'Concessões e PPPs deixaram de ser ideológicas e viraram base do crescimento', diz executivo da B3

Guilherme Peixoto afirma que Brasil ainda está aquém do seu potencial, mas números crescem a cada ano

20 fev 2026 - 19h12

Os números de leilões realizados no âmbito da B3 apresentam uma crescente constante. Dos 27, em 2020, passou por 38 em 2023 até chegar aos 75 no ano passado. De acordo com Guilherme Peixoto, chefe de Leilões da B3, 2026 será ainda melhor. Para o executivo, além de o investidor internacional sentir-se seguro com o ambiente criado para as PPPs e concessões no Brasil, a pauta está cada vez menos ideológica e mais técnica.

Os principais avanços e gargalos do setor estarão em debate no evento P3C — PPPs e Concessões — Investimentos em infraestrutura no Brasil. O evento será realizado nos dias 23 e 24 de fevereiro no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo. Mais informações sobre inscrições e programação pelo site https://www.evento.p3c.com.br . Acompanhe o evento nas redes sociais do Estadão e no portal estadao.com.br.

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A seguir, trechos da entrevista.

O País já atingiu seu potencial máximo em concessões e PPPs?

O Brasil ainda está longe do seu potencial máximo. Somos um País com enorme carência de infraestrutura e uma janela de oportunidades que pode durar décadas. Países europeus, por exemplo, já têm cerca de 95% da infraestrutura pronta. Ainda assim, estamos em uma trajetória claramente ascendente. Ano após ano, batemos recordes. Em 2024, realizamos 64 leilões. Em 2025, foram 75. Para 2026, já temos 39 leilões agendados e a expectativa é fechar o ano com um novo recorde.

Questões como ESG e sustentabilidade são parte estrutural dos projetos mais recentes?

O poder público tem sido protagonista nessa agenda. A maioria esmagadora dos projetos já nasce com critérios ESG incorporados desde a concepção. Projetos rodoviários incluem compensações de carbono; saneamento é ESG por definição, com impacto direto na saúde pública; portos também incorporam critérios ambientais. Além disso, temos projetos de concessão florestal, que colocam o Brasil no caminho de se consolidar como uma potência verde, levando renda e desenvolvimento para a floresta ao mesmo tempo em que se preserva o meio ambiente.

A agenda das privatizações está devidamente amadurecida?

O Brasil de 2026 é um país maduro para promover concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). A agenda de infraestrutura é hoje incontestável. Ela atravessa governos, ideologias e ciclos políticos. E esse é um dos maiores avanços institucionais que o País construiu nas últimas décadas.

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O ambiente hoje, em termos gerais, é mais técnico e menos ideológico?

Os números mostram isso com clareza. A agenda de infraestrutura no Brasil hoje não é ideológica. Ela é pragmática. Concessões e PPPs se tornaram uma das bases do crescimento econômico do País, atraindo bilhões em investimentos. Dez anos atrás, era difícil imaginar que as PPPs seriam um dos principais motores da economia brasileira. Hoje, isso é uma realidade consolidada.

Qual é, afinal, o papel da B3 nos processos de concessões e parcerias público-privadas no Brasil?

A atuação da B3 no apoio aos processos licitatórios do governo para grandes projetos de infraestrutura nasce ainda na década de 1990, com o ciclo de privatizações. Naquele momento, as vendas de empresas estatais eram, em sua maioria, realizadas em Bolsa, o que criava uma conexão direta entre o papel da Bolsa de Valores e esses processos. Foi assim em operações como CSN, Usiminas, bancos estaduais e o sistema Telebrás. A partir do início dos anos 2000, com o apagão energético e o avanço das concessões no setor elétrico, o governo entendeu que esses novos processos também precisavam ocorrer em um ambiente reconhecido internacionalmente por boas práticas de governança, transparência e neutralidade. A partir daí, a Bolsa passou a apoiar concessões de energia e, mais tarde, rodovias, portos e aeroportos. Em especial após os projetos ligados à Copa do Mundo e às Olimpíadas, a atuação da B3 se expandiu para praticamente toda a agenda federal de concessões de infraestrutura.

