Como a coluna informou no sábado (26), as casas de apostas investiram R$ 542,4 milhões na TV aberta entre janeiro e agosto. Média de R$ 67,8 milhões por mês.
A publicidade de bets está proibida em consequência da medida provisória do governo federal.
Da noite para o dia, as emissoras perderam as verbas do mercado que mais anunciava. Era um dinheiro previsto para fechar as contas no fim do ano.
Agora, com contratos rescindidos, restará encontrar alguma compensação: buscar outros clientes, realizar cortes de despesas ou suspender investimentos.
Não é a primeira vez que a televisão fica sem uma fonte abundante de dinheiro.
Liga, liga, liga e paga, paga, paga
Na década de 1990, emissoras como Globo, SBT, Bandeirantes, Record, CNT e Manchete promoviam telessorteios pelo telefone 0900. Parte da arrecadação iria para entidades sociais.
O espectador pagava pela ligação e concorria a prêmios. Somente em 1997, o esquema arrecadou R$ 276 milhões.
No ano seguinte, uma liminar suspendeu a prática após ações civis públicas movidas pelo Ministério Público contra o que chamou de exploração comercial disfarçada de filantropia.
Canções & milhões
Outra receita perdida pela televisão foi a queda na venda de LPs e CDs devido à mudança no consumo de música no país e à pirataria vendida em certas lojas, feiras e barracas de camelô.
O recorde aconteceu em 1997, com 3 milhões de cópias vendidas dos dois álbuns de ‘O Rei do Gado’.
Os primeiros quatro CDs de ‘Chiquititas’, do SBT, alcançaram o mesmo patamar.
Novelas como ‘Tieta’ e ‘Vale Tudo’ venderam cerca de 1,5 milhão cada.
Mídias físicas com trilhas de produções da Globo deixaram de ser comercializadas em 2021.
A maioria dos compradores de vinis, CDs e fitas K7 se transferiu para plataformas de streaming como Spotify, Deezer e Apple Music.
“Manhê, compra pra mim!”
A publicidade de produtos direcionados às crianças era um filão lucrativo na TV. Havia propaganda de brinquedos, alimentos, eletrônicos, calçados, artigos com a marca de apresentadores famosos, entre uma infinidade de outros itens com forte apelo popular.
Em 2014, uma resolução tornou abusivo o direcionamento da publicidade à criança com intenção de persuadi-la ao consumo. A mensagem da propaganda deveria ser dirigida aos adultos.
Na prática, muitas empresas deixaram de anunciar. Com isso, ruiu a estrutura comercial que manteve os programas infantis desde a inauguração da televisão no Brasil, em 1950.
Hoje, entre as grandes redes, só o SBT mantém atrações para crianças.
Adeus, Homem Marlboro
Quem não se lembra do glamour dos comerciais de cigarros, sempre com belos homens personificando o sucesso e lindas mulheres prontas para serem seduzidas?
Essa estética onipresente nos intervalos da programação foi restringida em 1996, quando o incentivo ao fumo ficou restrito à faixa das 21h às 6h e acompanhado de advertência sobre o risco à saúde.
Quatro anos depois, uma lei determinou que a propaganda de cigarros só poderia ocorrer dentro dos pontos de venda. Com isso, a publicidade em televisão desapareceu.
Dinheiro para sobreviver
Ao serem impedidas de aceitar determinados anúncios, algumas emissoras passaram a locar horários para igrejas, televendas e produções de terceiros.
No momento, ocorre principalmente na Band e RedeTV!, onde até parte do horário nobre foi negociada.
A concorrência da internet, que atrai cada vez mais verbas antes destinadas à TV, agrava a situação.
A esperança das emissoras é a TV 3.0, tecnologia que permitirá integrar o comércio eletrônico à televisão, transformando a tela em um catálogo de produtos e gerando um faturamento extra.