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Como a Europa pode recuperar terreno na corrida da IA

19 jul 2026 - 09h46
(atualizado às 10h10)

A Europa está atrás dos EUA e da China em inteligência artificial, e mais financiamento para pesquisas, capital de risco e inovação podem ajudar a recuperar o atraso.O pesquisador Philippe Aghion é um especialista em destruição criativa. Esse é o termo que os economistas usam quando inovações transformam ou desestruturam setores inteiros da economia e criam novos mercados.

Os EUA e a China estão investindo mais do que a União Europeia no desenvolvimento da IA
Os EUA e a China estão investindo mais do que a União Europeia no desenvolvimento da IA
Foto: DW / Deutsche Welle

Exemplos são a máquina a vapor, a produção em linha de montagem e a revolução da tecnologia da informação. Ou, agora, a inteligência artificial (IA).

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Por sua pesquisa pioneira sobre como a inovação tecnológica pode impulsionar o crescimento econômico de longo prazo, Aghion, que é francês, recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2025, juntamente com o canadense Peter Howitt e o israelense-americano Joel Mokyr.

"Mais do que nunca, a IA trará destruição criativa", disse Aghion à DW durante o Fórum Econômico de Bruxelas deste ano. "Haverá destruição de empregos. E haverá criação de empregos. Se você administrar a destruição criativa da maneira correta, ela se torna um motor de promoção social."

A importância de abraçar a mudança

Para ilustrar os benefícios da destruição criativa, Aghion destaca a diferença no crescimento econômico entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos.

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Durante décadas, ambas as economias evoluíram praticamente no mesmo ritmo. Mas, quando ocorreu a revolução da tecnologia da informação, com o computador pessoal, a internet e tudo o que veio junto com eles, os Estados Unidos adotaram plenamente essas mudanças. A Europa, nem tanto.

Como resultado, a diferença entre as duas economias aumentou. Hoje, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos EUA é quase o dobro do da UE. Com a IA, a Europa corre o risco de repetir esse erro. "Precisamos acordar", alerta Aghion.

Os Estados Unidos e a China estão muito à frente quando se trata do desenvolvimento de IA. Empresas como OpenAI, Anthropic, Google, Meta, Microsoft e muitas outras investem bilhões de dólares no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem (LLMs), como ChatGPT, Gemini, Claude ou DeepSeek, um modelo chinês, além da infraestrutura computacional necessária para operá-los.

Áreas em que a UE leva vantagem

A Europa produz pesquisas de excelente qualidade, mas historicamente enfrenta dificuldades para expandir startups e atrair o mesmo nível de capital de risco que os Estados Unidos.

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Alguns modelos europeus, como o francês Mistral, são exceções a essa regra.

Embora possa ser difícil ou até impossível para os europeus alcançar os líderes na área dos grandes modelos de linguagem, Aghion argumenta que a Europa deve aplicar a IA em áreas nas quais já possui vantagens tradicionais, como a saúde.

"Temos dados de saúde fantásticos na Europa, muito melhores do que nos Estados Unidos. E haverá aplicações extraordinárias de IA na área da saúde. Podemos desenvolver muita IA especializada", argumenta.

E, se for bem conduzida, a tradicional inclinação europeia para a regulamentação poderá se transformar numa vantagem competitiva, por exemplo, em proteção de dados e privacidade.

"Acredito que haverá demanda por uma IA mais ética, uma IA que evite alguns perigos", afirma. "As pessoas querem ser protegidas. Ter algum nível de regulamentação nos tornará ainda mais atraentes."

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Como a Europa pode alcançar os líderes

Alguns líderes empresariais concordam com essa visão. O empresário Thomas Saueressig, vice-presidente do Conselho de Administração da SAP, a maior empresa de software da Europa, quer ver a IA sendo utilizada além dos limites dos grandes modelos de linguagem, de forma a impulsionar as indústrias tradicionais europeias.

