A Dívida Bruta do Governo Geral acelerou em 2026, atingindo 82,86% do PIB (R$ 11,055 trilhões) em agosto, o maior salto para o período desde a pandemia de 2020. Impulsionado por gastos do ano eleitoral e juros elevados, o endividamento preocupa analistas, que projetam que a taxa alcance 83,40% ao fim de 2026 e supere 90% em 2028. Para conter essa trajetória e reverter o ciclo vicioso fiscal, economistas apontam a necessidade urgente de cortes de despesas e superávits primários pelo próximo governo.
BRASÍLIA - O crescimento do endividamento público nos oito primeiros meses de 2026 ocorreu em ritmo superior ao observado em anos anteriores. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), aumentou para 82,86% em agosto, ante 78,64% em dezembro de 2025. O avanço de 4,22 pontos porcentuais foi o maior registrado para o intervalo desde 2020, quando somou 11,39 pontos em meio aos gastos emergenciais relacionados à pandemia de covid-19.
O nível de 82,86% atingido pela DBGG em agosto corresponde a R$ 11,055 trilhões e, conforme a série histórica da autarquia, iniciada em dezembro de 2006, foi o mais elevado desde março de 2021 (85,10%). Os dados foram divulgados na quarta-feira, 30, pelo Banco Central.
A DBGG — que abrange o governo federal, os governos estaduais e municipais, excluindo o BC e as empresas estatais — é uma das referências para avaliação, por parte das agências globais de classificação de risco, da capacidade de solvência do País.
O pico da DBGG foi alcançado em outubro de 2020. Durante a pandemia, a dívida chegou a 87,66% do PIB. O indicador diminuiu em 2021 e 2022, chegando a 71,38% em janeiro de 2023, mas voltou a crescer nos meses seguintes.
A DBGG aumentou 2,15 pontos porcentuais ao longo de 2023 e encerrou o ano em 73,83% do PIB. Em 2024, cresceu 2,44 ponto, para 76,27% do PIB; e, em 2025, 2,37 pontos, para 78,64%.
A mediana do Sistema de Expectativas de Mercado, que embasa o relatório Focus, estima que a dívida deve chegar a 83,40% do PIB no fim de 2026. Se o resultado se concretizar, terá sido um crescimento de 4,76 pontos. À frente, o mercado projeta que a DBGG chegará a 87,32% no fim de 2027 e 90,42% no fim de 2028.
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, avalia que a economia brasileira está sob pressão fiscal há alguns anos, com déficit persistente e avanço relevante da dívida. Ele analisa que esse quadro fiscal mal resolvido contribui, junto a outros fatores, para o nível alto dos juros no País e cria um ciclo indesejado.
"É um conjunto muito ruim. A parte fiscal não resolvida, com déficit e dívida elevados que pressiona a taxa de juros, vira um círculo vicioso, que acaba aumentando a própria dívida pública no final", diz o economista.
A saída passa por um ajuste fiscal com a geração de superávit primário, afirma. "Um superávit primário que chegue a 1,5%, 2,0% do PIB seria essencial para começarmos a pensar em estabilizar a dívida pública", diz Vale, que ressalta que isso exigiria um esforço significativo do governo que será eleito.
Para o economista, o próximo governo — seja uma reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) — deve, em alguma medida, endereçar um ajuste fiscal. Porém, diante das condições atuais, o economista considera difícil desenhar um cenário em que a dívida não alcance 90% do PIB nos próximos anos.
"Ainda há trabalho e possibilidade de impedir de chegar a 100%, mas chegar a 90% está na esquina. O esforço fiscal que vai precisar ser feito é muito grande; eu acho, tenho a impressão, que a gente não vai conseguir."
Ele não projeta, por ora, que a dívida supere 100% antes de 2030. Na avaliação de Vale, isso só ocorreria se houvesse uma crise de grande magnitude no País.
O economista-chefe da G5 Partners, Luís Otávio de Souza Leal, avalia que a aceleração registrada na trajetória da DBGG em 2026 está associada ao aumento de gastos relacionado ao ano eleitoral e ao nível elevado dos juros no País.
Ele menciona que algumas medidas tomadas pelo governo no último ano não tiveram a contrapartida esperada: "Teve o ônus, mas não o bônus". Cita como exemplo o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda e a frustração com a tributação de dividendos.
À frente, para Leal, a tendência é que o endividamento público siga crescendo, mas sem acelerar o ritmo. "Temos uma diminuição dos juros, que, no médio prazo, vai impactar positivamente a dívida, e, no ano que vem, não estaremos mais em eleição. Quem entrar no governo terá que fazer algum tipo de ajuste, até porque o governo já contratou um belo aumento de gastos para o ano que vem", diz.
O economista projeta que a DBGG chegue a 84% do PIB no fim deste ano e 88% no fim de 2027.
A CEO e economista-chefe da Buysidebrazil, Andrea Damico, chama atenção para o papel da credibilidade da política fiscal nessa dinâmica e ressalta seu efeito sobre o nível dos juros.
"Para além do horizonte relevante da política monetária, temos hoje uma desancoragem das expectativas devido ao risco fiscal. Uma parte da culpa desses juros altos também é da falta de credibilidade fiscal de médio prazo", diz Andrea.
Na avaliação da economista, nos próximos quatro anos, o governo eleito — seja qual for — terá a oportunidade de buscar a recomposição dessa credibilidade, sinalizando compromisso com a redução do ritmo de crescimento dos gastos.
Como caminho, Andrea ressalta a importância de conter as despesas e as excepcionalidades do arcabouço. Ela vê algum espaço para a revisão de benefícios tributários, mas ressalta a necessidade de medidas do lado dos gastos serem endereçadas, com destaque para a questão das despesas obrigatórias e otimização dos benefícios sociais.
A economista enfatiza que o cenário para a dívida à frente dependerá das medidas concretas adotadas pelo governo que será eleito. O cenário atual da Buysidebrazil é de DBGG em 83,7% do PIB no fim de 2026 e 87,3% no fim de 2027.