“Vai pro bingo, véio!” Até 2007, quando as últimas casas de jogos foram fechadas, era comum ouvir esse desaforo.
Os brasileiros da terceira idade sempre foram vistos e tratados com certo desdém pela parcela mais jovem da população.
Os 60+ são quase 35 milhões no país, segundo o IBGE. Em 2030, serão mais numerosos que as crianças até 14 anos.
Apesar dessa relevância demográfica, inclusive para o crescimento da economia do país, recebem pouca atenção da televisão brasileira.
A ironia é que ela própria já é uma coroa: completou 76 anos em 18 de setembro.
Basta um olhar rápido na programação das emissoras para constatar a baixa presença de velhos em postos de destaque no jornalismo, nos papéis de protagonistas nas novelas e nos programas de entretenimento.
Paradoxalmente, os 60+ formam a faixa mais numerosa entre os telespectadores da TV aberta, de acordo com a Kantar/Ibope.
Em 2024, representavam 34% da audiência, contra 23% de quem tinha entre 35 e 49 anos, e 18% do grupo de 50 a 59.
São os idosos que garantem a sobrevivência da velha TV, enquanto cresce o interesse geral por plataformas de streaming e outros meios de comunicação digitais.
Os grandes canais erram ao ignorar a realidade e subestimar o potencial desse perfil de público.
A grade de programas e o marketing estão voltados para tentar atrair os ‘novinhos’, especialmente aqueles que só consomem o conteúdo da internet. Por enquanto, os resultados são decepcionantes.
Sim, as emissoras precisam urgentemente renovar sua plateia e baixar a média de idade para atender aos interesses dos anunciantes, mas não deveriam menosprezar as cabeças brancas que se mantêm fiéis diante da tela.
Até porque são fundamentais para as empresas que anunciam nos intervalos: respondem por aproximadamente 20% do consumo privado do país, movimentando até R$ 2 trilhões por ano. Essa fatia do chamado ‘mercado prateado’ chegará a R$ 3,8 trilhões em 2044.
Caso a televisão continue a tratar os telespectadores veteranos como ‘coisa do passado’, pode, eventualmente, perder o que já tem sem antes ter conquistado o que deseja.