A rainha Elizabeth II popularizou um termo em latim para definir um dos períodos mais escandalosos na família real britânica: annus horribilis (ano terrível).
O SBT atravessa um período igualmente alarmante.
Nos últimos dias, a emissora foi atropelada por uma sucessão de manchetes negativas. Algumas podem gerar desdobramentos danosos à sua imagem.
O debate presidencial previsto para acontecer em seus estúdios na segunda-feira, dia 14, foi cancelado devido à não confirmação da presença de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
O canal havia mobilizado dezenas de profissionais e realizado investimentos na produção do evento.
No departamento de jornalismo, Rodrigo Bocardi foi afastado preventivamente do comando do ‘SBT Cidades’ após o apresentador ser acusado de cobrar dinheiro de prefeituras para fazer coberturas elogiosas sobre a administração.
O âncora classificou a punição recebida da emissora como “precipitada” e “triste”. Afirmou que a denúncia é falsa.
Disse que sua relação comercial com alguns governos municipais acontece por meio de contratos de publicidade.
Ele colocou em dúvida sua permanência no canal apenas um mês após a estreia.
Bocardi e o SBT já tinham se desentendido dias antes, com repercussão na imprensa, quando a direção proibiu que a marca BocaTV aparecesse ou fosse citada no ar.
Com isso, rompeu o acordo de parceria com a plataforma de notícias criada pelo apresentador depois de sua demissão da Globo em 2025.
Tão constrangedor quanto a suspeita lançada sobre o jornalista é a menção a Fábio Faria em matéria da revista ‘Piauí’ sobre a suposta participação dele na organização de uma festa com “120 mulheres para 20 homens” a mando de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
O ex-deputado federal é marido da apresentadora Patrícia Abravanel e tem papel institucional no SBT, aproximando autoridades da cúpula do canal.
Em dezembro do ano passado, na festa de estreia do SBT News, Fábio foi o responsável por articular a presença de autoridades dos três Poderes, incluindo o presidente Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
A reportagem da ‘Piauí’ coloca o discreto clã de Silvio Santos em situação vexatória e indiretamente ligado à cobertura do maior escândalo de fraude financeira da história do país.
O tsunami de atribulações que atinge a TV da Anhanguera inclui ainda uma segunda denúncia da deputada Érika Hilton (PSOL) contra Ratinho no Ministério Público, por alegada transfobia.
Em entrevista no podcast ‘Papagaio Falante’, o apresentador reiterou sua opinião de que “ela é trans, não mulher”.
Ele já havia feito a mesma afirmação em seu programa ao criticar a presença da parlamentar na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
A primeira declaração problemática gerou um direito de resposta para a deputada e questionamentos públicos ao SBT por permitir reiteradas falas consideradas transfóbicas.
Tantas polêmicas seguidas ofuscam a divulgação de informações importantes que fariam bem à emissora.
Esta semana, o SBT chegou à vice-liderança de audiência com a transmissão de jogos da Champions League e da Copa Sul-Americana.
O ‘Domingo Legal’ de 8 de setembro ficou quatro minutos em 1º lugar no Ibope e 20 minutos empatado com a Globo. Um resultado merecedor de comemoração.
Os problemas de uma rede de TV não deveriam chamar mais atenção do que sua própria programação. Corre-se o risco de espantar público e anunciantes.
O SBT precisa urgentemente recuperar o controle de sua agenda positiva enquanto administra o caos nos bastidores. É a reputação da emissora que está em jogo.