BC corta Selic a 14,25% e sugere mais tempo para atingir meta de inflação

17 jun 2026 - 19h11
(atualizado às 20h31)

O Banco Central decidiu nesta quarta-feira cortar a taxa Selic em 0,25 ponto ‌percentual, a 14,25% ao ano, e deixou os próximos passos em aberto ao argumentar que avalia trajetórias de juros "alternativas" para atingir a meta de inflação em um horizonte um pouco mais distante.

O BC afirmou em comunicado que a restrição acumulada da política monetária permite agora diferentes dosagens de juros para levar a inflação à meta, mas ponderou que a trajetória necessária para assegurar essa convergência no quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante para o BC, faria a inflação projetada a partir desse período ficar abaixo do alvo de 3%.

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"Nessas condições, o Comitê ⁠avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, ‌são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos", disse o Comitê de Política Monetária (Copom).

No documento, a autarquia apontou que o cenário atual é caracterizado por forte aumento da incerteza e reafirmou "serenidade e cautela na condução da política monetária".

"O Comitê reafirma que a magnitude total ‌do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a ‌convergência da inflação à meta", apontou o Copom.

O economista do banco BV, Carlos Lopes, afirmou que a autarquia decidiu antecipar "uma extensão ⁠do horizonte relevante", o que justificou o corte de 0,25 ponto percentual mesmo em meio à piora do cenário inflacionário.

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"Essa decisão do Banco Central e essa sinalização futura nos leva a acreditar que o BC tem uma preferência neste momento por continuar no ciclo de corte de juros", disse.

Para Leonardo Costa, economista do ASA, o BC adota postura "claramente dovish" (menos dura no combate à inflação) ao mudar seu horizonte para abrir a porta para reduções da Selic.

"Abriu-se uma possibilidade (grande) de o Banco Central seguir em seu ciclo de calibragem de juros, cortando novamente na reunião ‌de agosto", avaliou.

Esse foi o terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros após o BC iniciar em março o chamado ‌ciclo de "calibragem" da Selic, que ainda está em ⁠nível historicamente alto, mas o mais ⁠baixo desde maio do ano passado, quando também estava em 14,25%.

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A decisão veio em linha com o esperado pelo mercado. Em pesquisa da Reuters, 41 dos ⁠45 economistas entrevistados entre 12 e 15 de junho projetaram que o BC cortaria ‌a Selic em 0,25 ponto neste mês, ‌enquanto quatro esperavam manutenção.

VISÃO PIOR PARA INFLAÇÃO

Enquanto as expectativas de mercado para a inflação seguem aumentando, o BC também piorou sua própria projeção para 2026 em relação a abril, de 4,6% para 5,2%, bem acima do teto da meta, considerando o cenário de referência, que segue projeções de mercado para os juros. Em relação ao quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, ⁠a expectativa ficou em 3,7%, contra 3,5% antes.

Para fazer as projeções do cenário de referência, o Copom considerou uma taxa de câmbio que parte de R$5,10, ante patamar de R$5,00 usado na última reunião.

A meta contínua de inflação é de 3% no acumulado em 12 meses, com margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

Apesar de afirmar que seu balanço de riscos para a inflação à frente tem chances elevadas tanto de alta quanto de baixa, a autoridade monetária passou ‌a prever quatro fatores de pressão para cima e três para baixo.

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Sem citar políticas recentes do governo como as de estímulo ao crédito, o BC elencou um novo risco de alta relacionado a "estímulos à demanda", "em particular ao componente de consumo", que causem crescimento da atividade ⁠acima do potencial e enfraqueçam a transmissão da política monetária.

Já no risco de alta relacionado a uma desancoragem prolongada das expectativas de mercado, a autarquia mencionou novamente o choque do petróleo e adicionou "efeitos climáticos", em meio a expectativas sobre impactos do fenômeno El Niño.

Sobre a economia no Brasil, o BC disse que indicadores mostram aceleração da atividade no primeiro trimestre, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência. A inflação corrente, por sua vez, acelerou e se distanciou adicionalmente da meta, disse o comunicado.

A decisão do Copom foi tomada de forma unânime pelo colegiado, em reunião realizada mais uma vez com desfalque, contando com sete dos nove membros. Duas cadeiras do colegiado estão vagas desde o início do ano, após o término de mandatos de diretores, sem que o governo tenha indicado nomes para os cargos.

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Mais cedo nesta quarta, o Federal Reserve manteve sua taxa básica de juros dos EUA estável, com parte dos formuladores de política monetária do país prevendo um aumento na taxa ainda este ano, em meio a preocupações crescentes com a inflação.

No documento, o BC afirmou que o cenário externo permanece incerto diante da indefinição sobre os termos do acordo para o fim do conflito no Oriente Médio e os efeitos já materializados dessa guerra.

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