30 anos sem Mamonas Assassinas: banda nasceu de 'sacanagem', teve sucesso meteórico e chocou Brasil com fim trágico

Em 2 de março de 1996, o grupo fez o Brasil chorar com sua partida em um acidente aéreo; relembre o legado

2 mar 2026 - 04h57
Mamonas Assassinas reunidos em foto
Mamonas Assassinas reunidos em foto
Foto: Arquivo | Instituto Mamonas

Nove meses. 273 dias. Cerca de 39 semanas. Foi aproximadamente esse o tempo que durou a carreira da banda Mamonas Assassinas. Pouco para o calendário, mas o suficiente para a história. Em menos de um ano, os cinco jovens irreverentes --Dinho, Bento, Samuel, Sérgio e Júlio Rasec-- saíram de Guarulhos, na Grande São Paulo, para transformar o humor em música, quebrar padrões e ganhar status de fenômenos.

  • Essa reportagem faz parte do especial Mamonas Assassinas - 30 anos de saudade, que traz histórias e relembra momentos do grupo que conquistou o Brasil

Ninguém --nem a família, nem os amigos-- imaginava que os rapazes fariam tanto sucesso. Antes da fama, eram apenas colegas, jovens entusiastas do futebol que tinham uma banda de rock genérico, na época, conhecida como Utopia, que agradava ao pessoal do bairro, só. Remando contra a maré, eles tentaram de tudo para colocar o grupo em evidência até que o caminho do quinteto cruzou com o produtor Rick Bonadio, que também começava a carreira.

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“Eu tinha um estúdio ali no pé da Serra da Cantareira que eu alugava, e era um estúdio muito básico, simples. O começo da minha carreira como produtor foi ali. Eu colocava anúncio num jornal de que eu gravava artistas independentes e eles viram o anúncio e vieram até o estúdio como Utopia pra fazer um disco. Tínhamos mais ou menos a mesma idade, então ficamos brother, amigos. Os caras eram muito divertidos, alto astral e tinham um som legal, mas estavam fazendo um rock fora de época. Eles queriam fazer um rock que tinha acontecido nos anos 80, mas já tinha passado isso, e eu falava isso pra eles”.

30 anos da morte dos Mamonas Assassinas: do sucesso meteórico à saudade eterna
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Apesar do esforço, o disco fracassou e não vendeu mais do que 100 cópias. As coisas começaram a mudar para os meninos de Guarulhos quando Dinho, que era visita recorrente no estúdio de Rick Bonadio, decidiu “gravar umas sacanagens” para cantar em um churrasco de amigos. Para Jorge Santana, primo do artista e hoje CEO da marca Mamonas, essa irreverência foi essencial para, mais tarde, levá-los ao topo. “Não tinha pressão, nem intenção de fazer sucesso [com aquilo], isso ajudou”, avaliou.

Rick Bonadio, que não estava presente na gravação, recebeu um recado para conferir o conteúdo que Dinho tinha gravado. Segundo seu assistente, valia a pena dar uma olhada.

“Dinho gravou Robocop Gay e Pelados em Santos, mas de um jeito bem brega, como se fosse meio Reginaldo Rossi e tal, e aí foi nesse momento que, quando eu ouvi, tudo aconteceu. Foi um clique que deu na minha cabeça. Eles ficaram resistentes, mas, no final das contas, deu muito certo. Foi o clique da minha vida” -- Rick Bonadio em entrevista ao Terra

Para fazer sucesso, o produtor tinha certeza de que grupo precisaria não apenas investir num novo estilo, mas também mudar o nome, o que novamente deixou os rapazes reticentes: “Falei que Utopia era muito sério e eles ficaram meio assim, disseram que já eram muito conhecidos com esse nome, mas no outro dia eles vieram com a ideia.”

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O título de Mamonas Assassinas foi ideia do baixista Samuel Reoli durante uma reunião de brainstorming do grupo. Inicialmente, a sugestão foi Mamonas Assassinas do Espaço, mas depois acabou reduzido. 

‘Os meninos de Guarulhos ganham o mundo’

Mamonas teve ascensão meteórica
Foto: Arquivo | Instituto Mamonas

Com um EP gravado, Rick Bonadio acionou seus contatos e o material começou a passar de mão em mão, chegando à mesa da Sony Music e da EMI. O representante desta última quis ver a banda ao vivo. Os meninos de Guarulhos agora se apresentavam como Mamonas Assassinas e não mais como Utopia. Fechados com a irreverência, eles tiraram as roupas e subiram ao palco apenas de cueca, com discos de vinil tampando a região íntima. A apresentação ainda teve Bento com um vinil em formato compacto em uma piada xenofóbica, que, possivelmente, não seria aceita atualmente. 

