Guerra no Irã gera falta de hélio, vital para semicondutores

19 mar 2026 - 13h31

Tensão no Oriente Médio gera escassez de hélio, impactando produção de chips de alta tecnologia e ameaçando cadeias de suprimentos. Atingido pelo conflito, Catar produz um terço da demanda mundial pelo gás.Desde o início da guerra no Irã, as preocupações com o petróleo e o gás têm dominado as manchetes e gerado as maiores reclamações dos consumidores. Mas outro gargalo na cadeia de suprimentos global está causando alarme: a escassez de hélio, componente essencial usado na fabricação de semicondutores - os minúsculos chips que ajudam a alimentar tudo, desde veículos elétricos a smartphones.

Demanda por hélio aumentou na última década, em parte devido à demanda de fabricantes de semicondutores e eletrônicos
Demanda por hélio aumentou na última década, em parte devido à demanda de fabricantes de semicondutores e eletrônicos
Foto: DW / Deutsche Welle

Uma escassez prolongada de hélio pode levar à falta de chips avançados e ter efeitos em cadeia para os fabricantes de eletrônicos que dependem deles, ou forçar outros a reduzir seus planos de data centers.

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Essencial na fabricação de chips

Considerando que o hélio é incolor, inodoro e o segundo elemento mais leve do universo, ele tem uma lista surpreendente de aplicações, tanto em forma gasosa quanto líquida.

"É usado em áreas como ressonância magnética, fabricação de fibra óptica, soldagem, detecção de vazamentos e inflação de airbags, sem mencionar balões e dirigíveis", elenca Phil Kornbluth, presidente da empresa Kornbluth Helium Consulting, com sede em Nova Jersey.

Mas é a indústria de chips semicondutores que está passando por momentos de grande preocupação neste momento.

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O hélio de grau semicondutor é essencial para que os fabricantes de chips mantenham ambientes de produção ultralimpos e ultrafrios. Esse hélio livre de contaminantes também é necessário para a transferência de energia e calor, assim como em câmaras de vácuo.

Não existe alternativa ao hélio de altíssima pureza para esses processos de fabricação de chips e, sem ele, a produção será mais lenta ou até mesmo interrompida. "O hélio é caro em comparação com outros gases, então, na maioria dos casos, onde existem substitutos para o hélio, ele deixa de ser usado", disse Kornbluth, que tem mais de quatro décadas de experiência com hélio comercial.

De onde vem o hélio?

Embora haja hélio na atmosfera, a maior parte do hélio industrial provém de campos de gás natural e é separada durante o processamento, especialmente na extração de gás natural liquefeito (GNL). Na prática, o hélio é um subproduto da produção de GNL, que é o negócio mais lucrativo.

Estima-se que existam 31,3 bilhões de metros cúbicos de hélio recuperável no subsolo mundial, de acordo com um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos publicado no início de 2026.

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Os Estados Unidos possuem 8,49 bilhões de metros cúbicos de hélio recuperável, a Argélia possui 8,2 bilhões de metros cúbicos e a Rússia possui 6,8 bilhões de metros cúbicos. O pequeno Catar possui 10,1 bilhões de metros cúbicos, a maior reserva do mundo, e produziu pouco mais de um terço do hélio mundial no ano passado.

Após os ataques do Irã, a Qatar Energy interrompeu a maior parte de sua produção de GNL no país, o que significa que a produção de hélio também está suspensa.

O Irã impediu a saída de navios do Golfo Pérsico pelo Estreito de Ormuz, portanto, um terço do fornecimento global de hélio está simplesmente indisponível.

Transporte e armazenamento de hélio

O manuseio de hélio é uma tarefa especializada. A maior parte do hélio é transportada a granel na forma líquida ultragelada; o restante é transportado como gás comprimido.

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Como gás, o hélio pode ser armazenado indefinidamente, mas a capacidade para isso é bastante limitada, disse Kornbluth.

Outra opção é usar cavernas subterrâneas para armazenar hélio bruto em grandes quantidades, mas a capacidade aqui também é limitada. Existem apenas quatro instalações de armazenamento privadas desse tipo no mundo: três no Texas e uma em Gronau-Epe, na Alemanha.

A maioria das instalações de armazenamento de hélio líquido possui tanques com capacidade para apenas alguns dias a uma semana de produção, disse Kornbluth, o que é relativamente pequeno em comparação com a capacidade total de produção, sem falar na crescente demanda industrial.

Reservas de hélio reduzidas e preços mais altos

Por enquanto, as empresas podem contar com as reservas. E como o hélio leva várias semanas ou mais para chegar do Catar aos seus principais mercados na Ásia e na Europa, "deve levar pelo menos algumas semanas para que os usuários de hélio sintam o impacto de um déficit de oferta", prevê Kornbluth.

Como uma parcela significativa do hélio vem dos campos de gás do Catar, umbloqueio do Estreito de Ormuz "faz com que os volumes de hélio disponíveis sejam menores e os preços, mais altos", disse Michael E. Webber, professor especializado em energia da Universidade do Texas em Austin.

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Para o Catar, muito dependerá de quanto tempo a hidrovia permanecerá bloqueada e da rapidez com que os carregamentos de hélio forem retomados. Para clientes como fabricantes de semicondutores, encontrar fontes alternativas não será fácil, especialmente porque grande parte do hélio está vinculada a contratos de longo prazo.

"Existem outros locais com hélio inexplorado, mas encontrá-lo e trazê-lo à superfície leva muitos meses", ressalta Webber. Quando finalmente chegar ao mercado, provavelmente haverá uma forte concorrência.

Semicondutores e fornecimento de hélio

Em 2025, as vendas globais de semicondutores atingiram 791 bilhões de dólares (R$ 4,1 trilhões), um aumento de 25,6% em comparação com o ano anterior, de acordo com a Associação da Indústria de Semicondutores (SIA).

Com esse crescimento, aumenta a necessidade de hélio, e a associação do setor alertou sobre os riscos ao fornecimento.

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Em janeiro de 2023, a SIA destacou que um choque repentino no fornecimento poderia impactar significativamente a fabricação de semicondutores nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Uma das suas maiores preocupações era que grande parte do fornecimento se concentra em regiões de potencial risco geopolítico. Como risco adicional, o hélio especializado para semicondutores provém principalmente do Oriente Médio e da Rússia.

A reciclagem de hélio ainda está em seus estágios iniciais. E não há muito espaço para aumentar a eficiência no setor de fabricação de chips, visto que os fabricantes já adotaram medidas para reduzir o consumo de hélio em resposta a interrupções anteriores no fornecimento, segundo a SIA.

Kornbluth afirma que a melhor maneira de reduzir a vulnerabilidade do fornecimento é comprar hélio de fornecedores que têm fontes diversificadas, mesmo que isso signifique ter múltiplos fornecedores.

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