificar nossa matriz energética e caminhamos para os biocombustíveis como nenhum outro país caminhou. Uma matriz muito integrada de biocombustíveis, não só de biocombustíveis para automóveis, mas também produção de bioeletricidade a partir do bagaço de cana, por exemplo, ou de resíduos industriais. Portanto, estamos usando fontes naturais, como água, sol, vento e fotossíntese. Basicamente, a bioenergia é fotossíntese. Temos uma solução que não é a do veículo elétrico. É uma solução para os carros a combustão. Estamos usando a bioenergia e isso é muito mais eficiente do que um carro elétrico na China, que tem de recarregar numa tomada cuja eletricidade está vindo de carvão. Quase 70% da energia da China vem da queima de carvão.
Por que o carro elétrico não é a única solução para a mobilidade?
O carro elétrico é bem-vindo, mas não é solução para todo mundo. Em muitos lugares do mundo, vai continuar sendo motor a combustão, até porque trocar toda a estrutura de postos que tem no mundo hoje para abastecer o motor da combustão para um sistema elétrico vai ser difícil, e nós estamos muito longe disso.
Fora a questão do tempo. Carregar um carro elétrico demora muito mais do que abastecer um carro com gasolina ou etanol.
Exatamente. Infelizmente, uma das áreas que avançaram pouco é a de baterias. Ainda estamos longe. Mesmo quando falamos da bateria do celular. O celular é uma maravilha, mas as baterias ainda têm muito a melhorar. Temos hoje uma solução viável de bioenergia no Brasil e nós também temos a segunda maior reserva mundial de minerais críticos, principalmente de terras raras. Ou seja, o Brasil pode atuar como um player global tanto na bioenergia como na questão das baterias e da produção de energia elétrica.
Voltando um pouco ao campo para falar de inovação e trabalho, há um temor dos trabalhadores em relação à substituição por soluções baseadas em inteligência artificial. No agronegócio, existe esse temor também?
A inteligência artificial veio para ficar. As duas coisas que estão mudando muito rapidamente no mundo são a geopolítica e a inteligência artificial. Nos eventos internacionais, essa agenda ganhou espaço enorme, inclusive substituindo até a agenda de sustentabilidade, que são pautas relacionadas. Até porque os Estados Unidos se posicionaram contra o Acordo de Paris. Isso mexe com toda a economia e não é diferente no agro. A inteligência artificial está sendo usada em larga escala na mecanização e na informatização. O agro brasileiro, pela sua característica inovadora, é um usuário de inteligência artificial. Mas o que mais tenho visto nas minhas viagens de campo é falta de mão de obra. Os empresários conseguem contratar pessoas qualificadas para trabalharem no agro. Um dos problemas é do governo: é o nível educacional ainda muito baixo em parte da população, que não consegue operar máquinas e lidar com as novas demandas do setor. Falta tratorista, eletricista e operador de máquina. Outra reclamação é da legislação. Agora, o que está em foco no agro é esse problema do fim da jornada de 6x1. Outra reclamação é que, como uma grande parcela de brasileiros vive de programas assistenciais, tipo o Bolsa Família, é mais difícil contratar no campo. As pessoas têm uma resistência a trabalhar no campo.
Qual deve ser o impacto do acordo Mercosul-UE para o agronegócio brasileiro?
O acordo Mercosul-UE é algo que ninguém esperava que fosse sair. Com essa nova geopolítica, na qual a Europa está apertada entre os Estados Unidos e a Rússia, ela precisa de aliados. Tanto que, depois que surgiu essa nova política, ela assinou vários acordos, até com a Índia. Conosco, fez acordos que estavam na gaveta. Infelizmente, não sabemos se o acordo vai ser implementado na sua totalidade, porque ele foi judicializado. Os franceses colocaram o acordo nas cortes da Europa e pode ser que ele não seja plenamente implementado, mas deve ser implementado na área de comércio de bens. Houve uma grande celeuma porque disseram que invadiríamos a Europa. Mas isso é falso. As nossas exportações para a Europa sempre foram regidas por cotas. A Europa hoje representa 15% do que exportamos e a China representa 35%. Acabamos nos virando para a Ásia, que é 70% do que a gente exporta. No novo acordo, nos deram uma cota adicional. Eles deram 99 mil toneladas para quatro países do Mercosul para dividir. Só o Brasil hoje exporta mais de 3 milhões de toneladas. Estamos muito bloqueados. Não será um acesso volumoso, mas uma vitrine para dizer que vendemos para a Europa e para o Japão, que são mercados exigentes.
As salvaguardas da União Europeia no acordo prejudicam o objetivo de aumentar o comércio com o Mercosul?
A salvaguarda foi um gatilho criado em dezembro que fala o seguinte: se os volumes de comércio crescerem e os preços praticados caírem, podemos colocar uma salvaguarda que barra o comércio. O objetivo de fazer um bloco econômico deveria ser fazer o comércio crescer. Se você põe uma cota, ainda que pequena, o comércio vai crescer. Mas se crescer mais do que 5% da média dos últimos 3 anos a salvaguarda entra em vigor. Ou seja, o que a salvaguarda faz é anular o pouco que tinha sido conquistado com a cota adicional. Virou algo que foi muito midiático, mas sem nenhum impacto. Mas tem outras áreas importantes. Por exemplo, na área de investimentos. Quando você põe 720 milhões de habitantes juntos, pode ter investimentos cruzados. A Europa é muito ruim na produção de commodities (soja, milho, algodão), mas é muito forte em valor adicionado. Todos nós aqui consumimos vinhos, queijos, presuntos, cervejas e até águas europeias. Temos muito a aprender com a Europa, por exemplo, em denominações de origem, em embalagens, em marketing. O agro é enorme, mas mesmo em café a gente podia fazer muito mais em termos de marca.
