A decisão do governo brasileiro de iniciar o processo de aplicação da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos amplia o risco de tarifas ainda mais altas sobre produtos do Brasil, na avaliação do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. "Aplicar a reciprocidade a um país com falta de racionalidade econômica na guerra tarifária pode fazer com que as atuais tarifas de 25% sobre produtos brasileiros virem 50%", afirmou. Para ele, o risco merece ainda mais atenção, uma vez que os EUA "não estão aplicando boas práticas de comércio".
Vale considera que é possível uma reação "bastante negativa" por parte dos americanos, na esteira de um cenário político desafiador. "Não é um processo simples e as saídas não serão positivas no final. Vemos um comércio entre Brasil e EUA maculado durante um bom tempo", diz.
O economista ainda avalia que o contexto é difícil para novas negociações entre os países. "Falta boa vontade do outro lado", resume. A percepção, segundo ele, é que tentativas diplomáticas não devem ter avanços expressivos. Já o setor privado segue reunindo esforços para tentar reverter os efeitos das tarifas. "Na conta, temos o processo eleitoral, o que deve fazer com que toda essa tensão continue."
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta quinta-feira, 13, o processo para aplicar a Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos, em razão da aplicação da tarifa de 25% contra o Brasil por supostas práticas comerciais desleais.
"Em cumprimento ao artigo 16 do referido decreto, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) está notificando o governo dos Estados Unidos sobre o início do processo e solicitando a realização de consultas diplomáticas", informou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), em nota.
Ainda de acordo com a nota, a consulta à diplomacia dos Estados Unidos antes da aplicação da reciprocidade tributária mostra o empenho do Brasil em privilegiar o diálogo com a Casa Branca.
Reflexos negativos no mercado financeiro
A avaliação de Juliana Inhasz, economista e professora do Insper, é que a decisão anunciada pelo governo brasileiro tende a ter reflexos diretos no mercado financeiro nos próximos dias. Esse impacto, segundo ela, é esperado porque a decisão reabre o risco de escalada comercial e contamina a leitura de risco do país, em um momento em que o mercado local já opera pressionado.
"Existe a possibilidade de ter um efeito nos próximos dias, no desenrolar dessa história", afirma. Para ela, o ponto que o investidor tende a colocar na conta é a possibilidade de a disputa sair do estritamente econômico e virar um evento político, ampliando incerteza e prêmio de risco. "Ainda que não estejamos retaliando diretamente, estamos sinalizando uma possibilidade de retaliação. Isso pode levar a uma turbulência um tanto maior", diz.
A economista contextualiza que esse anúncio chega num momento em que o mercado já vinha mais sensível a risco, com a bolsa em queda e sinais de menor apetite por ativos locais. Ela também menciona movimentos de fluxo e reprecificação de risco por diferentes fatores domésticos, que já vem provocando uma saída líquida de recursos em agosto, uma deterioração de condições financeiras e maior incerteza.
"Bancos estão classificando os ativos brasileiros como um pouco mais arriscados, por conta de crescimento potencial mais fraco, por conta da deterioração do mercado doméstico, especialmente do crédito e a persistência de um juro elevado por mais tempo, além, claro, do próprio ambiente eleitoral", destaca.
Na leitura dela, se o investidor passar a interpretar a reciprocidade como fator de piora na relação bilateral e risco adicional, o efeito pode se materializar em preços de ativos por meio de câmbio, inflação implícita e juros, com impacto também sobre crédito. "O grande problema pode ser que o mercado comece a entender esse cenário como diminuição do espaço para cortar juros, afetando, inclusive, a possibilidade de crédito para as empresas."
Ao mesmo tempo, a economista separa os efeitos imediatos - mais ligados a risco e expectativas - dos impactos efetivos sobre setores, que só apareceriam se a reciprocidade virar uma medida concreta à frente. "Todo o efeito que provavelmente aparece agora é muito mais um efeito de internalização, expectativas e risco do que um efeito efetivo sobre a economia da medida em si", diz.
Ela ressalta que o rito tem prazos e que uma eventual aplicação ficaria mais adiante. "Quando você vai ver, temos aí, pelo menos, 120 dias até que alguma coisa de fato seja feita."