No fim dos anos 1970, no Bronx, região de Nova York marcada pela pobreza e pelo abandono, jovens negros e latinos encontraram, numa festa de rua, uma nova forma de se expressar. Não havia muito dinheiro, mas havia ritmo, poesia e urgência — e foi dessa combinação que nasceu o rap. DJ Kool Herc, Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa foram os pioneiros, junto com dezenas de outros MCs e, em poucos anos, o gênero cruzou o oceano e atravessou continentes com nomes que definiram épocas: Public Enemy, Tupac Shakur, The Notorious B.I.G., Jay-Z, Eminem. Cada um levou o rap um pouco mais longe — geograficamente, comercialmente, artisticamente.
No Brasil, o gênero chegou na segunda metade dos anos 1980 e nunca mais saiu. Foram os Racionais MC's, MV Bill, Criolo, Emicida e tantos outros que popularizaram o rap em território nacional. Uma geração atrás da outra, o gênero foi crescendo, e foi nessa linhagem que Projota construiu sua trajetória: mais de duas décadas de estrada, uma voz que cruzou o rap com o mainstream sem abandonar as origens e uma carreira que ajudou a provar que o gênero cabia em qualquer lugar onde houvesse alguém disposto a ouvir.
Nesta quinta-feira, 6, Dia do Rap, ele conversou com a Rolling Stone Brasil sobre sua trajetória, mudanças na cena e perspectivas para o futuro.
Para o rapper, a vida e a arte não são coisas separadas. São espelhos que se refletem constantemente. "As mudanças [na carreira e na vida] são reflexo um do outro. No entanto, creio que as transformações pessoais impactam minha arte de forma ainda mais intensa." Seria impossível, explica, que sua música não mudasse diante de uma vida em movimento.
A trajetória de Projota é, portanto, um retrato das transformações do rap brasileiro. Quando começou, nos anos 1990 e no início dos anos 2000, tudo era selvagem e purista.
"Antigamente, tudo era um pouco mais purista, e as intenções que tínhamos quando começamos a fazer rap não eram influenciadas pelo dinheiro, simplesmente porque não havia dinheiro envolvido. Sinceramente, embora isso hoje, de certa forma, possa desvirtuar algumas atitudes coletivas, eu não gostaria que voltássemos àquela realidade. Prefiro ver os meninos e as meninas desta geração tendo a possibilidade de enxergar uma luz no horizonte por meio da música rap."
Projota ajudou a levar o rap para lugares que o gênero nunca havia ocupado antes. Curiosamente, nem sempre foi uma decisão consciente. "No início, eu jamais pensava nisso. Mas, conforme os anos passaram e minha música foi conquistando o gosto popular, essa responsabilidade se tornou algo consciente", explica. "Passei a tomar decisões que colaborassem com esse movimento, criando músicas com mensagens fortes, mas que pudessem ser consumidas por diferentes públicos."
E, com a popularização do gênero, muitos acreditam que o propósito do rapper perdeu força ao chegar ao mainstream. Projota, porém, prefere o equilíbrio — visando o mainstream, mas sempre com a cabeça nas raízes: "O equilíbrio, na maioria das vezes, é a resposta mais adequada. É possível fazer o seu rap, conquistar seu espaço, ganhar dinheiro, buscar mais recursos e crescer, sem ultrapassar limites que fazem parte dos pilares dessa cultura."
Quanto à nova geração, Projota acompanha com atenção.
"Sou muito fã do Jotapê. Ele veio das batalhas de rima, é um jovem artista e acredito que tem um futuro brilhante pela frente. Também faço questão de destacar as mulheres que vêm representando o rap de forma extraordinária. São tantas que fica até difícil citar todas, mas posso mencionar alguns exemplos. Sou fã da Ebony, da Duquesa e da AJuliaCosta", lembra. "É muito bonito ver o que elas vêm construindo e como carregam a atitude que precisamos ver dentro da cena."
Quando questionado sobre o que o rap ainda precisa conquistar — seja em reconhecimento, estrutura ou representatividade — Projota identifica algo que se perdeu no caminho e que precisa ser reconstruído: "Precisamos reconstruir o sentimento de comunidade que existia antigamente. É importante que um fortaleça mais o outro e que todos colaborem para que a cena continue crescendo e se fortalecendo."
Em uma era de competição por algoritmos, playlists, streams — quando tudo virou moeda de troca — essa comunidade não é algo que se reconstrói uma única vez: precisa ser constantemente cultivada. A verdadeira aventura, afinal, não é conquistar números. É criar algo que resista, que acolha, que fortaleça todos. Números são bons, estrutura é necessária, mas uma comunidade sólida é o que torna tudo sustentável.
É por isso que seu conselho ao jovem Projota não é sobre sucesso ou fama:
"Eu diria: 'Só continua, moleque. Não vou te contar nada do que está por vir, porque a glória está na aventura, e não no final do filme'", finaliza.