A chilena Viña Concha y Toro (CYT), líder na produção de vinhos no país andino, anunciou na quinta-feira, 16, a criação da Viña Amelia, uma filial independente do grupo, focada exclusivamente na elaboração de vinhos com as uvas chardonnay (branca) e pinot noir (tinta). A nova vinícola surge da necessidade da CYT de investir no mercado de vinhos premiuns, aqueles com preço ao consumidor acima dos R$ 100 a garrafa no Brasil. "A criação da Viña Amelia reflete a nossa convicção de que o futuro dos vinhos de alta gama se constrói a partir da especialização, da origem e da identidade", afirma Eduardo Guilisastri, diretor-geral da CYT, no comunicado de lançamento da vinícola.
A Viña Amelia, até então uma linha de vinhos premium no portfolio da importadora, fica no vale do Limarí, no norte do Chile, com destaque para o vinhedo Quebrada Seca. Sua produção anual equivale, em média, a 4,8 mil caixas de 9 litros, apenas com a chardonnay e a pinot noir. Para gerir a nova vinícola, foi promovido o enólogo Marcelo Papa, diretor técnico da Viña Concha y Toro, que passa a atuar também como diretor técnico da Viña Amelia, acumulando os dois cargos.
A ideia da CYT é que a Viña Amelia siga o mesmo caminho da hoje Viña Don Melchor. Em 2019, a CYT anunciou a criação desta nova vinícola, na qual o seu rótulo mais premium, o Don Melchor (R$ 1.000, a safra de 2022 no site Descorcha.com) ganhou uma vinícola própria. O enólogo Enrique Tirado passou a ser o principal executivo da então nova vinha, mantendo o foco na cabernet sauvignon e o seu vinhedo de 127 hectares em Puente Alto, mas com autonomia para definir suas estratégias de negócios.
O plano deu certo, como exemplifica o lançamento, no final do ano passado do DM 01, elaborado com uvas de apenas uma parcela do vinhedo e com preço 30% abaixo do Don Melchor. E, em 2024, a safra 2021 do Don Melchor foi eleita o melhor vinho na relação dos 100 mais da revista norte-americana Wine Spectator.
A aposta agora é conseguir trazer valor agregado para uma vinícola focada em apenas duas variedades, e posicionada como produto premium. A seu favor, a CYT deve explorar as condições diferenciadas de solo e clima nesta região chilena, e o conceito de identidade do vinhedo, que vem crescendo entre os consumidores de rótulos premiuns.
O foco no mercado de vinhos premium é uma necessidade do Chile, em geral, e da Concha y Toro, em particular. "É um segmento que a Concha y Toro, mesmo sendo a maior vinícola do Chile, não tem. E é a categoria que mais cresce em vendas", afirma Felipe Galtaroça, CEO da consultoria Ideal.BI, especializada no mercado de bebidas. No Brasil, que é o principal mercado para os rótulos chilenos, essa categoria de vinhos premium aumentou 10% em volume no ano passado, em comparação com os dados de 2024, impulsionada, principalmente, pelos rótulos franceses.
Nos dados da Ideal.BI, o Chile lidera o ranking dos rótulos importados pelo Brasil, com 41,8% do total. Isso significou, no ano passado, 8,7 milhões de caixas de 9 litros de vinho, o equivalente a US$ 214 milhões. Galtaroça acrescenta que na segmentação por preços, os rótulos acima de R$ 100 a garrafa representam 18% do total de vinhos chilenos exportados para o Brasil. "É um patamar significativamente abaixo da média geral dos demais países, que é de 30%. Esses números evidenciam que, apesar do sucesso nos vinhos de menor valor (leia-se rótulos como os reservados), o Chile enfrenta o desafio de fortalecer sua presença em faixas mais caras", acrescenta o executivo.
O Brasil representa 7,9% das vendas globais da Viña Concha y Toro. Fica em quarto lugar, atrás do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Chile. Em 2025, a companhia registrou crescimento de receita global de 1,7%, totalizando US$ 1,1 bilhão, com um total de 12 mil hectares de vinhedos, divididos pelos três países em que a CYT tem vinícolas: Chile, Argentina e Estados Unidos.