A busca desenfreada por tratamentos contra a obesidade e o diabetes transformou o Brasil no epicentro de uma revolução farmacêutica. O mercado dos medicamentos conhecidos como agonistas de GLP-1 — classe que engloba substâncias famosas como a semaglutida e a tirzepatida — movimentou impressionantes R$ 14,6 bilhões no mercado formal no acumulado de 12 meses até abril de 2026.
O crescimento é de 110% na comparação com o período anterior, segundo dados da IQVIA compilados pelo Itaú BBA.
Analistas de mercado projetam que as vendas formais devem fechar o ano de 2026 na casa dos R$ 20 bilhões, com potencial para atingir R$ 61 bilhões até 2030. A febre é tão grande que esses remédios já representam 5,7% de todo o varejo farmacêutico do país, impactando diretamente outros setores da economia, como a indústria de alimentos, vestuário e até a aviação.
No entanto, o alto preço dos medicamentos de referência e os problemas de abastecimento empurraram milhões de consumidores para uma alternativa: as farmácias de manipulação. Nos últimos 12 meses, o mercado de GLP-1 manipulado movimentou sozinho R$ 10 bilhões. É aí que acende o sinal de alerta para a saúde pública.
Poucas farmácias autorizadas e o perigo do mercado clandestino
700 farmácias de manipulação ativas. Porém, um dado que pouca gente conhece é que apenas cerca de 20 estabelecimentos no país inteiro estão autorizados pela Anvisa a produzir medicamentos injetáveis e estéreis. Essa categoria exige laboratórios com tecnologia de ponta e isolamento absoluto para evitar contaminações.
O vácuo entre a enorme demanda e a produção restrita alimentou um mercado paralelo perigoso. Estima-se que o comércio informal e clandestino de emagrecedores tenha movimentado R$ 12,5 bilhões nos últimos 12 meses. Isso significa que o mercado ilegal já é 1,7 vez maior do que as vendas do principal medicamento de marca da categoria.
Para tentar frear a pirataria e proteger o paciente, a Anvisa endureceu a fiscalização. Desde o ano passado, entraram em vigor novas regras que exigem a retenção obrigatória da receita médica e o rastreamento completo de toda a cadeia de insumos por sistemas oficiais. A corrida pelas fórmulas aumentou ainda mais após março deste ano, com a queda da patente da semaglutida.
Startups tentam organizar o setor
Diante do caos na distribuição e do risco de falsificações, começaram a surgir empresas focadas em trazer segurança jurídica e médica para o setor. É o caso da startup brasileira M7 Group, que criou o primeiro "hub de soluções de saúde" do país para fazer a ponte direta entre os laboratórios autorizados e os médicos que prescrevem o tratamento.
Em pouco mais de um ano, a empresa estruturou uma força de vendas com mais de 70 consultores especializados, operando ativamente em 21 estados. A proposta é garantir que o médico saiba exatamente qual laboratório certificado está produzindo o medicamento injetável do seu paciente.
"O mercado de saúde não perdoa atalhos. Construímos a M7 para que o médico tenha na nossa operação a mesma segurança que ele exige de um laboratório. Quando marketing, vendas e operação falam a mesma língua, o resultado é confiança — e confiança é a moeda mais valiosa nesse setor", explica Vinicius de Paula, cofundador e CMO da M7 Group.
O avanço desse mercado também aponta para uma nova preferência de consumo: em junho de 2026, a tirzepatida assumiu a liderança do segmento de alta renda, abocanhando 57% de market share do mercado total de GLP-1, segundo dados da InfoPrice.
Para os fundadores da startup, o crescimento acelerado mostra que o mercado pedia por profissionalização. "Quando percebemos que laboratórios, médicos e pacientes estavam tentando resolver o mesmo problema sem conversar entre si, entendemos que o mercado precisava de uma nova estrutura", afirma a cofundadora Gabriela Moreira. O CEO Marcos Alves conclui: "A saúde só evolui quando todos os elos da cadeia evoluem juntos.