O mercado financeiro reagiu com euforia à liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais. Na segunda-feira seguinte à votação, o Ibovespa superou os 200 mil pontos de forma inédita, o dólar caiu para menos de R$ 5 e os juros futuros recuaram com força. Os investidores antecipam maior rigor fiscal, reformas econômicas com o apoio de um Congresso conservador e corte na taxa Selic, embora analistas alertem para a distância entre expectativa e efetiva entrega das medidas.
A reação dos investidores brasileiros ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial, em que Flávio Bolsonaro (PL) ficou cerca de 2 pontos percentuais à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi de euforia nesta segunda-feira.
O Ibovespa superou os 200 mil pontos pela primeira vez na história, o dólar despencou para abaixo dos R$5 pela primeira vez desde maio e as taxas dos DIs cederam mais de 100 pontos-base em alguns contratos de longo prazo.
Durante a madrugada, parte desta reação já se desenhava no exterior, com alguns fundos de índices (ETFs) ligados a ações brasileiras registrando ganhos superiores a 12%, como informou a Reuters.
A euforia dos investidores é resultado direto da votação, que mostrou o senador Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos, contra 45,16% do presidente Lula. A percepção dos profissionais do mercado é de que uma virada no segundo turno, marcado para 25 de outubro, é improvável.
Os investidores avaliam, em geral, que com Flávio na Presidência cresceriam as chances de o governo promover um ajuste das contas públicas, sendo que a política fiscal de Lula é vista com desconfiança. A redução de gastos tende a esfriar a inflação, abrindo espaço para queda de juros.
"Mas há uma diferença importante entre expectativa e entrega. É justamente essa distância que deverá determinar quanto do movimento de hoje será sustentável", alertou Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital.
Ele lembrou que, além do bom desempenho de Flávio, o PL conquistou a maior bancada tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados.
"Uma eventual vitória de Flávio acompanhada por um Congresso mais conservador poderia, em tese, facilitar a aprovação de reformas e medidas de contenção fiscal. Mas este é também o primeiro grande ponto de atenção", disse Saravalle. "Congresso de direita não significa automaticamente Congresso fiscalista."
Após a abertura, o Ibovespa superou os 200 mil pontos e continuou acelerando, com o avanço quase generalizado das ações. Às 11h21, o índice subia 7,55%, aos 206.610 pontos. A peso-pesado Petrobras avançava 5,45%, enquanto o Bradesco tinha alta de 12,95%.
Favorecido pela perspectiva de juros mais baixos no Brasil em um eventual governo Flávio Bolsonaro, o Magazine Luiza disparava mais de 26%.
"Nas estatais, o preço passa a embutir a expectativa de mudança de gestão, caso o resultado se confirme, o que traz potencial de ganho, mas também mais volatilidade", disse Ronaldo Guimarães, sócio e conselheiro da KAT Investimentos, ainda na noite de domingo.
IMPACTO FORTE NA RENDA FIXA
A renda fixa brasileira também refletia nesta segunda-feira a empolgação dos agentes com a maior possibilidade de vitória de Flávio no segundo turno.
Entre os contratos de DIs (Depósitos Interfinanceiros) havia uma forte redução de prêmios, principalmente no trecho longo da curva a termo -- mais suscetível à política fiscal.
Às 11h24, a taxa do DI para janeiro de 2035 despencava 126 pontos-base, para 12,875%.
Já o impacto da liderança de Flávio na parte curta da curva -- vinculada principalmente à política monetária de curto prazo -- era um pouco menor, mas ainda assim considerável. A taxa do DI para janeiro de 2028 cedia 83 pontos-base, para 12,68%, refletindo chances maiores de corte da taxa básica Selic no início de novembro, após o segundo turno. A Selic está atualmente em 13,75% ao ano.
O movimento nos DIs ocorria a despeito das preocupações dos analistas com os impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis e com os efeitos inflacionários do fenômeno climático El Niño.
DÓLAR DESABA
O dólar também desabou nesta manhã de segunda-feira, para abaixo dos R$5 pela primeira vez desde 18 de maio deste ano, ainda na fase de pré-campanha eleitoral.
Na última sexta-feira, o dólar à vista havia fechado em R$5,2173, em meio ao temor, naquele momento, de que Lula tivesse se fortalecido na disputa com Flávio -- o que não se confirmou.
"Caso Flávio confirme a vitória, o dólar/real deverá seguir em tendência de baixa de longo prazo e, por isso, não é recomendável exagerar na compra", alertou em relatório nesta segunda-feira o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, ao tratar de estratégias para importadores brasileiros, que atuam na ponta de compra da moeda.
"Dada a estimativa de grande movimento, não seria surpresa cair em direção a R$4,90-R$4,80", acrescentou.
(Edição de Isabel Versiani e Michael Susin)