Poucos artistas da última década conseguiram transformar caos sonoro em linguagem própria como Travis Scott. Desde que surgiu como protegido de Kanye West, contribuindo na produção de Yeezus (2013), o rapper de Houston construiu uma discografia quase à prova de falhas, erguida sobre psicodelia, trap atmosférico e uma capacidade rara de curadoria — ele sabe, talvez melhor do que qualquer outro nome do rap atual, como reunir as pessoas certas no momento certo.
Para chegar a esse ranking, a Rolling Stone Brasil considerou impacto cultural, coesão sonora, curadoria de features e a forma como cada projeto se encaixa na evolução artística de Travis. Vale destacar que as mixtapes de início de carreira, Classmates e Graduates, ficaram de fora da lista por serem trabalhos ainda amadores, anteriores ao momento em que Travis encontrou sua voz.
Confira, a seguir, todos os nove projetos do artista, do pior ao melhor:
9. Huncho Jack, Jack Huncho (2017)
https://www.youtube.com/watch?v=nBj1d39KtcE&pp=ygUYSHVuY2hvIEphY2ssIEphY2sgSHVuY2hv
A parceria entre Travis Scott e Quavo prometia faíscas e entregou um disco apagado. Apesar do hype em torno do encontro de dois dos MCs mais "ligados" do rap da época, Huncho Jack, Jack Huncho sofre de falta de coesão: as 13 faixas se misturam sem deixar marca, e o tom sombrio e contido do projeto nunca decola para algo memorável. Ainda assim, "Dubai Shit" e "Black & Chinese" são provas de que o talento dos dois não desapareceu; apenas não encontrou o contexto certo para brilhar com consistência. As participações de Takeoff e Offset ajudam a injetar energia trap nos momentos certos, mas o disco como um todo é o exemplo claro de que talento individual não garante química coletiva.
8. JACKBOYS 2 (2025)
https://www.youtube.com/watch?v=dwuYa2DcC-o
O segundo capítulo do coletivo Cactus Jack chega como o penúltimo ponto da discografia de Travis. Lançado seis anos depois do primeiro JACKBOYS, o projeto tenta repetir a fórmula de reunir o selo numa vitrine coletiva, mas perde força justamente onde o antecessor já vacilava: falta identidade própria. Faixas como "Kick Out", "Dumbo" e "Da Wizard" mostram que ainda há fogo na fórmula, com momentos genuinamente divertidos e bem produzidos. As participações seguem competentes (e, Don Toliver e Sheck Wes, não estou falando de vocês; 21 Savage sabe do que estou falando), mas o conjunto soa mais como um exercício de manutenção de marca do que uma declaração artística. Funciona como produto de selo, não como obra.
7. Owl Pharaoh (2013)
https://www.youtube.com/watch?v=8XdlQmYpVzU
A primeira mixtape solo de Travis já trazia sinais do que estava por vir, mesmo sem o polimento que definiria seus trabalhos posteriores — e também sem esconder o quanto ainda soava como cópia das próprias inspirações, especialmente Ye e Kid Cudi. "Uptown", com A$AP Ferg, e "Upper Echelon", com T.I., são pérolas que ainda funcionam hoje, enquanto "Hell of a Night" e "Blocka La Flame" capturam a energia de festa que faria dele um nome incontornável poucos anos depois. "Quintana", com Wale, e "Bandz", com Meek Mill, completam um projeto que, mesmo limitado em ambição e identidade próprias, já mostrava o instinto de Travis para criar hinos de pista. É o documento de um artista ainda engatinhando atrás de seus ídolos, mas com o radar já calibrado.
6. JACKBOYS (2019)
https://www.youtube.com/watch?v=RIuk23XHYj0&pp=ygUIamFja2JveXM%3D
Lançado pouco depois do sucesso estrondoso de ASTROWORLD, JACKBOYS apresentou formalmente o coletivo Cactus Jack — formado por nomes como Sheck Wes, Don Toliver e SoFaygo. Com apenas sete faixas, o projeto soa mais como um spin-off de Travis do que uma vitrine real do grupo, já que amigos de peso como Young Thug, Lil Baby, Quavo e Offset dominam boa parte do espaço. Ainda assim, momentos como o remix de "Highest in the Room" com Rosalía e o mergulho no drill de Brooklyn em "Gatti", com Pop Smoke, mostram o instinto de curadoria de Travis funcionando a todo vapor — só que em formato de aperitivo, não de prato principal.
