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Tatiana Leite volta a Cannes com 'Elefantes na Névoa' e reforça trajetória autoral

A produtora brasileira Tatiana Leite volta a marcar presença no Festival de Cannes em 2026 com o longa‑metragem "Elefantes na Névoa", selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A escolha do filme confirma a sintonia entre a Bubbles Project, produtora fundada por ela, e uma das seções mais voltadas à descoberta de novas vozes do cinema contemporâneo.

11 mai 2026 - 10h24

No ano passado, a produtora esteve na mesma mostra com "O Riso e a Faca", coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, dirigida pelo cineasta português Pedro Pinho, que saiu de Cannes premiada com o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára. Agora, enquanto o novo filme se prepara para a estreia mundial na Croisette, "O Riso e a Faca" inicia sua trajetória comercial no Brasil, ampliando o diálogo entre os percursos internacionais e o encontro com o público brasileiro.

Ao comentar a recorrência da Bubbles Project na Un Certain Regard, Tatiana Leite observa que a afinidade entre seus projetos e a mostra não é fortuita. Para ela, a seção ocupa hoje um espaço singular dentro do festival: "É provavelmente a mostra de Cannes que realmente busca um cinema um pouco além do evidente", afirma. Em contraste com a competição oficial, frequentemente ocupada por nomes já consagrados, a Un Certain Regard se tornou um território de acolhimento para propostas autorais mais ousadas, mas já amadurecidas do ponto de vista estético.

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É nesse contexto que se insere "Elefantes na Névoa", dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, em seu primeiro longa‑metragem. Tatiana teve contato com o projeto ainda em fase inicial, ao integrar a comissão de um fundo internacional de apoio ao cinema. O filme se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens, e acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, cuja vida se transforma após o desaparecimento de uma de suas filhas.

A partir desse acontecimento, a narrativa se estrutura como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos, sociais e pelos vínculos internos de uma comunidade historicamente marginalizada. Coprodução entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega, o filme marca a estreia de Abinash Bikram Shah em longas, após uma trajetória de dois curtas e na escrita de roteiros exibidos em festivais internacionais.

"O Riso e a Faca": chegada ao Brasil

Enquanto "Elefantes na Névoa" se prepara para sua première mundial, "O Riso e a Faca" ganha novo fôlego com a estreia nos cinemas brasileiros. O filme acompanha Sérgio, um engenheiro ambiental que viaja a uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar, a serviço de uma ONG, na avaliação da construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Ali, ele se envolve em uma relação íntima e assimétrica com Diára e Gui, vínculo que, inserido nas dinâmicas da comunidade de expatriados, expõe continuidades do neocolonialismo e das relações de poder no cotidiano contemporâneo.

A narrativa é atravessada por imagens da Guiné‑Bissau e do deserto da Mauritânia, captadas pelo fotógrafo brasileiro Ivo Lopes Araújo, cuja câmera confere densidade sensorial e amplitude visual ao percurso dos personagens.

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Com duração de três horas e meia, o longa chamou atenção desde a estreia por sua ambição formal e narrativa. "Na verdade, é um filme que te arrebata", observa, destacando a força da experiência proposta ao espectador. Para ela, apesar da extensão, "essas três horas e meia passam totalmente fluidas", acompanhando a trajetória dos personagens e suas transformações ao longo do percurso.

Produzir entre países, culturas e modos de fazer

Ao longo da entrevista, Tatiana Leite retoma um tema central da sua trajetória: o trabalho com coproduções internacionais. Presente em projetos que atravessam a América Latina, a Europa, a África e a Ásia, ela define esse processo como uma combinação constante de negociação, escuta e organização. "É tão desafiador quanto genial", resume, ao falar das exigências legais, culturais e criativas que envolvem cada país participante.

Festivais como Cannes, Berlim, Roterdã e Locarno surgem, nesse percurso, como espaços estratégicos de encontro, onde equipes dispersas ao longo do ano conseguem se reunir para discutir projetos em andamento e definir caminhos comuns. Para a produtora, esse trabalho coletivo, muitas vezes comparável a um grande quebra‑cabeça, é também o que dá densidade humana e artística aos filmes.

Ao olhar para o cinema brasileiro contemporâneo, Tatiana reconhece avanços importantes na democratização e na regionalização da produção, com o surgimento de novos realizadores em distintas regiões do país. Ao mesmo tempo, aponta as dificuldades persistentes no financiamento de longas‑metragens. Ainda assim, segue apostando em projetos que, segundo ela, tenham uma contribuição singular para o cinema. "Busco filmes que não sejam apenas vistos e esquecidos, mas que permaneçam com as pessoas", afirma.

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Novos filmes

O horizonte da Bubbles Project permanece marcado pela diversidade de territórios e pela aposta em autores singulares. Entre os projetos em desenvolvimento, Tatiana Leite prepara uma produção inicialmente portuguesa, baseada em "Os Sertões", de Euclides da Cunha, em parceria com a brasileira Matizar Filmes e coproduções com França, Itália e Holanda. Dirigido por Miguel Gomes, o filme será rodado em Canudos, cenário central da obra.

A produtora também está envolvida em um novo longa do cineasta argentino Benjamín Naishtat, diretor de "Puan", que será filmado em Buenos Aires, em coprodução entre Brasil, Argentina e França. Completam a lista um primeiro longa‑metragem venezuelano, "Meninos Banhando‑se no Lago", ambientado na região de Maracaibo e coproduzido com Brasil, França, Alemanha e Chile, além de projetos documentais híbridos, como "Debaixo do Embondeiro", da cineasta pernambucana Valentina Homem, com filmagens em Moçambique, e um novo filme de Jean da Costa, também em regime de coprodução entre Brasil e França.

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