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The Boys: 'É difícil fazer sátira quando o mundo é mais absurdo que a sua sátira', diz criador

"Honestamente, estamos apenas fazendo o nosso melhor para acompanhar", lamentou Eric Kripke, que comandou a adaptação do Prime Video

14 mai 2026 - 14h15

Diversas reações hilárias surgiram pela internet quando Os Simpsons previram que Donald Trump seria presidente dos EUA; Neymar se lesionaria na Copa do Mundo do Brasil e a Seleção Alemã seria a vencedora do torneio; a Fox ser comprada pela Disney; ou até mesmo a nota de R$ 200. Isso sem contar as outras previsões bizarras da série, já com 37 temporadas exibidas, que ainda podem se tornar realidade.

Por sua vez, The Boys, série do Prime Video que exibe sua quinta e última temporada, não causou a mesma comoção da família amarela quando "previu" espetacularização de mortes de políticos, lideranças dos Estados Unidos usando sua influência para controlar as pessoas e se perpetuar no poder, a expansão do fascismo ao redor do mundo, megacorporações e países abafando casos de abusos e mortes, movimentos neonazistas ganhando força, ou uso das redes sociais para distorcer a realidade. Afinal, estamos vendo a sociedade se deteriorando com os nossos próprios olhos — e The Boys, que começou como uma mera sátira sobre os EUA, virou praticamente nosso espelho.

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No começo, o subtexto político do seriado era mais sutil, mas, com o passar das temporadas, as críticas e referências, especialmente com o paralelo entre Capitão Pátria (Antony Starr) e Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ficaram cada vez mais evidentes. Por exemplo, o vilão fez diversas declarações públicas revelando atos de violência e seu caráter racista e misógino — e mesmo assim é apoiado e defendido por seus fãs e seguidores. Coincidência?

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Eric Kripke, criador de The Boys, e parte do elenco da produção — Erin Moriarty (Luz-Estrela/Annie January), Laz Alonso (Leitinho), Karen Fukuhara (Kimiko Miyashiro), Colby Minifie (Ashley Barrett) e Tomer Capone (Francês) —, quando vieram ao Brasil para a CCXP 2025, reconheceram o forte teor político dos episódios, mas negaram que tomem algum lado ou reflitam alguma pessoa real.

"Essa série é muito boa em fazer um monte de perguntas e permitir que o público tome sua própria decisão. Mas esses são personagens inteiramente ficcionais que questionam muito sobre as dinâmicas de poder e como é ter uma pessoa narcisista no comando", explicou Minifie. "Todas essas são questões muito prevalentes no nosso tempo."

Moriarty, que interpreta uma das personagens de maior destaque da série, falou do "elemento estranho de 'bola de cristal'" não proposital com o que Kripke e os roteiristas escrevem os roteiros: "Temos esse elemento bizarro de Zeitgeist na nossa série que é intencional quanto à dinâmica de poder, com o conceito de 'se super-heróis existissem, eles seriam realmente bons? Provavelmente não', porque o poder tipicamente corrompe. Mas há uma natureza nisso que acontece em The Boys, simultânea à realidade, que tem sido essa coincidência bizarra. Então, parte disso é deliberado, parte não é. O que é uma loucura".

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Além disso, Capone, que vive o intenso Francês, reforçou o lado "imparcial" de The Boys, mas destacou que os atores e atrizes recebem o roteiro para cada um analisar o modo como querem falar sobre a jornada emocional que os respectivos personagens atravessam. "Para mim, encarar isso como ator neste mundo barulhento e ruidoso em que vivemos é como ser parte de um bom espelho para quem quer que precise dele, ou também para quem sente que o mundo está ficando maluco e quer algum conforto no que esses caras estão trazendo", disse o artista israelense.

Encerrando o assunto, o chefão Eric Kripke, que também criou Supernatural e comandou a série nas cinco primeiras temporadas, revelou que a equipe de produção escreve sobre o que os assusta, apenas refletindo o mundo de volta para si. O que não são ótimas notícias, como o próprio lamenta.

"O seriado é muito sobre a intersecção entre celebridade e autoritarismo, ditadores famosos e ditadores-celebridades, que é um fenômeno razoavelmente novo no mundo todo, não apenas nos EUA. Conforme os anos se passaram, a coisa ficou tão mais louca, surreal e ridícula que é difícil fazer sátira quando o mundo é mais absurdo que a sua sátira. Honestamente, estamos apenas fazendo o nosso melhor para acompanhar."

https://www.youtube.com/watch?v=XNQbH1SDPRk

O começo do fim e Inteligência Artificial

O final da quarta temporada de The Boys foi bastante dramático para os protagonistas: Billy Bruto (Karl Urban) se corrompeu completamente durante sua vingança contra Capitão Pátria, Hughie (Jack Quaid), Leitinho e Francês foram presos e Kimiko e Luz-Estrela fugiram. O grupo foi parar em seu pior momento na revolução contra a Vought, megacorporação que controla os Sete e criou Capitão Pátria e os supers.

