O dólar fechou a terça-feira em baixa firme ante o real, na menor cotação em cerca de 27 meses, em uma sessão no geral positiva para os ativos de risco em todo o mundo apesar da guerra no Oriente Médio.
O dólar à vista encerrou o dia com queda de 1,12%, aos R$4,9123, o menor valor de fechamento desde 26 de janeiro de 2024, quando atingiu R$4,9110. Em 2026, a divisa dos EUA passou a acumular baixa de 10,51% ante o real.
Às 17h27, o dólar futuro para junho -- atualmente o mais líquido no mercado brasileiro -- cedia 1,12% na B3, aos R$4,9430.
Nesta terça-feira, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que o cessar-fogo com o Irã não terminou, mesmo com os dois países trocando tiros no Golfo Pérsico, enquanto lutam pelo controle da hidrovia.
Já o presidente dos EUA, Donald Trump, desqualificou a capacidade militar do Irã e disse que Teerã "deveria acenar a bandeira branca da rendição", mas é orgulhoso demais para fazer isso.
Ainda que o conflito siga em curso, a manutenção do cessar-fogo entre EUA e Irã fez os investidores globais buscarem ativos de maior risco, como ações, títulos e divisas de países emergentes, como o rand sul-africano, o peso mexicano e o peso chileno. O real liderou os ganhos em relação ao dólar entre as divisas globais.
Na mínima da sessão no Brasil, às 15h27, o dólar à vista foi cotado a R$4,9065 (-1,24%).
O recuo do dólar, na visão de alguns profissionais, também foi favorecido pela ata do último encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Nela, o BC avaliou que a demora na resolução do conflito no Oriente Médio aumenta a chance de impactos duradouros na economia global. Para o BC, a duração da guerra até o momento pode ter sido suficiente para materializar alguns riscos, "sendo o mais evidente a desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos, em particular para o ano de 2028".
A perspectiva de que o BC tenha menos espaço para cortar a taxa básica Selic ao longo dos meses em função do efeito inflacionário da guerra -- já precificada no mercado de juros futuros -- reforçou a percepção de que Brasil seguirá atrativo aos investimentos estrangeiros.
"A ata anterior (de março) foi ainda no início da guerra, com um cenário de muita incerteza. Agora temos isso (os efeitos do conflito) mais claros dentro do Copom", afirmou Nicolas Gomes, especialista de câmbio da Manchester Investimentos.
Gomes pontuou que os juros ainda elevados no Brasil favorecem as operações de carry trade, nas quais investidores pegam recursos em outras moedas -- como o iene do Japão, onde as taxas são historicamente baixas -- e aplicam no mercado brasileiro.
"A valorização do real foi puxada pela combinação de entrada de recursos comerciais -- favorecida pelo petróleo ainda acima de US$110, que melhora os termos de troca e amplia a oferta de dólares -- e fluxo financeiro, diante de um diferencial de juros elevado", corroborou Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, ao justificar a queda da moeda norte-americana nesta terça-feira.
"A ata do Copom, com tom mais conservador, reforçou a percepção de uma Selic mais alta ao fim do ciclo, sustentando o 'carry trade' e incentivando a alocação em renda fixa local", acrescentou.
No exterior, às 17h27 o índice do dólar -- que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas -- subia 0,01%, a 98,479.
(Edição de Pedro Fonseca e Isabel Versiani)