Phoebe Bridgers compensa o tempo perdido em seu novo álbum tão aguardado

Após um intervalo de seis anos entre projetos solo, a compositora retorna com Lost Weekend, um ciclo de canções espetacular sobre amor e perda

5 ago 2026 - 10h01

"Vamos sumir", declara Phoebe Bridgers em Lost Weekend. Foi exatamente isso que ela fez, mais ou menos, logo após atingir um novo patamar de estrelato em 2023 com o boygenius, seu supergrupo de indie rock ao lado de Lucy Dacus, Julien Baker e da própria Bridgers. No Grammy de 2024, em que Bridgers venceu mais prêmios do que qualquer outro artista, ela descreveu seus planos no tapete vermelho: "Agora, caminhamos rumo ao pôr do sol".

Phoebe Bridgers se apresenta no The Piece Hall, em agosto de 2023
Phoebe Bridgers se apresenta no The Piece Hall, em agosto de 2023
Foto: Andrew Benge/Redferns / Rolling Stone Brasil

Ela volta agora com seu primeiro álbum solo em seis anos, e há muita coisa para colocar em dia. Bridgers compensa os últimos anos (dá para chamar de tempo perdido) ao nos entregar seu disco mais longo e ousado até aqui: uma façanha na arte de desaparecer, se apaixonar e sentir um luto tão profundo que acordar todos os dias meio que é horrível. Mas, como ela prova ao longo de 16 faixas, nem tudo é tão sombrio, e ela se certifica de espalhar seu charme e seu humor afiado pelo álbum. "Eu era a bela do baile do governador", ela canta no destaque caprichoso "The Governor's Waltz", uma de várias músicas repletas de pistas enigmáticas sobre como anda sua vida hoje em dia. "Escondida no banheiro como Shelley Duvall."

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Só trabalho e nenhuma diversão deixam Bridgers entediante, então ela encontra tempo para experimentar sonoramente, como na faixa de abertura, "The Outside". Ela entra com vocoder, amparada por sintetizadores de seu novo colaborador, Jack Antonoff, enquanto entrega versos que possivelmente fazem referência ao seu ano gigantesco com os parceiros do boygenius e ao que ela viveu nesse período: "Chorando num terno e gravata/Mas você devia ver o outro cara/Mais uma vez, pelos velhos tempos/Vou ver ele ser levado embora".

Bridgers disse que tem ouvido muita música ambiente ultimamente, e dá para perceber como isso moldou Lost Weekend, junto com Radiohead (os fãs foram rápidos em notar a camiseta de Kid A que ela usou em um de seus recentes shows-surpresa). Essas influências aparecem de forma estranhamente presente em interlúdios e instrumentais com falhas digitais, como no centro meditativo "Panorama", em que ela não canta nos dois primeiros minutos, deixando o piano cintilante, o arranjo de cordas, os metais e os sintetizadores conduzirem. Os novos toques potencializam seus motivos líricos preferidos (sono, químicos, hospitais; tudo isso aparece) e seus gritos de alegria, como no destaque "As Above", que ela estreou no começo deste verão no Madison Square Garden. "Você não vai precisar acreditar em magia", ela grita, triunfante. "Deixa comigo, eu faço acontecer."

Quando Bridgers lançou seu grande estouro de 2020, Punisher, ela disse que um dos temas era a anestesia emocional. Mas em Lost Weekend ela sente tudo, atravessando todo o espectro de emoções. "Não tenho segredos, só sentimentos", ela admite na beleza country "Haunted" (fãs de "Graceland Too", essa é para vocês). A morte de seu pai, que faleceu em 2023 aos 60 anos, paira sobre o álbum e é examinada em faixas devastadoras como "Still Standing" ("Não consigo te imaginar morto/Mas você está todos os dias") e "Lost Weekend (Reprise)": "Sou o filho mais velho do meu velho/Eu lutei contra o muro, e o muro venceu". Ela ainda inclui um áudio de voz dele em "Never Going Back!", o que torna o luto ainda mais dilacerante.

Mas, por mais solitária que ela possa ter se sentido (este é um álbum com quatro títulos de música contendo a palavra "lost", "perdido"), ela não estava sozinha. A felicidade também corre pela lista de faixas, especialmente quando o assunto é seu relacionamento, em grande parte fora do radar, com o comediante Bo Burnham. Ela se entrega por ele em "Bobby", um rock acelerado que se banha em euforia vertiginosa: "Agora eu não sei se consigo ir hoje à noite/Mas o que você vai fazer pelo resto da minha vida?". E, em joias como "Liberty Tree", ela lida com ser uma estrela do rock, a mesma compositora que um dia romantizou cerveja no banho e parcelamento e que agora tem "dinheiro demais e nada a perder".

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Outro movimento característico de Bridgers: ela adora um bom fechamento em espelho. Assim como "Smoke Signals" abriu e encerrou seu debut de 2017, Stranger in the Alps; como "DVD Menu" foi escondida na coda de "I Know the End" em Punisher; e como a favorita dos fãs do EP do boygenius, "Me & My Dog", ganhou uma continuação com "Letter to an Old Poet" em The Record, "Lost Weekend" se completa com a reprise no encerramento. Ela traz um de seus dísticos mais impressionantes: "Agora não consigo ver nenhuma estrela no céu/Quando um sonho se realiza, uma fantasia morre", lembrando por que ela é uma das compositoras mais cativantes da música hoje.

Lost Weekend chega justamente quando Bridgers completa 32 anos. Vemos ela lidando com o envelhecimento em "Kill Me" ("Fazendo 21/Eu não, mas já fui") e "I Can't Wait" ("Devagar, nem tão devagar, ficando mais velha/Califórnia sóbria"), um dos momentos mais deslumbrantes do álbum. Essa música traz uma participação especial, creditada sob o pseudônimo Son John-Johnson, que soa muito como Cameron Winter, do Geese, outro cantor e compositor indie que muitas vezes parece ambivalente em relação a ser colocado sob o microscópio da fama. Os dois fazem um dueto aqui, trocando versos enquanto Bridgers oferece um vislumbre real de como se enxerga hoje, inteira pela primeira vez: "A vida toda/Lado a lado/Hyde Jekyll Hyde/Finalmente juntos". É ótimo tê-la de volta.

Rolling Stone Brasil
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