Bancos regionais do Fed podem ser principal frente em batalha por independência

15 abr 2026 - 11h00

A presidente do Federal Reserve de San Francisco, Mary Daly, ‌não foi eleita por voto popular, não foi escolhida por uma autoridade eleita, não competiu com uma lista de candidatos revelada publicamente e não passou por nenhuma avaliação pública antes de a diretoria de seu banco lhe dar um cargo que ajuda a moldar a economia dos EUA.

Ainda assim, Daly diz que considera a si mesma e os outros 11 presidentes de bancos regionais do Fed como pilares da legitimidade democrática do banco central dos EUA.

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Essa posição agora enfrenta um teste histórico em um caso da Suprema Corte dos EUA sobre a possibilidade de o presidente Donald Trump demitir ⁠um diretor do Fed e também diante da transição confusa entre o presidente do Fed, Jerome Powell, e a escolha de Trump para sucedê-lo e de ‌reformas que ainda podem estar sendo planejadas pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, que tem criticado o Fed.

"Voltemos à lei original... Você cria esses Feds regionais e faz com que a seleção desses formuladores de política monetária seja diferente da seleção dos que estão em Washington", disse Daly recentemente ‌à Reuters, referindo-se ao esforço da Lei do Federal Reserve para equilibrar o poder centralizado ‌da diretoria, sediada em Washington e nomeada pelo presidente, com 12 líderes regionais que deveriam trazer uma visão local para a formulação de ⁠políticas.

Cinco dos 12 votam na política monetária em uma base rotativa, representando votos importantes que um chefe do Fed precisa influenciar na definição dos juros.

Coletivamente, eles costumam falar do tempo gasto conversando com executivos e trabalhadores locais como sendo fundamental para a missão do Fed e dizem que sua distância da nomeação ou confirmação por autoridades eleitas os libera para serem objetivos.

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Com os diretores do Fed confirmados pelo Senado aprovando as contratações do banco, "você tem os freios e contrapesos que eu acho que fazem parte de uma instituição democrática", disse Daly. "Outras pessoas podem discordar, mas isso tem resistido ao teste ‌do tempo."

DEBATE MAIS AMPLO SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO FED

No entanto, a possibilidade de o acordo resistir às pressões políticas e legais que se desenvolveram recentemente é ‌uma questão relacionada tanto à batalha em torno ⁠da tentativa de Trump de demitir a ⁠diretora do Fed Lisa Cook quanto à eventual decisão de Powell de cumprir um mandato no conselho que vai até 2028. Powell pode permanecer na diretoria mesmo ⁠que o indicado pelo presidente, Kevin Warsh, seja confirmado pelo Senado dos EUA para suceder Powell ‌como chefe do Fed após o término ‌de seu mandato em 15 de maio.

A confirmação de Warsh foi segurada por pelo menos um importante senador republicano, que disse que não confirmará Warsh até que uma investigação do governo Trump sobre Powell seja encerrada, considerando a investigação como parte de um esforço mais amplo para reduzir a independência do Fed.

Powell também chamou a atenção para essa investigação e disse que decidirá se manterá sua cadeira no conselho "com ⁠base no que eu acho que é melhor para a instituição e para as pessoas a quem servimos". É um raciocínio que pode fazer com que Powell permaneça em um Fed liderado por Warsh como um voto contra as mudanças que ele considere exageradas.

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Embora sejam contratados localmente por meio de um processo que, tradicionalmente, tem influência mínima de Washington, os presidentes regionais do Fed podem ser demitidos pela maioria da diretoria, cujos membros também têm autoridade sobre importantes decisões de pessoal, orçamento e regulamentação do Fed. Três dos atuais ‌diretores do Fed foram nomeados pelo ex-presidente Joe Biden e três por Trump. Powell, por sua vez, foi levado à diretoria do Fed pelo ex-presidente Barack Obama, promovido ao cargo mais alto por Trump e reconduzido por Biden.

Trump não demonstrou interesse público na composição dos bancos regionais do ⁠Fed, e o governo não propôs formalmente mudanças que possam aumentar a influência da Casa Branca sobre eles.

No entanto, o debate sobre onde eles se encaixam está enredado em uma discussão mais ampla sobre como conciliar a intenção da Lei do Federal Reserve de independência do banco central sobre a política monetária, um princípio amplamente aceito.

Em um evento recente, a professora Kathryn Judge, da Columbia Law School, disse achar que os desafios trazidos pelo governo Trump, mesmo que sem sucesso, significam um período de "perturbação" à frente que "provavelmente enfraquecerá drasticamente o terreno sobre o qual a independência do Fed se manteve, e essa independência permanecerá frágil".

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Não está claro o que está por vir.

Warsh fez um apelo genérico por grandes mudanças no Fed, mas ofereceu poucos detalhes. Bessent publicou um extenso ensaio criticando o que ele considera ser a influência excessiva do Fed na economia e sugeriu um requisito de residência para a contratação de seus presidentes de bancos regionais.

Stephen Miran, antes de se tornar diretor do Fed, foi coautor de um artigo de pesquisa para o Manhattan Institute que argumentava que os presidentes dos EUA deveriam ter liberdade para demitir membros da diretoria do Fed e líderes dos bancos regionais do Fed porque o sistema atual estava "em algum grau de tensão" com a Constituição dos EUA.

Miran, que foi um dos principais conselheiros econômicos de Trump antes de ser promovido ao conselho do Fed, não quis comentar se ainda tem essa opinião.

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