5. Birds in the Trap Sing McKnight (2016)
https://www.youtube.com/watch?v=Dst9gZkq1a8
O segundo álbum solo de Travis costuma ser injustamente esquecido entre o que veio antes e depois dele — mas é nele que "goosebumps", com Kendrick Lamar, e o duplo platina "pick up the phone" se consolidaram como alguns dos maiores singles de sua carreira. Birds in the Trap Sing McKnight é também onde Travis afirma, de forma definitiva, seu domínio melódico, construindo faixas ricas e ligeiramente deslocadas do padrão trap da época. É um disco mais comercial e menos experimental do que o resto de sua discografia, mas funciona justamente como a ponte que tornaria ASTROWORLD possível.
4. UTOPIA (2023)
https://www.youtube.com/watch?v=B9synWjqBn8
Cinco anos depois de ASTROWORLD, Travis voltou com um disco que soa como se tivesse sido gravado em outro planeta. UTOPIA abre com o boom bap sujo de "HYENA" e segue por faixas como "THANK GOD" e "I Know ?", que empurram o trap para um território cada vez mais experimental e desorientador, especialmente com o hino "FE!N", com Playboi Carti. Falando nelas, as participações também ficaram mais ousadas — Beyoncé, Bad Bunny, Yung Lean e James Blake se juntam aos parceiros históricos como Drake e The Weeknd, criando um disco genuinamente global. Travis também rapeia com mais intenção do que em projetos anteriores, deixando de se camuflar na produção para assumir o centro do próprio universo sonoro. É um álbum mais sombrio, mais caótico e, em muitos sentidos, ainda à frente de seu tempo.
3. Days Before Rodeo (2014)
https://www.youtube.com/watch?v=sS8ELauHmGM
Antes de Travis se tornar superstar, ele precisou provar que merecia a atenção que já vinha recebendo como produtor — e Days Before Rodeo é o som dessa impaciência. A mixtape é crua, underground e sem o polimento comercial que viria depois, reunindo Young Thug, Migos e Rich Homie Quan num retrato fiel da efervescência trap de Atlanta naquele momento. Faixas como "Mamacita" e "Don't Play" mostram Travis refinando seu instinto de curadoria, e o disco como um todo é o som de um artista gritando contra a velha guarda do rap, juntando uma multidão de fãs para cantar que não querem mais a mesmice. Curiosamente, o projeto ficou fora das plataformas de streaming por dez anos, sendo tratado quase como uma lenda entre fãs mais antigos, até finalmente chegar oficialmente ao Spotify e demais serviços em 2024. É bruto, é conciso e ainda acerta o ouvido até hoje.
2. ASTROWORLD (2018)
https://www.youtube.com/watch?v=6ONRf7h3Mdk
Com 17 faixas, ASTROWORLD é gigantesco. Inspirado no antigo parque de diversões de Houston, o álbum é onde Travis finalmente teve recursos e visibilidade suficientes para executar sua visão em escala máxima — e o resultado é uma experiência quase cinematográfica, cheia de mudanças de beat, transições hipnóticas e vocais cortados que tornam cada faixa um mundo à parte. Foi também o disco que furou a bolha do trap e colocou o gênero definitivamente no centro do mainstream americano. "SICKO MODE", com Drake, se tornou disco de diamante e um dos maiores hits de sua carreira, enquanto "STARGAZING" e "STOP TRYING TO BE GOD" mostram a ambição sonora do álbum em sua forma mais expansiva. "CAN'T SAY" apresentou ao mundo um então jovem Don Toliver, que usaria essa rampa de lançamento para construir sua própria carreira, e "BUTTERFLY EFFECT" segue como um dos maiores hinos de festa de toda a discografia do rapper. Aqui, Travis dominou a fórmula por completo, funcionando menos como showman e mais como curador supremo do próprio universo sonoro. É o disco mais completo e mais bem construído de sua carreira.
1. Rodeo (2015)
https://www.youtube.com/watch?v=BuNBLjJzRoo&pp=ygUMcm9kZW8gdHJhdmlz
O álbum de estreia de Travis Scott continua sendo, dez anos depois, sua obra-prima. Rodeo captura um artista absorvendo suas maiores influências: o trap hipnótico do Migos, a sujeira sonora de Atlanta ao lado de Future e 2 Chainz, a mentalidade sem filtro herdada de Kanye West, e transformando tudo isso em algo genuinamente próprio. Faixas como "90210" e "Pray 4 Love" transcendem a música, funcionando quase como experiências espirituais, enquanto "Nightcrawler" mostra a energia rebelde que se tornaria sua marca registrada. Os encontros com Ye, Quavo, 2 Chainz e Justin Bieber são distribuídos com tanta precisão que nenhum brilha mais do que o outro — todos complementam a atmosfera geral do disco. Rodeo é o documento mais completo de quem ele é como artista e a prova viva de que seu primeiro grande passo já era também o seu melhor.