Como o agronegócio consegue contornar os desafios trazidos pelas guerras e continuar se mantendo relevante no mercado global?
Uma coisa que as pessoas não percebem quando falamos sobre soja ou milho é quanta tecnologia existe nesses produtos. Para chegar numa produção eficiente de soja, de milho, de algodão, de carne bovina, suíno ou ovos, é preciso ter muita tecnologia. Seja em genética, no manejo, na alimentação ou nos fertilizantes e pesticidas. Um tema que vamos tratar no São Paulo Innovation Week é o avanço dessas tecnologias, por exemplo, na agricultura de precisão. Hoje em dia estamos falando de 60% a 70% de redução de uso de pesticidas a partir de aplicação localizada, onde a máquina identifica a praga, doença. Trata-se de uma combinação de produtos químicos e orgânicos, produtos biológicos, por exemplo, na área de controle de pragas. Ou seja, o Brasil está avançando rápido nisso e isso explica a nossa presença lá fora. Obviamente, precisamos não perder esses mercados.
O País ainda importa muitos fertilizantes e defensivos agrícolas. Isso é um risco para o agronegócio brasileiro?
O Brasil hoje é o maior importador de fertilizantes do mundo. Importamos entre 85% e 90% do que precisamos. Por isso, dependemos de países que estão no foco da geopolítica atual. Nosso maior fornecedor é a Rússia, depois a China e temos grandes fornecedores no Oriente Médio, principalmente de ureia, muito importante na fertilização de solos. Corre-se o risco de ter um aumento de preços de ureia nesse momento. Esses produtos importados chegam ao Brasil, vão até o Mato Grosso para servir como nutrição de soja, milho etc. Daí, produzimos a soja e o milho e eles vão para os portos a 2 mil km das regiões produtivas. Já temos trens e hidrovias funcionando, mas ainda dependemos muito do caminhão. Esses produtos pegam novamente o navio e vão para a China. São fluxos enormes. O fluxo de vinda de fertilizantes do Oriente para cá, o fluxo da ida de produtos, soja, milho, algodão, carne bovina, suínos, e aves para a Ásia. É uma cadeia longa e obviamente muito sensível a problemas geopolíticos.
O cenário geopolítico tem mudado muito, não só por causa das guerras, mas também pela política de tarifas do governo Donald Trump. Como a guerra tarifária reconfigurou as oportunidades do agronegócio brasileiro?
Curiosamente, o Brasil escapou um pouco das pressões do Trump. Trump usa tarifas como instrumento de dissuasão e pressão. No agronegócio, ele botou 50% de tarifa sobre o Brasil. Isso pegou de surpresa o agro que exporta para os Estados Unidos. Exportamos em torno de US$ 10 bilhões para os Estados Unidos. É pouco, para a China são US$ 55 bilhões. Mas atingiu um pouco os nossos produtos. O que aconteceu depois foi interessante. Os produtos que ele botou 50% sobre o Brasil são essenciais nos Estados Unidos. O americano adora café e o Brasil é o maior exportador de café do mundo. O americano adora hambúrguer. O Brasil é fornecedor de carne de hambúrguer para os Estados Unidos. O Brasil é fornecedor de celulose para os Estados Unidos fazerem sacolas e papéis. Eles adoram suco de laranja no café da manhã. Eles tiveram de isentar esses produtos porque havia uma pressão doméstica de consumidores.
A parceria comercial do Brasil com a China no agronegócio pode ser um risco diante da guerra tarifária de Trump?
Eles estão numa guerra tarifária com a China desde 2017, e não estão conseguindo exportar para a China. Nós roubamos a parcela de mercado dos Estados Unidos em mercados como soja, milho, algodão, carne bovina e carne de aves. Essa não é uma guerra de commodities agrícolas, é uma guerra hegemônica. Os produtores americanos estão furiosos que os Estados Unidos perderam o mercado e o Brasil ganhou. O Trump, por exemplo, iniciou recentemente uma investigação para olhar as relações do Brasil com a China. Ele pode tomar medidas que não sabemos quais serão. Fico mais preocupado com a pressão que os Estados Unidos estão fazendo na China, no Japão, na Coreia do Sul e na Índia. Vários países que são clientes nossos e que os americanos estão tentando entrar de uma maneira bruta.
Uma pergunta sobre futuro: olhando para o fim da década, qual tecnologia emergente que o sr. acredita que pode ser um divisor de águas para o agronegócio, tal qual foi o plantio direto?
Hoje temos dois grandes desafios. Um é aumentar a produtividade diminuindo o uso de recursos. Ou seja, produzir mais com menos insumos, como fertilizantes. Essa grande transformação vai acontecer em função de mais tecnologia. Nós vamos ter tecnologias aparecendo em várias áreas. Nós temos as tecnologias de georreferenciamento, de agricultura de precisão, de nanotecnologia, de biotecnologia, de inteligência artificial, de blockchains, de data lakes e de big data. Nas primeiras fases do desenvolvimento do agro, o desenvolvimento vinha de dentro do setor, com novas variedades de soja e os novos processos. Daqui para a frente, as maiores inovações vão vir de fora do agro. Será de fora para dentro. Virá de todo esse universo de inteligência artificial, de big data e de nanotecnologia. Isso é algo que está se consolidando no mundo inteiro.