Tenho certeza de que você já ouviu falar dos tipos de nuvens: cirrus, altocumulus, cumulus, nimbostratus ou, pelo menos, de suas características: aquelas mais alongadas, tranquilas, finas, arredondadas. Não que você tenha guardado isso na memória, mas saiba que existe uma em particular que costuma chamar mais atenção do que as outras: a cumulonimbus. Pesada, vertical, formada por acúmulo de energia, é o tipo de nuvem que anuncia a tempestade antes mesmo do primeiro trovão. Não tem como passar batido por uma Cumulonimbus e talvez seja isso que motivou Rashid a nomear seu sexto álbum de estúdio dessa maneria.
Lançado em 11 de agosto, o álbum reúne 15 faixas e reafirma Rashid como um dos poucos artistas capazes de equilibrar técnica impecável com mensagem acessível, sem que uma coisa sacrifique a outra. Este é o acúmulo de quase duas décadas de carreira finalmente descarregando, rap de verdade, em sua essência, do tipo que só alguém com intimidade profunda com as palavras (e com a própria missão histórica do rap) consegue sustentar ao longo de uma hora sem perder o fôlego.
Tematicamente, o álbum transita por territórios muito pessoais sem jamais abandonar o olhar coletivo que sempre marcou a obra de Rashid. "Criado por Mulheres" homenageia as mulheres que moldaram sua trajetória, sem reduzi-las a papéis específicos. "YOWA", com Ajaxx e Pai David Dias, recorre ao cosmograma bakongo — símbolo dos ciclos da vida — para construir uma narrativa de superação e pertencimento.
Aqui, a tempestade vira metáfora para os próprios desafios internos, e a canção se desdobra em uma reflexão sobre ancestralidade e resistência negra, evocando tradições afro-brasileiras e a memória coletiva como guia para o futuro. "Me aliei com a tempestade, entendi que ela é parte vital do que eu sou / Desafio é sem novidade, por isso que a chuva de pedras cessou, e o passado avisou", canta.
"O Que Dizem os Números" segue na direção oposta: mais direta e documental, traz Rashid transformando dados estatísticos reais sobre desigualdade social, racismo histórico e violência no Brasil em denúncia viva, ao questionar quem controla a narrativa por trás das estatísticas. Já "L'Appel du Vide", com Luedji Luna e Kamau, parte do conceito francês que batiza a faixa (o impulso de se lançar ao desconhecido) para construir uma reflexão existencial sobre risco, criação artística e o valor do que se produz — um dos momentos mais introspectivos e vulneráveis do disco, em que, no refrão, ele pergunta: "Qual o destino da canção? / Será que ela vale?".
A paternidade, tema que já atravessa a discografia do artista desde PORTAL, dedicado ao nascimento do filho Cairo, reaparece com força em momentos do disco que tratam da relação entre pai e filho com honestidade rara dentro do gênero.
Sonoramente, Cumulonimbus trabalha beats carregados de samples e colagens que remetem à estética clássica do rap nacional, mas sem soar como um exercício nostálgico vazio. Rashid incorpora referências à MPB, citando Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gonzaguinha ao longo do projeto, prova de que sua musicalidade só se expandiu desde Hora de Acordar (2010), incorporando jazz, soul e camadas instrumentais mais sofisticadas sem nunca perder a espinha dorsal do boom bap.
Tecnicamente, é onde Rashid mais impressiona. Jogos de palavras, esquemas de rima complexos, rimas multissilábicas e punchlines aparecem com naturalidade impressionante, sem nunca sufocar a clareza da mensagem. É o tipo de disco que recompensa a escuta repetida: cada nova passada revela uma referência que passou despercebida antes, seja de cultura pop, literatura ou filosofia.
O ápice emocional do projeto está em "Ouro, Mirra e Incenso", reencontro dos Três Temores — Rashid, Emicida e Projota —, que constrói a própria estrutura em cima da simbologia dos presentes dos reis magos. Projota incorpora Belchior e rima sobre ouro, nobreza, e seu verso reflete exatamente sobre status e legado. Emicida é a Baltazar, que carrega a mirra, ligada à mortalidade, e aborda finitude e perda de forma direta. Rashid fecha como Gaspar, o incenso, símbolo de divindade, tratando a própria trajetória como algo quase sagrado. Juntos, os três transformam o reencontro em uma baita celebração de amizade. É um dos vários encontros de peso espalhados pelo álbum, que também reúne participações de Luedji Luna, Kamau, Rael, Paula Lima, MC Neguinho do Kaxeta, Jota Ghetto, Slim Rimografia e Flavia K.
O projeto também nasce acompanhado do movimento Defensores da Arte do Gueto, idealizado pelo próprio Rashid para promover encontros e debates em torno do poder transformador do hip hop, reforçando que, para ele, a cultura sempre foi, antes de tudo, experiência coletiva, não produto individual.
Quase nada precisa de ajuste no disco, mas algumas faixas de transição inevitavelmente ficam à sombra dos pontos mais altos do álbum, como costuma acontecer em projetos de 15 faixas com uma ambição tão grande. Ainda assim, é difícil encontrar um momento realmente fraco dentro do conjunto.
No fim, Cumulonimbus beira o impecável justamente por não tentar ser nada além do que o rap sempre foi, em sua essência. Rashid entrega um dos trabalhos mais completos da própria carreira, prova de que, depois de quase vinte anos, ele continua encontrando formas novas de dizer a mesma coisa que sempre disse: que essa cultura nasceu para mudar vidas, não só para tocar em playlists.