Um papel dramático pode receber pinceladas de bom humor. Precisam ser sutis e complementares.
Jamais devem enfraquecer a densidade da aflição e o flerte com o colapso emocional inerente a um personagem em profundo sofrimento psíquico.
Eis o problema na interpretação de Tatá Werneck em ‘Quem Ama Cuida’.
Nas primeiras semanas, ela estava impecável na pele de Brigitte, uma jovem atormentada pela erotomania, mas com comportamento também associado à limerência.
Em termos populares, um estado de paixão obsessiva intensa, marcado pela idealização da pessoa desejada, forte necessidade de reciprocidade afetiva e pensamentos intrusivos.
Com imagem indissociável da comédia, Tatá entregava uma atuação consistente e convincente.
Não era possível enxergar a humorista naquela figura feminina emocionalmente fragilizada e quase assustadora.
Mas, em algum momento, a atriz começou a inserir improvisações de deboche. A ponto de suscitar risos fora do roteiro nos colegas em cena.
Os ‘cacos’ funcionam para corrigir o escasso alívio cômico na novela, porém, afetam a carga dramática de Brigitte.
Às vezes, ela se assemelha mais a uma garota mimada em vez de uma mulher insegura, internamente desorganizada e em agonia.
O resultado é uma oscilação de registro: os improvisos suavizam o tormento psicológico e quebram a imersão do público.
E ainda criam a expectativa de que ela fará o público rir toda vez que aparecer.
Pior: Brigitte passa a lembrar tipos cômicos vividos pela atriz em outras novelas, como Valdirene em ‘Amor à Vida’ e Fedora de ‘Totalmente Demais’.
A artista está numa corda bamba, entretanto, já provou sua capacidade de se equilibrar e chegar triunfal ao outro lado.
Basta não cair na armadilha de quase todo humorista: acreditar que a graça precisa estar presente o tempo todo e em qualquer lugar.
Aquela Brigitte do início da trama entregava a dose certa de vulnerabilidade, estranhamento e desconforto.
Uma personagem inquietante, que despertava curiosidade e compaixão. Seria um prazer tê-la de volta.