Coaf aponta transações suspeitas entre Refit e Master, e CPI pode conectar escândalos

Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado investiga movimentações suspeitas que ultrapassam R$ 1 bilhão; procurados, Master e Refit não comentaram

12 mar 2026 - 21h02
(atualizado às 21h10)

BRASÍLIA - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado investiga indícios de lavagem de dinheiro entre o Banco Master e a Refit, nome da antiga refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro. As suspeitas são baseadas em movimentação financeira que supera R$ 1 bilhão, registrada em relatório de inteligência elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

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A Refit tinha uma conta no Master. As suspeitas, porém, vão além da movimentação bancária da companhia do grupo do empresário Ricardo Magro. O relatório de inteligência do órgão ligado ao Ministério da Fazenda aponta pagamentos atípicos feitos diretamente ao banco de Daniel Vorcaro entre 2023 e 2024.

Procurados, o Refit e o Master não comentaram.

Grupo Refit é o alvo da operação Poço de Lobato Crédito Divulgação/Receita Federal
Grupo Refit é o alvo da operação Poço de Lobato Crédito Divulgação/Receita Federal
Foto: Divulgação/Receita Federal / Estadão

A relação entre os dois conglomerados pode conectar duas das maiores investigações em andamento no País, com impactos empresariais e políticos. A CPI do Crime Organizado,que tramita no Senado, pretende esclarecer aspectos dessa relação comercial.

O Grupo Refit está na mira do Ministério Público de São Paulo e da Receita Federal por suspeitas de montar um esquema complexo de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. O Banco Master é alvo de investigação da Polícia Federal por fraude bilionária contra o sistema financeiro.

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O Grupo Refit é considerado o maior devedor de ICMS do Estado de São Paulo, o segundo maior do Rio de Janeiro e um dos maiores da União - acusado de sonegar R$ 26 bilhões. A empresa entrou em evidência a partir da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, e seus desdobramentos: as operações Cadeia de Carbono, em setembro, e Poço Lobato, em novembro.

As investigações apontaram indícios de que o combustível da Refit estaria abastecendo postos de gasolina controlados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo investigadores, a organização criminosa usa o mercado de combustíveis para lavar dinheiro do crime e ocultar os verdadeiros donos com a ajuda de bancos e fintechs da Faria Lima.

Autoridades também acusam empresa de fraude tributária, sonegação e ocultação de patrimônio. Ricardo Magro foi apontado como "investigado e comandante da organização criminosa".

Em manifestações anteriores, a Refit negou sonegar impostos e repudiou o que chamou de "tentativa de associar a empresa ao PCC ou a qualquer outra organização criminosa".

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Com o avanço das operações, a Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional subiram o tom contra a empresa, classificada pelo Fisco como "sonegador contumaz" por não recolher tributos como deveria, como mostrou o Estadão.

Em processo que corre na Justiça do Rio sobre a interdição das atividades da empresa, a Receita disse que o porcentual de sonegação da Refit ficou acima de 80% entre 2022, 2023 e 2024.

A Refit está em recuperação judicial há 12 anos. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) interditou totalmente a refinaria em janeiro, após uma vistoria constatar risco de incêndio na unidade. A refinaria estava parcialmente interditada pela agência desde outubro do ano passado.

As investigações acabaram pressionando o Congresso a destravar o projeto do devedor contumaz, com penas mais duras a sonegadores, que estava travado há anos no Congresso. A lei foi sancionada por Lula em janeiro.

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Em relação ao Master, a Polícia Federal investiga, com a Operação Compliance Zero, um suposto esquema de fraude contra o sistema financeiro baseado na emissão e negociação de ativos sem lastro real, ou seja, falsos. A suspeita é que o banco vendia títulos e carteiras de crédito que prometiam retornos elevados, mas que não tinham garantias efetivas de pagamento.

A investigação detectou indícios de que o Master vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB, o banco público do Distrito Federal, e entregou documentos falsos ao Banco Central para tentar justificar o negócio. O banqueiro Daniel Vorcaro foi preso no último dia 4.

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