Como essa atuação evoluiu ao longo do tempo, especialmente com a expansão das PPPs no país?

Essa trajetória acompanha a própria ampliação da agenda de infraestrutura no Brasil. Em 2017, com a criação do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o país passou a ter um centro de governo dedicado a olhar estrategicamente para concessões e PPPs. Esse fortalecimento institucional ampliou também a nossa atuação junto aos estados. No início da década de 2010, trabalhávamos basicamente com dois estados, Bahia e São Paulo. Hoje, mantemos relacionamento constante com mais de 20 estados que já têm carteira estruturada de projetos. De forma objetiva, só não atua com a B3 quem ainda não tem projetos prontos para ir a mercado.

Onde exatamente vocês entram no ciclo de uma PPP?

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A B3 atua no momento crucial em que o projeto sai do papel e vai a mercado. O poder público estrutura o projeto com apoio de consultores técnicos, financeiros, jurídicos e ambientais. Quando esse projeto está maduro e aprovado, é preciso conduzir o leilão com governança, rigidez e melhores práticas. É nesse ponto que a B3 entra como assessora do processo licitatório, conduzindo o leilão — que é o momento em que o setor público e o privado se encontram.

Na prática, o que isso significa em termos de governança e segurança jurídica?

Significa blindar o processo contra interferências políticas, pressões locais ou questionamentos indevidos. A B3 revisa o edital, faz a custódia dos documentos, garante que nenhuma proposta seja acessada antes do momento correto, conduz a abertura pública, analisa a documentação e emite pareceres independentes. Também fazemos a gestão das garantias apresentadas pelos licitantes, o que protege o processo contra aventureiros e assegura que as regras sejam cumpridas. A B3 acompanha o processo desde o lançamento do edital até a assinatura do contrato. Depois disso, a gestão passa a ser do poder concedente. Além de conduzir tecnicamente os leilões, a B3 exerce um papel mais amplo no ecossistema de PPPs ao fomentar a disseminação de melhores práticas. A instituição atua como um espaço de aprendizado coletivo, promovendo debates sobre desafios recorrentes, dificuldades operacionais e lições acumuladas ao longo dos anos. A premissa é que a evolução desse ambiente não ocorre de forma unilateral: ela depende de diálogo, troca de experiências e amadurecimento conjunto entre setor público, investidores e demais agentes envolvidos nas parcerias público-privadas no Brasil.

Isso ajuda a afastar riscos como insegurança jurídica e desconfiança do mercado?

O mercado reconhece rapidamente quando as melhores práticas estão sendo adotadas — e também quando não estão. Projetos conduzidos em um ambiente de governança robusto, com acompanhamento da B3, tendem a ser "premiados" pelo mercado, seja por maior competição, seja por melhor precificação. Quando essas práticas não são observadas, o mercado reage com desconfiança: participa menos ou precifica pior. Há players relevantes que afirmam abertamente que só participam de projetos conduzidos com apoio da B3, porque sabem que ali existe previsibilidade e neutralidade.

Então a B3 funciona como uma espécie de selo de credibilidade?

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A B3 é vista como esse agente neutro que garante que o projeto será conduzido dentro das melhores práticas. Atuamos em prol do projeto, criando um ambiente em que todos os participantes — poder público, investidores e operadores — se sintam seguros quanto à lisura e à qualidade do processo.

E eventos como o P3C ajudam a fortalecer esse ecossistema?

O P3C é um espaço de diálogo onde participam representantes de todos os governos, setores e áreas técnicas. É ali que se discutem aprendizados, desafios e caminhos futuros. Esse debate é fundamental para o amadurecimento contínuo das PPPs no Brasil — e a B3 entende que fomentar esse ambiente também faz parte do seu papel institucional.

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