A gravadora EMI confirmou o interesse e fechou contrato com o quinteto. A trupe viajou a Los Angeles, nos Estados Unidos, onde produziu o primeiro e único disco, de nome homônimo ao da banda.

Lançado em 23 de junho de 1995, o primeiro álbum dos Mamonas Assassinas atingiu marcos que continuam relevantes no mercado musical até os dias atuais. Em 12 horas, mais de 25 mil exemplares foram vendidos. Em 100 dias, mais de 1 milhão de cópias. A obra ainda bateu recorde mundial como o disco que mais vendeu em menos tempo, com mais de 3 milhões em menos de um ano. Além disso, também bateu o recorde de disco de estreia mais vendido da história do País. Tudo isso atestado e certificado pela Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD).

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Rick Bonadio, o homem por trás dos Mamonas Assassinas, relembra tragédia: 'Tenho sequelas emocionais até hoje'
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O homem por trás do sucesso do grupo, o produtor musical Rick Bonadio, relata que viveu uma experiência surreal com os artistas. “Fomos atropelados pelo sucesso. Eu não tinha a maturidade que eu tenho hoje, não tinha experiência, não era esse cara conhecido. Era bem jovem e tinha pouca experiência de mercado, então tudo foi surpresa. Acho que o que eu posso dizer é que tudo foi aprendizado e surpresa. Foi ali que aconteceu, inclusive financeiramente. Ganhamos uma puta grana, era muito dinheiro. Nem imaginava que ia ganhar tanto dinheiro com aquela idade, naquela época, fazendo aquilo.”

“Eles tinham o cachê mais alto do Brasil, e isso aconteceu em dois meses. Chegamos a cobrar US$ 100 mil por show. Naquela época, tudo era dolarizado. Fizemos oito shows em uma semana. Se você pensar assim, que é um cachê muito alto, o show dos Mamonas hoje custaria pelo menos R$ 1 milhão. Era um negócio absurdo” -- Rick Bonadio

Em pouquíssimo tempo, toda essa atenção tirou os rapazes de Guarulhos do anonimato direto para o status de banda número um do Brasil. Para além do estilo musical irreverente, a estética mambembe e despretensiosa também foi algo que não passou despercebido.

“Foi um estilo único, nenhuma banda nunca chegou a fazer isso. Quando você vê uns caras vestidos de Chapolim Colorado, de irmãos Metralha, de coelho, aquilo ali encanta a gente”, afirma Nélio de Paiva, fã do grupo e vocalista do Mamonas Replay, cover dos Mamonas.

O sucesso dos Mamonas Assassinas foi tão grande que o grupo era disputado por emissoras de televisão e de rádio. “Era difícil. Tinha que dizer não para a Globo”, relembrou Rick, que também recordou que, quando os Mamonas estavam no estúdio, ninguém tirava o olho do medidor de audiência em tempo real. Mesmo em ascensão e quebrando recordes, ainda assim houve quem rejeitasse a banda. “A MTV, por exemplo, ignorou os Mamonas. Só depois que eles estouraram muito é que tiveram que engolir. Eles nem ganharam o prêmio de revelação naquele ano. Quem foi mais revelação que eles?”.

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‘O dia em que o Brasil parou’

Resgate dos corpos dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, que morreram na queda do avião que os trazia, depois de bater na Serra da Cantareira, zona norte da cidade de São Paulo
Foto: VIDAL CAVALCANTE / Estadão

Em 2 de março de 1996, com apenas nove meses de carreira, o Mamonas Assassinas fez o último show de sua carreira, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília (DF). Na ocasião, o grupo reuniu um público de 10 mil pessoas e, de lá, seguiria para a próxima parada: o primeiro show internacional, em Portugal. No entanto, o avião nunca chegou a deixar o País.

A bordo do jato particular, modelo Learjet 25D, eles tinham uma escala planejada em São Paulo. Naquela noite de sábado, por volta das 23h15, a aeronave iniciava a aproximação para pouso no Aeroporto Internacional de Guarulhos e, conforme apuração das autoridades, o piloto executou uma arremetida, procedimento padrão quando a aproximação não está adequada. Durante a nova tentativa de alinhamento, porém, ocorreu o erro decisivo: o procedimento exigia curva à direita, mas a tripulação realizou curva à esquerda. O jato colidiu contra a montanha na Serra da Cantareira, criando uma cena de devastação e dor.