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Ainda existia certo drama no elenco, que chegou ao set de filmagens da quinta temporada sabendo que esse seria o final da série. Um sentimento agridoce, segundo Colby Minifie e Erin Moriarty. Assim, os artistas puderam concluir a narrativa ao se despedir dos personagens de forma adequada, sem a frieza de um cancelamento.

"É muito saudável ter um fim para uma produção como essa. Sabe, algumas podem continuar e continuar e continuar, então acabam se perdendo", comparou Minifie. "Ter a coragem que Kripke teve de encerrar a série e construir um começo, meio e fim realmente bons é algo muito especial."

Karen Fukuhara relembrou que, logo na leitura do primeiro episódio, intitulado "Quarenta Centímetros de Pura Dinamite", deu para perceber que as apostas estavam incrivelmente altas e o ritmo era muito acelerado: "Isso me fez lembrar que teríamos que ir até o limite desde o começo — e não paramos até o fim". De fato, a estreia do quinto ano começou com a morte de um personagem relevante logo na estreia.

Kripke ressaltou que, em uma temporada final, ninguém está seguro e qualquer coisa pode acontecer. Enquanto o destino dos personagens não está 100% definido, existem grandes oscilações emocionais. "Foi realmente muito divertido", disse o roteirista e diretor sobre estar pronto para o fim. "A capacidade da série de nos dar um espaço para falar sobre coisas reais, como nesta temporada, em que falamos muito sobre IA, e a IA é tão irritante — é como interesse anal. Odeio IA! Poder falar sobre o mundo como o vemos é um verdadeiro presente".

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"Eu iria tão longe a ponto de dizer que a IA pode ser mais poderosa que o Capitão Pátria", complementou Alonso. "Se você pensar nisso em uma escala global."

E os personagens nisso tudo?

Um dos principais temas de The Boys é o ódio, sentimento que permeia Billy Bruto, que lidera o grupo para deixar os supers na linha e, no meio do caminho, matar o Capitão Pátria, que abusou de Becca (Shantel VanSanten), esposa do personagem e foi responsável indiretamente pela morte dela. Bruto se perde na vingança ao longo das temporadas e, ultimamente, abusa do composto V, usado pela Vought para fabricar os seres superpoderosos, e se contamina com um tumor que, lentamente, irá matá-lo — inicialmente, ele ganha poderes iguais aos do  Superman, mas depois fica com espécies de tentáculos.

Esse sentimento provoca não apenas sua autodestruição, mas também a dos amigos ao redor, como Leitinho (apelido de Marvin T. Milk), que eventualmente se cansa da postura e atitude de Bruto, cujo sarcasmo está fortemente atrelado ao seu sotaque inglês. "Ódio mais ódio só resulta em mais ódio. O que nos leva para a quinta temporada é o Leitinho percebendo que você pode ter a melhor das intenções e, ainda assim, isso pode não importar", ponderou Laz Alonso.

Por outro lado, Francês passou a quarta temporada inteira buscando redenção por seu passado sombrio, no qual era contratado para assassinar pessoas, fossem elas homens, crianças ou mulheres. Será que você consegue sequer fazer isso, considerando a escala das coisas horríveis que ele fez no passado?

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"Novamente, o que prepara a quinta temporada é o final dramático da quarta, sendo separados [enquanto grupo]", respondeu Tomer Capone. "Por pouco, o Francês quase chegou lá. Sabe, é quase como se estivesse junto com Kimiko, ele está feliz e limpo. Não usa nada e está se tornando um homem. E isso é tirado dele. Então, o modo de sobrevivência está de volta."

Um dos personagens que mais cresceu e se desenvolveu em The Boys foi Luz-Estrela, que começou como uma heroína inocente que disputou concursos de beleza na infância, e virou um símbolo de resistência contra Capitão Pátria.

Para sua intérprete, a personagem virou esse ícone não pela expectativa alheia, mas por sua personalidade imutável. Segundo Moriarty, Annie olha para o mundo sob a perspectiva de "como posso torná-lo um lugar melhor?". É o que ela faz assim que entra para os Sete. Quando entende toda problemática do supergrupo, Luz-Estrela começa a questionar seu lugar ali.

"Percebe que não pode, então deixa os Sete e se junta aos The Boys, mas é tudo uma questão de estar presente em cada momento com a pergunta: 'O que posso fazer agora para ainda alcançar o objetivo original que eu tinha?'. Só que isso é feito de uma forma muito diferente", comentou a atriz. "Nada do que ela faz é baseado em expectativas, o que acredito ser um testamento de sua força, porque o que o Capitão Pátria fez com ela publicamente é horrível — teve o seu aborto exposto publicamente".

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"Se fizesse as coisas para atender às expectativas do público — e até mesmo às expectativas privadas —, ela não estaria onde está. Ela faz as coisas para fazer o bem no final."

Como resumiu Fukuhara, The Boys é uma história de azarões — e o desfecho permanece incerto até o episódio final, previsto para 20 de maio no Prime Video: "É muito parecido com a realidade. Não saber o resultado é o que torna tudo empolgante".

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Foto: Rolling Stone Brasil
Rolling Stone Brasil
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