O funk brasileiro celebra seu Dia Nacional neste domingo, 12 de julho, consolidado como uma das maiores potências econômicas e culturais do país, mas enfrentando o desafio de crescer no mercado pop sem perder sua identidade.
Presente em festivais internacionais, desfiles de moda e campanhas publicitárias milionárias, o gênero vive uma dualidade: ao mesmo tempo em que a profissionalização gera emprego e fura bolhas, a pressão por "higienizar" letras, gírias e estéticas para agradar marcas e playlists mainstream levanta debates sobre o apagamento de suas origens. Para entender esse cenário, o POPline conversou com o cantor Kevin o Chris, o cantor e produtor Hitmaker e a empresária Kamilla Fialho!
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Para ocupar o topo das plataformas de streaming e fechar contratos publicitários, o funk frequentemente passa por uma espécie de "laboratório". Clipes que antes tinham como cenário a laje, o passinho e a estética real das comunidades dão lugar a estúdios de chroma key, alta costura e letras suavizadas, sem palavrões ou gírias locais. Essa filtragem atende ao receio de grandes marcas e patrocinadores em relação ao "proibidão", criando uma versão palatável para o rádio e para a classe média alta.
A própria trajetória de Anitta exemplifica essa transição. Ao sair do circuito de bailes da Furacão 2000 no início da carreira, sua então empresária Kamilla Fialho e os produtores da época limparam os graves sujos e as letras explícitas. Hits como "Show das Poderosas" e "Zen" pegaram apenas o balanço do funk melody, misturando-o ao pop de rádio dos anos 2010. A estratégia funcionou: tirou o estigma de "música de periferia" e abriu as portas dos programas de domingo.
A empresária Kamilla Fialho, que esteve por trás da carreira de nomes como Anitta, Lexa e Kevin o Chris através da K2L, confirma que essa exigência foi uma barreira histórica:
"Durante muitos anos, essa era praticamente uma exigência do mercado. Existia uma ideia de que, para o funk ser aceito, ele precisava parecer menos funk. Como empresária, eu vivi muitas negociações em que tentavam enquadrar os artistas dentro de um padrão considerado mais comercial", revela Kamilla, que está com workshop no POPline Creators.
Por outro lado, os artistas defendem que a mudança de discurso deve ser uma escolha estética, não uma imposição de mercado. Kevin o Chris, uma das maiores referências do funk de favela que domina os charts, afirma que dita seu próprio ritmo:
"Nunca deixei de fazer meu som por causa disso. Tem música que pede uma linguagem mais leve e tem música que é baile mesmo. Sempre fiz do jeito que achei certo. Acho que dá pra conversar com todo mundo sem perder a identidade. O público percebe quando o artista tá sendo ele de verdade."
Hitmaker endossa a visão de que a versatilidade faz parte do crescimento, desde que haja verdade:
"Cada música pede uma linguagem diferente. Tem músicas que naturalmente conversam com um público maior e outras que são mais de nicho, mais da rua, mais da favela. O importante é que essa escolha seja artística e não uma condição para existir. Quando você muda quem você é só para caber em algum lugar, normalmente o público percebe."
Entre a evolução financeira e o apagamento periférico
Se no Brasil o funk precisa "mudar de roupa" para atrair marcas, no mercado global ele é absorvido pelas maiores estrelas do pop e do K-Pop, mas muitas vezes completamente esvaziado de seu contexto cultural e de seus criadores.
Um caso recente é o do ATEEZ. Na faixa "BAD", o grupo promoveu o lançamento destacando a mistura de elementos do funk brasileiro, mas entregou um produto final sem qualquer verso em português ou a participação de produtores do Brasil. No álbum "BRAT", de Charli XCX, a faixa "Everything Is Romantic" introduz uma batida acelerada de funk que, para o público estrangeiro, soa apenas como "Hyperpop" de vanguarda — totalmente higienizado de sua origem.
O dilema central da "gourmetização" do funk reside na distribuição de créditos e receita. Se por um lado a aproximação com o pop injeta dinheiro na engrenagem e internacionaliza o ritmo, por outro cria uma dinâmica onde os produtores independentes da periferia — os reais criadores das novas vertentes e batidas que viralizam nas redes — frequentemente permanecem invisíveis, enquanto artistas do mainstream absorvem a sonoridade e colhem os lucros publicitários.
O Hitmaker destaca que o mercado precisa evoluir urgentemente no reconhecimento dessa base criativa:
"A inovação quase sempre nasce na periferia. As tendências surgem em estúdios pequenos, nas comunidades, nos bailes, muito antes de chegarem às grandes gravadoras. Acho que o mercado evoluiu, mas ainda precisa reconhecer melhor quem cria essas linguagens. Dar crédito, abrir espaço e gerar oportunidades para esses profissionais é fundamental, porque sem essa base o funk não continua evoluindo."
Kamilla Fialho aponta que o amadurecimento da indústria deve ir além do campo simbólico:
"O problema é que, muitas vezes, quem cria não é quem colhe os frutos. O reconhecimento ainda precisa ser mais justo. Dar crédito é importante, mas garantir remuneração, direitos autorais e oportunidades para quem desenvolveu aquela linguagem é ainda mais importante."
Além da questão financeira, o processo traz à tona o debate sobre o preconceito de classe e o racismo estrutural. O mercado e a elite frequentemente aplicam dois pesos e duas medidas: o funk é criticado quando performado por artistas periféricos, mas é celebrado como "cult", inovador ou tendência quando absorvido por um contexto pop e embranquecido.
"Acho que isso tem muito mais relação com a origem do que com a música em si. Muitas vezes a mesma linguagem, a mesma batida ou até a mesma temática são vistas de formas diferentes dependendo de quem está cantando e de onde aquele artista veio", pontua Hitmaker.
Kevin o Chris é enfático sobre a impossibilidade de desvincular o ritmo de sua história:
"O funk tem uma história e essa história precisa ser respeitada. É um movimento preto, periférico e de favela. Não dá pra contar essa história tirando quem construiu tudo isso. O mercado pode crescer, pode entrar mais gente, mas a origem tem que ser lembrada sempre. É ela que fez o funk chegar onde chegou."
O futuro do movimento funk
A profissionalização e a expansão do funk são caminhos sem volta. Como movimento que gera emprego para DJs, produtores, técnicos, dançarinos e profissionais do audiovisual, o gênero se consolidou como uma cadeia produtiva robusta que transforma realidades socioeconômicas.
A grande provocação que fica para o público e para a indústria neste Dia Nacional do Funk é se o gênero conseguirá habitar os casarões do pop global mantendo a alma que nasceu nos becos da favela, ou se corre o risco de se transformar em apenas mais um produto de plástico moldado pelas exigências do mercado corporativo.
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