Brancas, ricas, conservadoras, racistas e cruéis revoltam o público das novelas da Globo

Autores usam vilãs caricatas para criticar a onda reacionária que varre o Brasil em ano eleitoral

10 out 2026 - 10h01
(atualizado às 10h01)

O brasileiro cansado da guerra política que busca algum alívio na teledramaturgia encontra personagens capazes de dobrar seu estresse.

As principais vilãs das três novelas inéditas da Globo são estereótipos do que seria a mulher de pensamento radicalizado à direita.

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Às 18h, ‘A Nobreza do Amor’ traz Virgínia (Theresa Fonseca), filha de um banqueiro no Nordeste na década de 1920.

Esnobe, egocêntrica e racista, ela sente prazer em destratar a princesa africana Alika (Duda Santos).

“Não deveria nunca ter saído da senzala. Nasceu para ser escrava”, disse em uma cena, saudosa da época de subjugação dos pretos.

“Papai, por exemplo, a família dele comprava muito bem por uma escravinha feito tu.”

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O maior incômodo de Virgínia com Alika se dá por saber que o noivo, o playboy mau-caráter Mirinho (Nicolas Prattes), a trocaria sem pensar duas vezes pela forasteira de pele escura.

Na faixa das 19h, ‘Por Você’ apresenta Vanessa (Alinne Moraes), herdeira de um hospital. 

Apesar de ser médica, tem zero empatia com os doentes e é contra um serviço de atendimento gratuito a pessoas carentes.

Dedica a maior parte de seu tempo a infernizar a vida de outra doutora, Bela (Sheron Menezzes), negra e filha de empregada doméstica, que conquistou ascensão financeira pela educação.

Vanessa classifica denúncias de racismo como “busca por atenção”, deixa implícito que pretos não “combinam” com lugares requintados e faz questão de cultivar o apartheid entre ricos e pobres.

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Assim como em ‘A Nobreza do Amor’, existe em ‘Por Você’ a rivalidade feminina por um homem. 

A vilã, que ‘roubou’ Gabriel (Thiago Lacerda) de Bela na juventude, vê o marido abandoná-la para tentar reconquistar a antiga namorada. Essa rejeição acirra ainda mais o preconceito contra a rival.

No folhetim das 21h, ‘Quem Ama Cuida’, a empresária parasitária Pilar (Isabel Teixeira) é usada para criticar o classismo, o racismo e a falta de ética associados à elite brasileira.

Ela é capaz de forjar provas para condenar na Justiça a inocente Adriana (Letícia Colin), se acha no direito de pegar peças da joalheria da família sem pagar, trata com total desrespeito os funcionários da casa e discrimina a cunhada e o sobrinho negros.

A crítica social está também no interesse sexual de Pilar pelo motorista rústico Yuri (José Loreto), reproduzindo a velha dinâmica do patrão que usa seu poder econômico para explorar o subalterno em situação de vulnerabilidade.

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As redes sociais, sempre atentas às novelas, veem Virgínia, Vanessa e Pilar como representantes da extrema direita no espectro político.

A Globo pode ter donos ideologicamente conservadores, mas sua ficção — escrita por muitos autores esquerdistas e LGBTs — defende pautas explicitamente progressistas. 

Pelo visto, enquanto estiverem rendendo audiência e lucro, nada será mexido.

Virgínia (Theresa Fonseca), Vanessa (Alinne Moraes) e Pilar (Isabel Teixeira): a novela reproduz a opressão e o preconceito da elite com os pobres e pretos
Virgínia (Theresa Fonseca), Vanessa (Alinne Moraes) e Pilar (Isabel Teixeira): a novela reproduz a opressão e o preconceito da elite com os pobres e pretos
Foto: Estevam Avellar/TV Globo e Beatriz Damy/TV Globo
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