Para conter a crise econômica interna, a China intensificou medidas para impedir a saída de capitais, tecnologia e especialistas. Novas regras bloqueiam viagens ao exterior de engenheiros de inteligência artificial e fundadores de startups, além de endurecer a fiscalização contra rotas informais de evasão de patrimônio, estimada em US$ 1 trilhão. Especialistas alertam que reter esses talentos e recursos à força pode reduzir a confiança no país e agravar ainda mais o isolamento econômico chinês.
Pequim está fechando as portas para impedir que conhecimento especializado, tecnologia de ponta e capital deixem o país.Há décadas, a China enfrenta acusações dos Estados Unidos e da União Europeia de roubar suas tecnologias.
De robótica e semicondutores a engenharia de precisão e peças automotivas, empresas chinesas recrutaram engenheiros de ponta, supostamente espionaram concorrentes ocidentais e foram associadas a ataques cibernéticos destinados a obter acesso a valiosos segredos industriais.
É irônico, portanto, que agora Pequim esteja tomando medidas para impedir que suas tecnologias de ponta e talentos deixem o país.
Muralha em torno dos melhores cérebros
Na semana passada, entraram em vigor novas regras de entrada e saída do país, concedendo às autoridades chinesas o poder de impedir que engenheiros, fundadores de empresas e outros especialistas deixem a China caso seus conhecimentos em baterias, terras raras ou inteligência artificial (IA) sejam considerados uma ameaça à "segurança industrial e tecnológica".
Recentemente, Pequim também endureceu as regras para investimentos no exterior, intensificou a repressão a cidadãos chineses que mantêm patrimônio fora do país e restringiu o envio de profissionais técnicos para o exterior.
O professor de Direito Henry Gao, da Singapore Management University (SMU), avalia que, consideradas em conjunto, essas restrições "oferecem um raro vislumbre do verdadeiro estado da economia chinesa".
"Essas medidas sugerem que o regime em Pequim está profundamente preocupado com a fraqueza econômica e com as substanciais saídas de capital", diz Gao.
A tensão na economia chinesa é cada vez mais visível. Embora a demanda por exportações continue forte, especialmente para produtos de alta tecnologia, o colapso do setor imobiliário enfraqueceu severamente o consumo interno.
Os empréstimos bancários caíram para o menor nível já registrado durante o verão, e as vendas de automóveis novos em agosto recuaram quase um quarto em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Pequim bloqueia compra pela Meta
A ansiedade agora se estende à saída de pessoas e de dinheiro do país. O exemplo mais recente e notório é a Manus, uma startup de IA criada por dois cidadãos chineses em Pequim. No ano passado, a empresa transferiu sua sede para Singapura, em parte para evitar restrições dos Estados Unidos a investimentos e expandir sua atuação para mercados globais.
Quando a Meta, controladora do Facebook, tentou adquirir a Manus em dezembro passado por 2 bilhões de dólares (R$ 10 bilhões), Pequim bloqueou a operação e proibiu os dois fundadores da empresa de deixar a China.
Este mês, as redes sociais chinesas foram inundadas por rumores de que Ren Zhengfei, fundador e CEO da Huawei, e sua filha, Meng Wanzhou, diretora financeira da empresa, teriam deixado o país.
Os rumores foram repercutidos por veículos de comunicação de Taiwan e da Índia, mas não foram confirmados nem pela gigante de tecnologia nem pelas autoridades chinesas.
Apertar o cerco à evasão de capital
A Bloomberg Intelligence estimou que cerca de 1 trilhão de dólares em capital chinês deixou o país no ano passado, o maior volume de hot money [capital especulativo] a sair da China desde 2006, quando os registros começaram a ser mantidos.
Pequim não alterou a cota anual de 50 mil dólares que as famílias podem transferir para fora do país. O que foi endurecido, segundo Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a região Ásia-Pacífico do banco francês de investimentos Natixis, foram as rotas informais usadas pelos mais ricos para contornar esse limite.
"O que estão fazendo agora é apertar o cerco sobre as pessoas e os intermediários pelos quais o dinheiro normalmente circula", explica Garcia-Herrero.
Todo um setor surgiu, tanto na China quanto no exterior, para ajudar pessoas a emigrar e transferir seu patrimônio para outros países. Agentes de imigração organizam vistos e mudanças, enquanto corretoras offshore e estruturas fiduciárias ajudam cidadãos chineses a colocar sua riqueza no exterior.
Empresas às vezes utilizam subsidiárias estrangeiras, listagens em bolsas internacionais ou transferências de funcionários para levar dinheiro e conhecimento técnico para fora do país.
Efeitos das novas regras
Gao diz que as novas restrições podem acabar sendo contraproducentes, já que, quanto mais difícil se torna transferir capital ou pessoas para o exterior, maior é o incentivo para que aqueles com recursos encontrem outras maneiras de sair.
"Com o tempo, isso pode corroer ainda mais a confiança, acelerar a fuga de capitais e aprofundar os problemas econômicos que essas medidas pretendem conter", avalia.
Garcia-Herrero, por sua vez, considera que o bloqueio à circulação de talentos terá impacto maior do que as restrições ao capital. "Ainda é possível transferir dinheiro lentamente, mediante aprovações", diz. "Mas não é possível substituir facilmente um engenheiro de processos que não pode embarcar num avião ou que não aceitará um emprego no exterior por causa de um bloqueio por tempo indeterminado."
Autorização de viagem para especialistas em IA
Isso já está afetando as empresas chinesas de inteligência artificial, que vêm reduzindo rapidamente a distância em relação às concorrentes americanas na corrida para desenvolver os sistemas de IA mais avançados.
Em maio, a Bloomberg informou que as autoridades chinesas passaram a exigir que pesquisadores, fundadores e executivos de destaque do setor de IA, em empresas como Alibaba e DeepSeek, obtenham autorização antes de viajar ao exterior.
No ano passado, alguns funcionários da DeepSeek teriam sido orientados a entregar seus passaportes, segundo o site especializado em tecnologia The Information. Pequim não confirmou nem negou a prática.
A Bloomberg informou, em janeiro do ano passado, que outros engenheiros de tecnologia enfrentam pressão semelhante, incluindo aqueles que ajudam empresas estrangeiras a reduzir sua dependência da China por meio da construção de fábricas no Vietnã e na Índia.
Novas orientações jurídicas
No caso de cidadãos estrangeiros, empresas chinesas e estrangeiras às vezes disfarçam visitas de trabalho à China para evitar fiscalização e demoras na obtenção de vistos. Para isso, alegam que a viagem é para turismo, reuniões de negócios ou visitas a fábricas, em vez de trabalho efetivo.
De olho na entrada em vigor das novas restrições, empresas de advocacia empresarial, como a DLA Piper, orientaram empresas a manter os pedidos de visto "corretos" e "completos", alertando que divergências entre a documentação apresentada e a atividade efetivamente realizada poderiam resultar em proibição de entrada de até cinco anos.
As novas regras estabelecem que, a princípio, um visitante deve ser informado caso esteja proibido de entrar ou sair do país. No entanto, as autoridades chinesas podem omitir essa notificação se ela "puder afetar a segurança nacional ou a investigação de casos criminais".
Numa recente atualização do seu aviso de viagem, o Departamento de Estado dos Estados Unidos foi além, advertindo cidadãos americanos a "exercer maior cautela na China continental devido ao uso de proibições de saída sem um processo legal justo e transparente, bem como ao risco de prisão ou detenção injusta".
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