Anunciado no The Town 2027, Marilyn Manson volta ao Brasil após dez anos em meio a polêmicas. Desde 2021, o cantor enfrenta acusações de abusos sexuais e físicos feitas por várias mulheres, incluindo Evan Rachel Wood. Embora a Promotoria de Los Angeles tenha arquivado um caso criminal por falta de provas e prescrição, Manson ainda irá a júri em 2027 pela ação de uma ex-assistente. O músico nega os crimes, e a organização do festival justificou a escalação destacando que ele nunca foi condenado.
Marilyn Manson foi anunciado nesta segunda, 28, como uma das primeiras atrações do The Town 2027, festival organizado pela Rock World e previsto para 4 de setembro, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. O cantor se apresentará no Palco Skyline na mesma noite em que o Slipknot será a atração principal. Manson não se apresenta no Brasil há mais de 10 anos, sua última passagem pelo país ocorreu antes de as acusações contra ele virem a público, a partir de 2021. Desde então, o músico foi alvo de processos movidos por diversas mulheres, incluindo as atrizes Evan Rachel Wood e Esmé Bianco, com alegações de abuso sexual, físico e psicológico. Um dos casos foi reaberto em 2026 por mudança na legislação da Califórnia.
Ao justificar a escolha, Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, reconheceu a controvérsia em torno do cantor, mas defendeu a contratação: "É um artista controverso, mas muito talentoso e pesa muito isso sobre o fato dele não ter sido condenado", disse ao jornal O Globo. Roberto Medina, presidente da empresa, também comentou a escalação em comunicado enviado à imprensa: "Marilyn Manson traz ainda mais potência rock e metal, em um dia que reúne artistas internacionais gigantes, cada um com uma identidade muito própria e uma história enorme dentro de suas vertentes".
Brian Warner, nome de registro de Marilyn Manson, nega todas as acusações e afirma que suas relações íntimas foram consensuais.
As acusações
O caso ganhou repercussão mundial em fevereiro de 2021, quando a atriz Evan Rachel Wood, estrela da série Westworld (2016) e ex-noiva de Manson, publicou no Instagram um relato detalhado sobre um relacionamento abusivo com o músico. "Ele começou a me manipular quando eu ainda era adolescente e abusou horrivelmente de mim durante anos", escreveu. "Fui lavada no cérebro e manipulada para me submeter". Wood relatou episódios de violência física, sexual e psicológica, além de ameaças à sua vida.
Em 2022, no documentário Phoenix Rising (2022), Wood afirmou ter sido submetida a uma relação sexual sem consentimento durante as gravações do videoclipe de "Heart-Shaped Glasses", em 2007. Segundo ela, a cena deveria ser simulada. Manson negou a acusação. No mesmo documentário, Wood explicou o que buscava ao falar publicamente: "Não é sobre vingança ou sobre 'ele é um monstro e precisa ser punido e destruído'. Ele já foi destruído. Aquele homem não é mais um homem; ele se foi".
Nos dias seguintes ao relato de Wood, outras mulheres fizeram acusações semelhantes. A atriz Esmé Bianco, conhecida pela série Game of Thrones (2011), entrou com uma ação em 2021, afirmando ter sido vítima de estupro e de abusos físicos, sexuais e psicológicos durante o relacionamento com o cantor. O processo terminou em um acordo extrajudicial, em 2023, sem julgamento. A modelo Ashley Morgan Smithline também processou Manson por violência sexual. O caso foi encerrado em 2023, depois que ela perdeu a representação jurídica. Mais tarde, Smithline retirou as acusações e disse ter sido influenciada por Wood, que negou essa versão. Outra mulher, cuja identidade foi preservada, acusou Manson, em um processo apresentado em Nova York, de tê-la estuprado quando ela tinha dezesseis anos, na década de 1990.
A investigação criminal e os processos
Em 2022, Manson processou Evan Rachel Wood e a artista Illma Gore por difamação, acusando-as de organizar uma campanha para incentivar denúncias contra ele. Partes importantes da ação foram rejeitadas pela Justiça. Em novembro de 2024, o cantor desistiu do processo e concordou em pagar cerca de US$ 327 mil em honorários advocatícios de Wood. Um representante da atriz disse à Rolling Stone: "Warner instaurou um processo contra a senhora Wood como golpe publicitário para tentar minar a credibilidade das muitas mulheres que o acusam. A decisão de finalmente retirar o processo e pagar as custas totais são prova disso".
Paralelamente, a Promotoria do Condado de Los Angeles conduziu uma investigação criminal por quase quatro anos. Em janeiro de 2025, o promotor Nathan Hochman anunciou que não apresentaria acusações contra Manson, as denúncias de violência doméstica haviam prescrito, e as provas relacionadas às acusações de agressão sexual não eram suficientes para sustentar uma acusação além de dúvida razoável. Manson, portanto, não foi julgado criminalmente.
A ação retomada em 2026
Em janeiro de 2026, um tribunal da Califórnia autorizou a retomada de uma ação movida por Ashley Walters, ex-assistente pessoal de Manson. Ela o acusa de agressão sexual e outros abusos ocorridos entre 2010 e 2011, período em que trabalhou para o músico. O processo havia sido barrado por prescrição, mas uma mudança na legislação estadual, a AB 250, sancionada pelo governador Gavin Newsom em outubro de 2025, abriu uma janela retroativa de dois anos para denúncias antigas de violência sexual. A defesa de Manson contesta a retomada e afirma que as acusações não se enquadram nos critérios da nova lei.
O julgamento por júri está marcado para 15 de novembro de 2027, dois meses após a apresentação no The Town. Depois da audiência, o advogado de Manson, Howard King, afirmou que o músico vai recorrer. "Estamos confiantes de que o caso nunca chegará a julgamento depois que o tribunal analisar nossa próxima moção de julgamento sumário", disse à Rolling Stone.
Repercussões fora dos tribunais
As denúncias também tiveram consequências para a carreira de Manson. Em outubro de 2025, uma apresentação da turnê One Assassination Under God, em Brighton, na Inglaterra, foi cancelada após a campanha na internet "No Stage for Abusers" e críticas de representantes políticos locais. O episódio reacendeu o debate sobre a responsabilidade de festivais e produtoras ao contratar artistas alvo de acusações graves — discussão que agora chega ao Brasil com o anúncio do The Town.
A organização do festival afirma que não contrataria um artista condenado e que Manson não se enquadra nessa condição. O cantor chega ao The Town 2027 em meio à retomada da carreira. Em novembro de 2024, lançou One Assassination Under God — Chapter 1, pela Nuclear Blast, seu primeiro álbum em quatro anos. Antes disso, havia sido dispensado da gravadora anterior em razão das acusações. Em 14 de agosto de 2026, lançou o segundo capítulo, One Assassination Under God — Chapter 2, com 10 faixas de rock industrial e metal que dão continuidade ao projeto conceitual iniciado no álbum anterior. A turnê One Assassination Under God Tour, iniciada em agosto de 2024, passou por 153 apresentações em nove etapas pela Ásia, Europa, América do Norte e América do Sul e terminou em novembro de 2026. A apresentação no The Town 2027 fará parte de uma nova rota mundial, ao lado do Slipknot.