O surgimento da obra-prima "Layla", do grupo Derek and the Dominos, é frequentemente associado à obsessão de Eric Clapton por Pattie Boyd, então esposa de seu melhor amigo, George Harrison.
No entanto, para além do drama pessoal e do triângulo amoroso, existe um fator técnico e profissional decisivo que moldou o álbum Layla and Other Assorted Love Songs (1970): a imersão de Clapton nas sessões de gravação de Harrison.
Em 1970, enquanto George trabalhava em seu colossal álbum triplo solo All Things Must Pass, também de 1970, ele recrutou Eric e os músicos que viriam a formar os Dominos — o tecladista Bobby Whitlock, o baixista Carl Radle e o baterista Jim Gordon — como sua banda de apoio. O que parecia apenas um trabalho como músicos de estúdio tornou-se uma "escola" de produção musical para Clapton.
Um dos principais ensinamentos absorvidos de Harrison foi a importância de registrar tudo. Nas sessões de All Things Must Pass, Harrison mantinha as fitas do estúdio gravando constantemente, capturando não apenas as tomadas oficiais, mas também improvisações, conversas e momentos de experimentação espontânea.
Ao iniciar as gravações de Layla... logo em seguida, Clapton decidiu adotar exatamente a mesma abordagem. Ele instruiu os engenheiros de som a manterem as máquinas ligadas o tempo todo, independentemente de quem estivesse na sala ou do que estivesse acontecendo. Essa decisão foi crucial: resultou em uma vasta coleção de jams e versões alternativas, além de capturar a energia crua e a química imediata da banda.
O recém-falecido Bobby Whitlock, um dos músicos parceiros de Clapton na fase Derek and the Dominos, recorda (via Guitar Player):
"Eric e eu conversamos sobre isso e decidimos também deixar a fita rodando em nossas sessões, não importava o que acontecesse ou quem aparecesse. Foi assim que acabamos com todas aquelas jams, masters alternativos e outras coisas que foram incluídas em relançamentos posteriores."
No início das sessões de Layla..., Clapton e Whitlock tinham apenas algumas canções prontas, como "Tell the Truth" e "I Looked Away". A insegurança de não ter material suficiente para um álbum inteiro era real. No entanto, a convivência com Harrison ensinou a Clapton que a colaboração e a abertura para o improviso poderiam preencher essas lacunas.
Inspirado pelo ambiente criativo que presenciou com o amigo, Clapton transformou o estúdio em um espaço de criação coletiva. Isso abriu caminho para a entrada triunfal de Duane Allman nas sessões, cujas interações com Clapton — muitas delas capturadas graças à política de "fita rodando" — elevaram o disco a um novo patamar de genialidade.
No fim, Harrison não apenas cedeu (involuntariamente) a inspiração romântica para a canção-título, mas também forneceu, por meio de seu exemplo profissional, as ferramentas necessárias para que Eric Clapton assinasse uma de suas maiores obras.