Relatório Técnico

Reconstituição da queda do avião

Análise passo a passo a manobra de arremetida e colisão; clique no botão abaixo para ver a simulação

Voo: PT-LSD
Impacto: 23:16h
 
 
 
 
Serra da Cantareira

Análise do Radar

Inicie a simulação para observar o comportamento da aeronave PT-LSD nos momentos finais.

23:02 • A CHEGADA

Tempo fechado em Guarulhos. Condições meteorológicas desfavoráveis para pouso visual.

23:05 • ARREMETIDA

O piloto decide arremeter por falta de visibilidade. O avião ganha altitude novamente.

23:14 • ERRO DE CURVA

A torre solicita curva à direita, mas a aeronave curva à esquerda, em direção à Serra.

23:16 • COLISÃO

Impacto no Morro do Chapéu. Fim da trajetória da banda Mamonas Assassinas.

 

Célia Alves, mãe de Dinho Alves, contou que recebeu a notícia enquanto aguardava o filho e os integrantes da banda no aeroporto. A morte precoce de Dinho, no auge da fama, foi um choque para ela e para todos os familiares.

"Eu estava no aeroporto, tinha ido buscar ele. Não foi fácil. Você lá, esperando sair teu filho... Entrei em um pesadelo, todos nós familiares entramos nesse pesadelo. Perdi não somente meu filho, mas meu sobrinho Isaac. Éramos duas irmãs com a mesma dor. A dor também era da perda de todos eles, os meninos viviam na minha casa" -- Célia Alves, mãe de Dinho

De acordo com o comandante Hamilton, que participou da cobertura da tragédia no SBT, chegando a sobrevoar o local do acidente, as cenas foram espantosas. “Quando chegou lá, foi uma coisa assim, doida. Um negócio absurdo, porque eu nunca tinha visto acidente dessa forma. O avião entrou [naquele monte] e foi cortando as árvores como se fosse um disco de serra. Lembro que tinha um rastro [de destruição]. O acidente foi muito violento.”

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Destroços do avião dos Mamonas Assassinas
Foto: Reprodução | Globoplay

“Eu conhecia os meninos, eles estavam direto no Domingo Legal com a gente, foi triste, mas quando vi a cena eu já sabia que não ia dar para identificar muita coisa, porque misturou tudo, tinha peças de avião, corpos… então é uma imagem muito chocante.”

A cobertura in loco da tragédia com os Mamonas Assassinas rendeu ao programa do SBT um recorde de audiência histórica. No dia, o programa alcançou picos de 47 pontos e registrou média de 37, consolidando-se como uma das maiores audiências da emissora. Presente no dia, Hamilton confessa que, pela proximidade, algumas vezes ficou bastante sensibilizado; a emoção era tanta que ele nem sequer se lembra de quantas horas trabalhou.

Entretanto, para além das imagens do local, que permanecem em sua mente até os dias de hoje, outro choque que o comandante levou foi com a presença dos civis no local. “Eu via lá embaixo muita gente misturada com os homens do corpo de bombeiros, alguns pegando pedaços do avião e levando para casa; foi uma sequência de acontecimentos que fazem você pensar na vida, concluir que a gente não é nada, que de repente tudo vai-se embora, que talvez o ser humano seja o ser menos humano que existe. O cara levar pra casa um pedaço do avião de recordação de um acidente? Fiquei bravo, deviam ter isolado a área.”

O legado que não morreu

Os integrantes da banda Mamonas Assassinas (e/d), Bento Hinoto (guitarrista), Dinho (vocalista), Samuel Reoli (baixista), Júlio Rasec (tecladista) e Sérgio Reoli (baterista) posam para foto em 1995.
Foto: VIDAL CAVALCANTE / Estadão

30 anos após a morte dos Mamonas Assassinas, a banda continua relevante e em evidência; só no Spotify são quase 2 milhões de streams mensais. Jorge Santana, CEO da marca e primo de Dinho, ainda endossa: “Atualmente, a gente está presente em mais de 143 países. Mamonas está presente numa geração que a gente jamais pensou que ouviria.”

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O familiar do vocalista também atribui o sucesso do grupo na atualidade a uma questão geracional. “Eles têm públicos de todas as idades, mas acho que quando você cativa um público jovem é uma galera que vai ser fã por muito tempo. Então, quando vejo fãs de 8 e 80 anos, eu penso que hoje os mais novos foram franqueados pelos mais velhos”, refletiu.

Nélio de Paiva, de 45 anos, é a prova viva disso. Fã dos Mamonas Assassinas desde os 15 anos, em 2018 ele fundou a Mamonas Replay, um cover do grupo que se apresentou em diversos estados e que, inclusive, já ganhou até reconhecimento da família dos músicos.

