Rafael Bittencourt, guitarrista e membro fundador do Angra, compartilhou de forma aberta e reveladora sua experiência com a transição de gênero de seu filho.
Em entrevista à Billboard Brasil (via Whiplash), o músico desmistificou o papel do pai moderno e revelou como o acolhimento superou o choque inicial e o desconhecimento sobre disforia de gênero.
No entanto, o anúncio da identidade de gênero de seu filho não foi isento de dúvidas e questionamentos. Rafael admite que houve um "baque" inicial e que sua primeira reação foi tentar enquadrar a situação em uma fase passageira.
Inicialmente, ele contextualizou:
"Tem um assunto nesse guarda-chuva, que é ser pai hoje em dia. Nossa geração com eles, adolescentes e jovens. Desafios muito diferentes dos nossos. Alguns semelhantes, mas no turbo. Muito mais turbinados, como por exemplo a questão da escolha da sexualidade, da própria identidade. Hoje, tem mais categorias. A psiquiatria, a psicologia já estudaram mais. São décadas de estudo. Gente nos consultórios, gerando um repertório para categorizar mais. Então, é natural que eles venham em um mundo com uma gama maior de alternativas. Isso confunde. Mas não é tão ruim. Confunde porque nossa geração não está tão preparada. Nossa geração estava preparada para uma paleta com menos cores. Então, fica aquela resistência."
Rafael continuou o relato:
"Mas o nível de aprendizado que eu tenho com essa situação, de ter um filho, uma pessoa que eu amo e que hoje só me traz orgulho. Claro, eu tenho psiquiatra, psicólogo. Na época que veio esse assunto: 'pai, eu sou um homem trans. Não sou a menininha de tiara que você levou para a escola. Sou um homem trans. Veja como você fala comigo. Vá se informar. Você é ignorante. Estude. Quando estiver entendendo do assunto, você venha falar comigo'. Eu fiquei em parafuso. 'Sou ignorante, não'. Eu falei para ele: 'Você está numa rotatória da vida... acho que você tem que experimentar diferentes caminhos antes de escolher'. Ele respondeu: 'Não, pai. Eu sei direitinho qual é o meu caminho. Você é que não entendeu. Se vire para entender isso aí'."
Momento decisivo
O processo de aceitação passou pelo suporte profissional de psiquiatras e psicólogos. Bittencourt recorda um momento decisivo quando, após testes para entender se a identidade do filho era uma influência externa, o especialista colocou a responsabilidade nas mãos do jovem.
Ele conta como foi esse episódio:
"Fui no psiquiatra, no psicólogo. Aquela história toda. O cara disse que iria fazer alguns testes para ver se é onda, se é moda. Fez vários testes. Até que eu volto para o consultório. E perguntou para ele, na minha frente: 'Você já tem um nome social na escola?' 'Não'. 'Você já usa o banheiro dos meninos?'. 'Não'. Já mudou seu nome no RG para o nome social?' 'Não'. Fez algumas outras perguntas e falou: 'Seu pai não vai lá na escola falar para mudar seu nome na lista. Você que vai. Hoje é um direito seu usar o banheiro dos meninos. Vai enfrentar preconceito, tem escola que não tolera tão bem. Mas você que tem que ir lá falar. Essa guerra é tua. Não é do seu pai'. Falei: 'Yes'. 'Agora 'ele' vai arregar, vai voltar com a tiarinha e querer ser menina'. Foi na escola no mesmo dia, falou: 'Olha, eu sou trans. Quero mudar meu nome na lista, quero usar o banheiro dos meninos'. Começou a enfrentar um pouco de bullying dos meninos. Ou seja, foi um processo feito com muito cuidado e atenção."
Alerta para disforia de gênero
Um dos pontos mais sensíveis do relato de Bittencourt é o alerta para a disforia de gênero, condição caracterizada pelo desconforto persistente com características sexuais ou marcas de gênero que remetam ao gênero atribuído ao nascer. Ele observa que, enquanto seu filho encontrou acolhimento, muitos jovens em outros círculos sociais sofrem em silêncio:
"Outros da mesma turma estavam passando pela mesma coisa. Alguns de família evangélica, de família mais tradicional, militar. Estavam pondo pressão nessas crianças, que não estavam se enquadrando, e essas crianças estavam se cortando. Crianças da órbita dele já se mataram. Suicidaram. Algumas, os pais nunca souberam desse drama, que é a disforia de gênero. Disforia de gênero é um assunto muito sério. Como outros, os adolescentes e jovens estão varrendo para debaixo do tapete porque estão vendo seus pais muito despreparados para o assunto. A sociedade, de certa forma, já é preparada porque já existe esse conhecimento. Está tudo aí na internet, nos livros. Tudo disponível. Mas as pessoas ainda vivem muito em gaiolinhas."
Para Rafael Bittencourt, a lição principal é substituir a desinformação pelo acolhimento:
"O que posso dizer é: acolham seus filhos com a mente do mundo de hoje. Não batalhem contra o mundo. Um dia você vai morrer, e o mundo vai vencer. Vai continuar. Esse medo que as pessoas têm da observação do outro, da sociedade, de como vai parecer... Nossos filhos já venceram um pouco isso. Para eles se sentirem mais à vontade, eles precisam sentir que temos maturidade para falar dessas coisas."
https://www.youtube.com/watch?v=yJHegJdiHao