Titãs falam à RS sobre turnê 'Cabeça Dinossauro 40 Anos' e legado do álbum

Disco seminal para a história do rock brasileiro será celebrado em nova série de shows; pontapé inicial da tour ocorre neste sábado, 28, em São Paulo

27 mar 2026 - 13h48

"Vamos focar em um perfil mais pesado e com mais riffs de guitarra, e daremos um descanso para as baladas e os reggaes." Esta é a promessa de Sérgio Britto, à Rolling Stone Brasil, para os próximos shows dos Titãs em celebração ao 40º aniversário de Cabeça Dinossauro. Não apenas porque o álbum, terceiro do grupo e um dos mais importantes da história do rock brasileiro, será tocado na íntegra. Outras músicas terão espaço na segunda etapa do repertório — e, ao que tudo indica, só as pedradas, com direito a possíveis resgates do também visceral Titanomaquia (1993).

Titãs em entrevista à Rolling Stone Brasil
Titãs em entrevista à Rolling Stone Brasil
Foto: Luan Bertolini / Rolling Stone Brasil

O grupo, completo por Tony Bellotto e Branco Mello, inicia a turnê Cabeça Dinossauro 40 Anos neste sábado, 28, com apresentação no Espaço Unimed, em São Paulo. Belo Horizonte (BeFly Hall, 25/04), Rio de Janeiro (09/05, Qualistage) e Curitiba (18/07, Igloo Super Hall) são os próximos destinos. A realização é da 30e e ingressos estão disponíveis no site Eventim. O trio adiantou, em entrevista à Rolling Stone Brasil, que a ideia é anunciar mais datas em breve.

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A celebração ocorre em um momento especial. Bellotto e Mello estão recuperados de problemas de saúde recentes e, junto de Britto, reuniram-se com os ex-colegas Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Nando Reis e Charles Gavin entre 2023 e 2024 para a Titãs Encontro — possivelmente, a maior turnê realizada por uma banda brasileira em todos os tempos. As atividades dos Titãs seguem em formato oficial de trio, com os guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio e o baterista Mário Fabre como músicos de apoio.

"É importante afirmar nós três com a banda atual, as pessoas perceberem que mantém a essência, o peso — muitas vezes até mais, com a companhia do Beto Lee, do Mário Fabre e do Alexandre de Orio, que estão fazendo junto também. Vamos trabalhar pela primeira vez com três guitarras. É legal para mostrar como esse espírito dos Titãs permanece, independente de estarmos nós três ou com os ex-integrantes", comenta Tony, antes de receber um bem-humorado completo de Sérgio: "Com três guitarras, é só Titãs e Iron Maiden. [Risos.]"

Ao refletir sobre os preparativos para a turnê, Branco se impressiona com o quão contemporâneo Cabeça Dinossauro segue. "Musicalmente, continua muito atual. Tocamos o arranjo original e segue normal. Esse som não ficou datado, está acontecendo hoje", pontua ele sobre o disco que apresentou ao mundo canções como "AA UU", "Homem Primata", "Polícia", "Família" e "Bichos Escrotos".

Um álbum ainda pertinente

Apesar do sucesso conquistado em 1984 pelo hit "Sonífera Ilha", Cabeça Dinossauro foi o primeiro álbum dos Titãs a realmente emplacar. Surpreende, pois trata-se de um disco sonoramente mais pesado e com temáticas desafiadoras num contexto pós-ditadura militar. Há críticas a diferentes poderes (políticos, religiosos, de segurança), à operação real do sistema capitalista e a instituições socialmente estabelecidas, como o conceito de família tradicional.

"Cabeça Dinossauro trata de alguns temas de uma maneira que eu, hoje, com 66 anos, ainda acho pertinente", reflete Sérgio Britto. "Não há ingenuidade ou panfletarismo gratuito ali. É uma outra abordagem para temas ainda importantes e relevantes —a humanidade não vai se livrar de questões como abuso de poder, o lucro acima de tudo, o desespero, a rotina do dia a dia, sentir-se enclausurado e por aí vai. É um álbum questionador, sem um lado messiânico. Isso se mantém atual."

https://open.spotify.com/intl-pt/album/557bzwt1Yb2hUSGIZNrToj

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Foi a primeira vez em que o octeto, composto pelos sete músicos já citados e o saudoso guitarrista Marcelo Fromer, trabalhou com Liminha, o produtor mais cobiçado no pop naquele momento. "A gente tinha uma insatisfação com os resultados dos álbuns anteriores, o som não ficou como a gente queria", conta Branco. "Liminha trouxe, com técnica e produção, um som que nos fez falar: 'P*rra, agora sim. Agora tá rolando'."

Spoilers do faixa-a-faixa de Cabeça Dinossauro

Um faixa-a-faixa completo de Cabeça Dinossauro será disponibilizado em breve pela Rolling Stone Brasil, junto da versão completa desta entrevista. No entanto, pequenos spoilers estão disponíveis abaixo.

Sérgio Britto: "As duas primeiras faixas do disco [a faixa-título e 'AA UU'] são um absurdo. Se você parar para pensar um pouco, para uma banda, para um artista pop, 'Cabeça Dinossauro' entra com um trítono, uma letra sintética, acaba com uma frase totalmente irregular, porque é inspirada nos rituais cerimoniais dos índios. 'AA UU' é um grito em cima de um riff que tem um quê de funk, falando de insatisfação, rotina, dia a dia, da pessoa que se sente aprisionada. Em termos musicais, é bem radical. E fizeram sucesso. Viraram quase hits populares."

Tony Bellotto: "'Igreja' e 'Polícia' são muito claras e definidoras do espírito do disco, de 'crítica' bem colocada a essas instituições: da igreja e da polícia. Não tem panfletarismo. É sempre a voz do eu lírico. Acho que essa foi a grande sacada. Sequer tem crítica: é um depoimento de um cara que não gosta de uma coisa, questiona outra."

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Branco Mello: "Isso veio de situações reais que aconteceram com a gente: as prisões do Tony e Arnaldo [por posse de heroína em 1985], shows cancelados. Fomos para as páginas policiais. Tudo contribuiu."

Tony Bellotto: "Era o final da ditadura. 'Bichos Escrotos' foi censurada para execução pública, mas os próprios radialistas desrespeitaram isso e aceitaram pagar multa para tocá-la. Acrescenta muito à aura do disco."

Sérgio Britto: "Quando Cabeça Dinossauro saiu, alguns jornalistas falaram que 'Homem Primata' era um pastiche, desmerecendo a música no meio do disco. Mas sempre achei uma música esperta: a crítica ao capitalismo, ao consumo, que pode ser também boba, entra no 'capitalismo selvagem'. Dizer que nem toda atividade humana deve ter como único fim o lucro. Óbvio que a sociedade capitalista é assim, mas a ideia de fazer tudo em função disso é muito nociva."

Tony Bellotto: "'Família' tem um lado cômico de brincar com essas coisas de toda família: o neném que fica doente, a filha que quer sair de casa, o medo de barata. Todos reconhecemos que a música era muito boa. Nasceu como um reggae, mas era um reggae mais lento e pesado."

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Titãs — Cabeça Dinossauro 40 anos

  • 28/03: São Paulo (Espaço Unimed)
  • 25/04: Belo Horizonte (BeFly Hall)
  • 09/05: Rio de Janeiro (Qualistage)
  • 18/07: Curitiba (Igloo Super Hall)
Rolling Stone Brasil
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