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Especial 30 Anos

Mamonas Assassinas

 

A trajetória meteórica do grupo que mudou o humor na música brasileira e se tornou um fenômeno imortal.

Atenção, Creuzebek!

A banda de Guarulhos conquistou o Brasil em apenas 7 meses de sucesso estrondoso. Ouça a introdução clássica clicando no ícone ao lado.

3Mi
Discos Vendidos
182
Dias de Turnê
10
Músicas no Top 1
1995
Lançamento

A Formação

Dinho
Vocalista
Bento Hinoto
Guitarra
Sérgio Reoli
Bateria
Samuel Reoli
Baixo
Júlio Rasec
Teclados

Assista aos Hits

Pelados em Santos
Vira-Vira
Robocop Gay
Sabão Crá-Crá
Jumento Celestino

Linha do Tempo

UTOPIA

A banda começou com um som sério e progressivo antes da virada cômica.

EXPLOSÃO

Saíram do anonimato para as maiores audiências da TV brasileira em meses.

Dicionário

Creuzebek

Codinome do produtor Rick Bonadio.

Brasília Amarela

O maior símbolo visual da banda.

Segundo o próprio, tudo que mantém o legado dos rapazes vivo não tem como ser barrado. “Se você faz uma homenagem legal, se você está lembrando deles, acho que a família sempre vai dar um apoio. O cover é só para fazer uma homenagem, não para ser eles.”

Pai de uma menina, ele garante que a pequena já ouve e gosta bastante dos Mamonas. “Eu até brinquei com a minha esposa. Se [minha filha] fosse menino, poderia me substituir quando eu me aposentar. Eu tenho quase 50 anos para ficar pulando, fazendo as coisas deles, é puxado. É uma homenagem bem cansativa, mas vale a pena demais”, disse Nélio.

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A mitologia

O vocalista do Mamonas Assassinas, Dinho (Alecsander Alves), é visto durante apresentação da banda em 1995
Foto: Fernando Sampaio / Estadão

Para além das homenagens oficiais e da saudade que insiste em atravessar gerações, há também um movimento contínuo de reativação da memória. Talvez seja isso que ajude a explicar por que os Mamonas Assassinas seguem tão vivos no imaginário popular. A cada dois ou três anos, um novo projeto surge, como se a história da banda se recusasse a descansar. Nos últimos cinco anos, vieram a cinebiografia, a turnê com o elenco do filme, relançamentos de faixas e outras iniciativas que voltaram a colocar o grupo no centro da conversa.

E o plano é que esse ciclo continue. “Em breve, a gente vem com outros projetos também”, adianta o CEO da marca. Entre as ideias em desenvolvimento estão o Mamoninhas, que adapta as canções para o público infantil, um documentário previsto para estrear no Globoplay, a criação de um museu dedicado à trajetória da banda e o incentivo ao Mamonas Futebol Amputados. Mais do que revisitar o passado, o objetivo parece ser outro: garantir que a irreverência dos cinco jovens de Guarulhos continue encontrando novos ouvidos.

Alguns projetos enfrentam mais dificuldades para serem executados do que outros, mas seguem no cronograma. “Íamos ter um projeto chamado Artistas Cantam Mamonas com nomes da atualidade. Há alguns anos, quando começamos a pensar isso para 2026, chegamos a falar com a Marília Mendonça, mas infelizmente depois teve o acidente dela, que foi muito similar ao do grupo. Eu tenho certeza de que, se infelizmente não tivesse acontecido o acidente, ela gravaria”.

No momento, o plano que está em maior evidência é a criação do memorial Mamonas Assassinas no Cemitério Primaveras, onde eles foram enterrados, em Guarulhos (SP). Para isso, os corpos dos músicos foram exumados e estão se transformando em árvores de Jacarandá. Quando tudo estiver encaminhado, o local será aberto à visitação do público. A iniciativa foi proposta pelo cemitério à família, que embarcou na ideia.

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Durante a cerimônia de exumação, um fato chamou atenção de Jorge Santana: “Uma jaqueta que foi colocada em cima do caixão do Dinho estava intacta, como se tivesse sido colocada ontem, isso eu achei uma coisa que me surpreendeu”, contou Jorge, com espanto que vem acompanhado de ambivalência: “Como familiar, na verdade, é muito triste. É uma sessão meio fúnebre, meio mórbida, mas acho que o propósito vale muito a pena, que é ressignificar esses 30 anos sem eles com esse memorial vivo, onde vai continuar existindo e tendo simbologia”.

Fonte: Portal Terra
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