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Brasil vive 'epidemia' de golpes telefônicos; bancos pressionam por aperto em mecanismos de controle

Das ligações indesejadas, 15% são tentativas de golpe, mostra levantamento da Kaspersky, de segurança cibernética; criminosos usam dados vazados e técnica que mascara o número de telefone

17 jul 2026 - 18h15

Você atende o telefone e, do outro lado da linha, uma voz robótica avisa: uma compra de valor expressivo acabou de ser aceita no cartão de crédito. Para desfazer a transação, basta ligar para o banco e solicitar o cancelamento da compra. O número apresentado pode até parecer o da instituição financeira legítima, mas leva para uma central de golpistas pronta para roubar dados e conseguir ainda mais dinheiro.

O estratagema é apenas uma das modalidades do problema que vem desafiando consumidores de todos os perfis e já se tornou uma dor de cabeça relevante para o setor bancário. Mais do que um mero incômodo, o País enfrenta uma verdadeira "epidemia" de golpes, nas palavras do diretor de prevenção a fraude do Itaú Unibanco, Felipe Tambelini. E o telefone tem atuado como uma das principais ferramentas para os criminosos.

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Em um período de seis meses, cerca de 70% dos brasileiros receberam ligações indesejadas, de acordo com levantamento recente da desenvolvedora de softwares de segurança cibernética Kaspersky. Aproximadamente 15% das chamadas eram tentativas de artimanhas golpistas, como telefonemas de call centers bancários falsos e promoções enganosas.

No geral, os criminosos utilizam a técnica chamada spoofing, que mascara o número de telefone para fazer com que ele pareça legítimo. Também exploram dados pessoais vazados para ludibriar as vítimas - numa prática que é conhecida como engenharia social.

Para coibir esses casos, a Febraban tem defendido uma atuação coordenada com as operadoras de telecomunicações. A principal demanda é o fortalecimento dos mecanismos de identificação, monitoramento e tratamento de linhas telefônicas utilizadas de forma irregular.

Falta de instrumento jurídico dificulta combate ao crime

Segundo a entidade, o Brasil ainda não dispõe de um instrumento jurídico que permita bloquear uma linha apenas com base no conteúdo de uma ligação ou em uma denúncia não verificada. Por isso, os bancos defendem a criação de mecanismos juridicamente seguros, baseados em evidências e critérios objetivos, que permitam agilizar a identificação e o tratamento de linhas comprovadamente usadas em fraudes, sem recorrer a bloqueios indiscriminados.

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Tambelini, do Itaú, explica que a chamada telefônica é utilizada para despertar sentimentos de urgência e desespero, levando o cliente a realizar transações financeiras que desafiam a lógica. Segundo sua análise, a solução para essa crise não depende apenas da tecnologia bancária, mas de um controle muito mais rigoroso no ecossistema de telecomunicações, combatendo desde a abertura ilícita de linhas até a proliferação de contas laranjas que recebem o dinheiro desviado.

O diretor de tecnologia da informação (CISO) do Santander Brasil, Leandro Granja, também defende o contínuo aprimoramento de mecanismos de prevenção e a cooperação entre bancos, empresas de telecomunicação, plataformas digitais e reguladores.

No entanto, o executivo considera fundamental o investimento em iniciativas para a educação sobre segurança digital. "Investir na conscientização da população continua sendo fundamental para reduzir a efetividade dessas abordagens fraudulentas", argumenta.

Que tipo de medida poderia inibir golpistas?

Para além do aspecto social, parte do problema remete a fatores de ordem técnica e tecnologia. A infraestrutura de telefonia repousa sobre protocolos da década de 1970, que não foram projetados com foco em segurança ou autenticação, explica o pesquisador líder de segurança da Kaspersky, Fabio Assolini. Com a ascensão das ligações via internet (VoIP), criminosos ganharam ferramentas para automatizar o spoofing em larga escala a custos irrisórios.

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Embora a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) esteja conduzindo a implementação dos protocolos Stir e Shaken - uma espécie de "assinatura digital" para chamadas, já adotada nos Estados Unidos e na Europa -, Assolini alerta que a solução definitiva ainda esbarra em um cronograma que se estende até 2028 e nos altos custos de modernização para operadoras menores e provedores de internet.

Contudo, a tecnologia de rede é apenas metade da batalha. Para o pesquisador da Kaspersky, o sucesso das fraudes reside também na fragilidade do processo de criação de contas, o "Know Your Customer" (KYC; "conheça o seu cliente", em tradução livre), das operadoras.

"Hoje, qualquer criminoso consegue comprar uma linha pré-paga usando dados vazados de terceiros", explica Assolini. "Mesmo o processo que utiliza biometria é facilmente burlado com o uso de inteligência artificial: basta uma foto da vítima para gerar um vídeo onde a cabeça se mexe e a pessoa sorri, enganando os sistemas de validação."

O especialista ressalta que, para mitigar esse risco, as operadoras precisariam investir em serviços de autenticação mais rigorosos, um custo que muitos provedores menores simplesmente não estão dispostos a assumir.

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O que está no radar da Anatel

O programa Origem Verificada, da Anatel, começou a ser implementado em 2023, para adoção dos protocolos de autenticação de ligações. Dados da agência mostram que, em junho de 2026, cerca de 6,6 bilhões de chamadas foram autenticadas, o que representa uma fatia entre 25% e 30% do total. As operadoras de telefonia têm um prazo que se estende até 2028 para se adaptarem totalmente.

Além da tecnologia nas redes, a agência diz estar desenvolvendo regras mais rígidas para a venda de novas linhas de celular, o chamado "onboarding". "Nesse contexto, está em desenvolvimento um procedimento que prevê requisitos mais rigorosos para a confirmação da identidade dos consumidores tanto no momento da contratação quanto em situações de atualização cadastral", indica a Anatel, em nota.

A Febraban, por sua vez, disse que o setor bancário deverá investir R$ 50 bilhões em tecnologia e segurança de informação neste ano, dos quais 10% são voltados para prevenção à fraude e para segurança. A entidade também integra a Aliança Nacional de Combate a Fraudes Bancárias Digitais, que reúne o Ministério da Justiça com entidades do setor em um esforço por ações preventivas.

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