São Paulo terá uma amostra tripla do chamado southern rock, ou rock sulista, em 2026. A jornada começa agora em abril, quando Lynyrd Skynyrd e Blackberry Smoke exibirão as lendas e heranças desse conceito norte-americano que atravessou décadas.
Os veteranos tocam na capital neste sábado, 4, no festival Monsters of Rock, ao lado de Guns N' Roses e Extreme, entre outros, enquanto os mais contemporâneos têm show solo agendado no dia 11, na Audio. Além deles, o ZZ Top, outra referência do subgênero, confirmou uma nova visita ao Brasil para novembro.
'Música verdadeira'
Basicamente, o southern rock surgiu no final dos anos 1960 com a proposta de resgatar as raízes musicais dos EUA, em um período dominado pela 'invasão britânica' e pelo rock psicodélico dos hippies.
Seus símbolos mais comuns incluem a bandeira confederada (historicamente associada aos estados do sul, embora hoje seja controversa devido ao passado pró-escravidão) e elementos visuais que remetem a estradas, motocicletas e bares. Musicalmente, mistura rock com blues, country e gospel, valorizando guitarras vigorosas, em um som mais cru e emotivo. As letras geralmente abordam temas como patriotismo, liberdade, fé e dramas do cotidiano.
"É música honesta, verdadeira e que faz seu coração se sentir bem", resumem Rickey Medlocke, guitarrista do Lynyrd Skynyrd, e o cantor Charlie Starr, do Blackberry Smoke, em falas semelhantes, apesar de terem sido entrevistados separadamente por videoconferência.
Lynyrd Skynyrd: da tragédia ao legado
Formado na Flórida e celebrado pelos clássicos Free Bird e Sweet Home Alabama, o Lynyrd Skynyrd enfrentou uma tragédia aérea em 1977, quando vivia seu auge. O acidente, causado por falta de combustível, matou três integrantes, incluindo o vocalista Ronnie Van Zant, e outras três pessoas. O guitarrista Gary Rossington, sobrevivente daquele episódio mórbido no Mississipi, morreu em 2023, aos 71 anos.
Medlocke chegou a integrar a formação original, como baterista, mas precisou se afastar devido a uma condição respiratória que lhe dificultava atacar o instrumento. Ele optou por seguir carreira como guitarrista/cantor à frente da Blackfoot, também uma instituição do estilo - e famosa pelo "disco da cobra", Strikes (1979), de sonoridade mais pesada e calcada na cultura indígena dos EUA.
Décadas depois, em 1996, Rickey aceitou um convite para se juntar ao Lynyrd, após o conjunto ter sido reativado com Johnny Van Zant, irmão de Ronnie, nos vocais. O músico de 76 anos diz se ofender quando ouve comentários de que a atual configuração seja puramente um "tributo" ou "cover".
"Não somos estranhos que de repente se juntaram e decidiram se chamar Lynyrd Skynyrd. Gary fez Johnny e eu prometermos, antes de ele falecer, que não deixaríamos a banda acabar e simplesmente desaparecer", justifica.
Ele destacou, ainda, a intenção de mudar o setlist para os shows no Brasil a fim de incluir canções de álbuns recentes como Gods & Guns (2009) e Last of a Dyin' Breed (2012).
Blackberry Smoke: as heranças do rock sulista
30 anos depois do Lynyrd Skynyrd ter lançado seu LP de estreia, Pronounced 'Leh-'nérd 'Skin-'nérd (1973), o Blackberry Smoke debutou com o CD Bad Luck Ain't No Crime (2003), mostrando as heranças do rock sulista.
As duas bandas já se juntaram algumas vezes em palcos pelos EUA e são amigas. "O Lynyrd Skynyrd é tão importante para mim que eu não consigo me lembrar de não conhecer a música deles. Ouço desde que era um garotinho", relata Starr, líder do grupo fundado na Geórgia no começo dos anos 2000.
O catálogo do BBS foi bastante explorado na série Yellowstone, faroeste contemporâneo estrelado por Kevin Costner e que gerou outras produções derivadas como 1883, 1923 e Marshals. Faixas como Good One Comin' on e Ain't Much Left of Me foram inseridas na trilha sonora para embalar aquele universo implacável de caubóis do século 21.
"Há pessoas que são expostas à nossa música inicialmente por causa do programa", comenta Starr. "Encontrei Taylor Sheridan [criador do seriado] apenas uma vez, então não posso dizer que somos amigos. Geralmente, eles [a produção] me avisavam antes quando uma música nossa iria tocar. Mas uma vez não me falaram, fui assistir a um episódio e fiquei surpreso quando ouvi Train Rollin', uma canção do nosso primeiro álbum a qual eu não ouvia há muito tempo. Quando começou a tocar, pensei: 'quem é esse?'. E aí percebi: 'caramba, somos nós!'. É uma sensação surreal e engraçada", complementa.
A formação também não passou ilesa a tragédias. O baterista Brit Turner, membro-fundador, morreu em 2024 aos 57 anos após uma batalha contra um câncer cerebral agressivo, doença contra a qual lutava desde 2022.
"Ainda não parece que ele se foi", confessa o frontman de 51 anos. "Ele era meu melhor amigo. Mas toda vez que penso no que estamos fazendo, ele está bem ali nos meus pensamentos. Penso nele todos os dias".
Mesmo afetados pelo luto, os roqueiros seguem na estrada e chegam ao País comemorando 25 anos de carreira. No ano passado, publicaram a coletânea Rattle, Ramble & Roll: The Best of Blackberry Smoke, com duas faixas inéditas.
"Estivemos apenas uma vez no Brasil, em 2019, e estamos ansiosos para voltar. Nós costumamos variar bastante o repertório, mas tocaremos as principais canções, aquelas que os fãs não nos deixariam sair do palco sem tocá-las", finaliza Starr.
Lynyrd Skynyrd - Monsters of Rock
- Quando: 4 de abril de 2026
- Onde: Allianz Parque (Avenida Francisco Matarazzo, 1705)
- Ingressos: eventim.com (baixa disponibilidade)
- Preços: R$ 300 a R$ 1,3 mil (camarote VIP Backstage Mirante de R$ 2,4 mil a R$ 3 mil)
- Shows em outras cidades: Curitiba (1/4), Rio (5/4) e Porto Alegre (7/4)
Blackberry Smoke - Rattle Rumble and Roll Tour
- Quando: 11 de abril de 2026
- Onde: Audio (Av. Francisco Matarazzo, 694).
- Preços: R$ 250 a R$ 700
- Shows em outras cidades: Porto Alegre (8/4), Belo Horizonte (10/4) e Curitiba (12/4)