"Tomemos como exemplo nossas capacidades em manufatura: poderíamos usar IA física e levá-la ao próximo nível", disse Saueressig no podcast de negócios da DW The Dip. "Precisamos usar essa tecnologia para fazer nosso modelo atual dar um salto em direção ao futuro. Em tempos de incerteza, o maior risco é não correr riscos."

Mas, para isso, os europeus precisam fazer sua parte, insiste o vencedor do Nobel. "Primeiro, precisamos criar um ambiente de pesquisa melhor, com mais financiamento de longo prazo para a pesquisa", afirma. "Também precisamos de mais capital de risco e de mais fundos de pensão."

Mais capital de risco

As startups europeias, sejam elas ligadas à IA ou não, geralmente enfrentam dificuldades para obter financiamento. Os bancos costumam hesitar em financiar startups porque muitas empresas jovens fracassam e não possuem garantias suficientes.

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Mas esse não é o caso dos investidores especializados, também conhecidos como empresas de capital de risco ou investidores-anjo. Eles não se importam se muitas startups falharem porque lucram significativamente com aquelas que têm sucesso. "Precisamos de mais investidores desse tipo", explica Marlene Schörner, pesquisadora de mercados financeiros no Centro Jacques Delors, em Berlim.

Uma forma de atrair mais capital de risco é harmonizar as regras dentro da União Europeia, por exemplo das leis de falência, que variam muito entre os países-membros da UE. "As leis de falência são muito importantes para os investidores. Eles querem saber se poderão recuperar seu dinheiro caso uma empresa fracasse", disse Schörner ao podcast de economia da DW Wirtschaft im Gespräch.

Financiar a inovação em IA

Outra maneira de revitalizar o ecossistema de startups europeu é aproveitar o enorme volume de poupança privada do continente.

A Europa possui cerca de 12 trilhões de euros em poupança das famílias, como lembrou o primeiro-ministro de Luxemburgo, Luc Frieden, durante um discurso no Fórum Econômico de Bruxelas. "Mas a maior parte desse dinheiro é direcionada ao mercado imobiliário e a títulos públicos, em vez de investimentos em startups."

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Para mudar essa realidade, a Comissão Europeia lançou a União de Poupança e Investimento, que, segundo Schörner, é essencialmente uma reformulação da antiga União dos Mercados de Capitais. "O objetivo de integrar os mercados de capitais europeus existe há muito tempo. No entanto, esse esforço não tem sido muito bem-sucedido", explica.

No passado, os países relutavam em abrir mão do controle de seus próprios mercados financeiros. A expectativa é que as recentes mudanças geopolíticas, o debate sobre se os Estados Unidos continuam sendo um parceiro confiável e a necessidade de maior autonomia estratégica da Europa sejam suficientes para pressionar os 27 membros da UE a deixarem suas diferenças de lado e construírem um mercado financeiro comum.

Uma Darpa europeia para a IA

Aghion acredita que a pesquisa e o financiamento poderiam melhorar muito com a participação do setor militar. "Precisamos de algo semelhante à Darpa", afirmou, referindo-se à Defense Advanced Research Projects Agency, uma instituição dos Estados Unidos responsável pelo desenvolvimento de tecnologias para uso militar.

A Darpa foi criada em 1958 e desempenhou um papel importante no desenvolvimento de tecnologias como a internet e o GPS.

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Como Aghion duvida que todos os membros da UE apoiem a ideia de uma Darpa europeia, ele sugere que França e Alemanha assumam a liderança. "Poderíamos ter uma Darpa franco-alemã, e, se outros países quiserem, poderiam se unir a ela."

O vencedor do Nobel se descreve como um "otimista combativo" quando o assunto é IA. No entanto, ele também faz um alerta aos políticos europeus. Para lidar com o potencial destrutivo da inteligência artificial, a Europa precisa concentrar esforços na educação. Isso também inclui a requalificação profissional daqueles que perderem seus empregos.

Em países sem um mercado de trabalho flexível e sem um bom sistema educacional, "a IA criará muita infelicidade e frustração, e há um enorme risco de que essas sociedades se voltem para o populismo por um longo tempo", afirma Aghion.

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